O Papai Noel de São Carlos em 2003

Avenida São Carlos com movimento pequeno/Maurício Duch

Por Cirilo Braga

Faltavam alguns dias para o Natal de 2003 e eu tomava café na lanchonete do saudoso Luciano Gianlorenço, na Avenida São Carlos, ali perto do calçadão, quando avistei do outro lado da calçada a própria figura de um Papai Noel em andrajos, sentado ao lado de uma enorme trouxa. O homem de espessa barba grisalha tinha o figurino de Santa Claus, um tanto menos rechonchudo. Um Papai Noel brasileiro. Eu não resisti e me aproximei dele. Contei-lhe  sobre a imagem que me despertou e prometi presenteá-lo com uma indumentária do bom velhinho, que vi um dia antes exposta na porta de uma loja. Era uma única peça e havia esperança de que ainda estivesse disponível e que lhe coubesse no corpo.

Quando o procurei  mais tarde para fazer a entrega, ele já não estava no mesmo ponto, mas ainda na baixada do mercado, deparei com a figura de alguém igualmente muito parecido com Papai Noel, também sentado na calçada. Claro, era ele próprio – e dezessete anos depois eu ainda me lembro de sua expressão ao abrir o pacote . Seu rosto se iluminou, me garantiu que vestiria a roupa no banheiro do mercado e arrumaria balinhas para distribuir para crianças ainda naquele dia. “Passa por aqui hoje à noite que você vai me ver em cena”.

E, de fato, horas depois eu o vi de passagem, à distância no centro comercial. Estava no meio do povo, como personagem de um conto de Dickens,  portando um saco de balinhas e parecendo se divertir.

Natais parecem todos iguais, mas vivemos cada um de um jeito diferente. Nunca mais revi aquele senhor, cuja aparição se deu no final do ano em que minha mãe faleceu. Ela, que não passava um Natal sem dar suas “lembrancinhas” de presente para filhos e netos.