O Som do Cury e o Rock Progressivo Brasileiro

Foto: Divulgação/Diário On Line

Pesquisa feita por Marcelo Cury

O Rock Progressivo no Brasil começou mais tarde do que na Inglaterra ou na Itália (por exemplo), exatamente porque a influência veio desses países, e obviamente demorou um pouco para chegar em terras Tupiniquins em um tempo onde a informação, literalmente, vinha de barco!

 

Além disso, a influência que as bandas Brasileiras tinham no início dos anos 70 (assim como em muitos outros países) era completamente diferente de seus pares Europeus. O Prog Brasileiro vem, na maiorias das vezes, pintado com cores acústicas e muitas vezes com uma influência enorme da música Brasileira mais tradicional e regional.

 

As primeiras bandas brasileiras do gênero começaram a gravar em torno de 1971 e o pico do gênero no país ocorreu entre 1974 e 1975 quando várias bandas lançaram seus melhores discos.

 

A maioria dos artistas Prog do país, em semelhança com o Prog italiano, não conseguiu carreiras longas e de sucesso, esse reconhecimento geralmente veio décadas depois com a ajuda da internet. Muitas vezes, as bandas lançaram um ou dois discos e se dissolveram logo depois, geralmente por desentendimentos com as suas gravadoras.

 

Os anos 70 foram sem dúvida o ápice do gênero no país com diversos lançamentos. Ao longo dos anos 80 poucos álbuns de boa qualidade podem ser encontrados, na verdade, no geral, poucos foram os lançamentos Progressivos nessa época. O tão popular estilo europeu chamado de Neo Prog não pegou por aqui. Os anos 80 foram mesmo completamente tomadas pelo Rock Popular que se casou chamar de “BRock”. Somente em meados da década de 90, as bandas começaram a florescer novamente no país. Essas bandas foram especialmente influenciadas pelo retorno do Pink Floyd em 1994 e também pelas bandas de Metal Progressivo.

 

PESQUISA – MARCELO CURY

 

 

MÓDULO 1000 1970 | Não Fale Com Paredes

O Módulo 1000 foi uma banda formada em 1969 no Rio de Janeiro. Este foi o primeiro disco de Heavy Psych lançado no Brasil e a influência do Rock Progressivo pode ser sentida em diversos momentos. Embora o álbum ainda estivesse embebido em cores Psicodélicas, eles foram muito além da simples “loucura de drogado” do Rock Psicodélico tradicional.

O álbum Não Fale Com Paredes foi lançado pela gravadora Top Tape (mais conhecida por distribuir filmes) e diversas vezes aparece em listas de colecionadores hardcore porque é um ítem muito raro.

SOM IMAGINÁRIO
1973 | Matança Do Porco | 

O Som Imaginário nasceu para ser o grupo de apoio de Milton Nascimento em 1970. Após a turnê, a banda continuou e começou a gravar seus próprios álbuns.

Os dois primeiros discos (1970 e 1971) tinham um direcionamento mais psicodélico/popular com Zé Rodrix como principal compositor.

Foi apenas em 1973, quando o maestro Wagner Tiso começou a liderar a banda que eles se tornaram, de fato, uma banda Progressiva. E a coroação dessa nova fase foi a obra-prima Matança Do Porco, lançado pela poderosa (na época) gravadora Odeon.

Depois deste clássico o grupo seguiu sendo banda de apoio e chegou a gravar diversos discos de cantores populares, mas como banda autoral, nunca lançou outro disco, infelizmente.

SOM NOSSO DE CADA DIA 1974 Snegs

Muitas vezes chamado de “O ELP Brasileiro” (devido à formação similar sem guitarra), o Som Nosso De Cada Dia foi formado em 1972 em São Paulo e tinha em dua formação Manito (teclados, violino e saxofones), que já era uma lenda no Rock Brasileiro tendo sido membro d’Os Incríveis.

Após 2 anos de reclusão e ensaios, a banda conseguiu um contrato com a Continental e gravou o seu primeiro e clássico álbum Snegs.

A banda fez muitos shows na época do lançamento do disco, entre 1974 e 1975, incluindo a abertura dos shows do Alice Cooper no Brasil.

Naquela época, devido ao sucesso de seus shows, a gravadora queria que a banda abrisse o seu leque sonoro e vendesse mais discos. Em 1975 a Black Music e a Disco Music começavam a se tornar mais e mais populares no Brasil e a Continental estava apostando nesse som. A banda lutou contra essa ideia, mas eles estavam sob contrato e depois de muita discussão e pressão, acabaram cedendo.

Ainda em 1975 o grupo estava trabalhando em uma suíte de 20 minutos chamada “Amazônia” e muitas músicas novas (Progressivas) foram tocadas em seus shows na mesma época (como mostra o disco ao vivo A Procura Da Essência, lançado em 2004 com faixas gravadas entre 1975 e 1976). No fim, toda a discussão com a gravadora desgastou o grupo e o material Prog que vinha sendo apresentado ao vivo seria descartado, por essas e por toda a pressão pra ser um sucesso comercial fizeram Manito deixas a banda no final de 1975.

Somente em 1977 saia o segundo disco do grupo, chamado apenas Som Nosso. Esse disco foi dividido em duas partes: o lado A chamado Sábado, com um som calcado na Black Music e dançante, e o lado B chamado Domingo, voltado para o Rock Progressivo mas sem a profundidade que o estilo pede. Não preciso dizer que Som Nosso não foi bem recebido pelos fãs do Snegs e falhou em conquistar um grande número de fãs novos.

Após o fracasso comercial do segundo disco a banda se desfez e seus membros seguiram seus próprios caminhos (o baixista Pedro Baldanza gravou com diversos artistas populares, incluindo Ney Matogrosso), no entanto houve um retorno em 1993 quando Snegs foi lançado em CD pela primeira vez e até um disco ao vivo foi lançado em 1994.

No final o que fica na história do Prog BR é mesmo Snegs e sua genialidade, sendo um clássico absoluto em se tratando de Prog no Brasil. Disco essencial!

 

MUTANTES
1974 | Tudo Foi Feito Pelo Sol | 

Os Mutantes dispensa apresentações já que foi uma banda seminal para o Rock Brasileiro e tem reconhecimento mundial de seus feitos no fim dos anos 60.

O grupo sempre seguiu o caminho da Psicodelia com uma bela pitada de humor em suas letras, as coisas começariam a mudar no início dos anos 70,

Em 1972, a relação entre Arnaldo Baptista (teclados) e Rita Lee (vocais) – casados na época – chegou ao fim, o tópico é complexo e a história nunca foi realmente contada com todos os pingos que os ‘is’ mereciam, mas é fato de que a mudança de som que a banda vinha praticando era um fator decisivo, também, para a derrocada do casamento.

Assim que Rita Lee deixou a banda, o agora quarteto, se enfurnou em um sítio para compor e o resultado foi o magnífico O A E O Z. Na época a gravadora do grupo vetou o disco e o engavetou dizendo que o mesmo não era comercial. Só em 1992 o disco viu a luz do dia, 19 anos depois de sua gravação.

Depois do disco recusado pela gravadora a banda basicamente se desfez: Arnaldo Baptista foi tentar uma carreira solo (e gravou o estupendo Loki, em 1974), o baixista Liminha se enveredou no ramo de produção e o baterista Dinho saiu do ramo musical por muitos anos.

O guitarrista Sergio Dias decidiu então que a história dos Mutantes não estava terminada e chamou um trio de respeito para completar a banda: Túlio Mourão (teclados), Antônio Pedro (baixo) e Rui Motta (bateria). O quarteto então começou a ensaiar o que seria o disco mais Progressivo do grupo, Tudo Foi Feito Pelo Sol, lançado pela Som Livre em 1974.

O disco embarca de carona no som Sinfônico do Yes mas tem pitadas de Hard Rock e traz as letras bicho-grilo, que são a marca de todo som Prog feito nos anos 70 no Brasil.

A banda ainda teve um último disco antes de entrar em estado de hibernação, Ao Vivo de 1976 (que apesar de ter sido gravado ao vivo é composto completamente por material inédito), e se dissolveu em 1978. Como curiosidade, existem muitos bootlegs pela web com um monte de material inédito desse período (1976/1978), que nunca teve chegou a ser gravado em versões de estúdio.

Em 2006 a banda original (sem Rita Lee) fez um retorno triunfante, mas concentrando-se apenas no material Psicodélico (1968/1972). Eles lançaram 2 discos de estúdio e um ao vivo desde então.

Em 2013, o quarteto que gravou Tudo Foi Feito Pelo Sol se reuniu novamente e fez alguns shows especiais pelo Brasil onde eles tocavam o disco na íntegra. Todos os shows estavam lotados, mostrando o quanto esse disco ganhou a devida popularidade e respeito com o passar dos anos!

A BARCA DO SOL
1974 | Pirata

A Barca Do Sol era uma banda completamente diferente dentro do cenário Brasileiro. Existiram diversas bandas que baseavamo sem som no Folk (sub-gênero conhecido como Progressive Folk, ou Folk Prog), mas nenhuma banda chegou perto da sofisticação d’A Barca Do Sol com sua mistura entre o erudito e a MPB. O som da banda vinha recheado de flautas, violões, violoncelo e todos os tipos de instrumentos acústicos tradicionais brasileiros possíveis, tais como o cavaquinho e o berimbau, só pra citar alguns.

É fato comum entre os fãs de Rock Progressivo que os dois primeiros discos do grupo são clássicos: o auto-intitulado (de 1974) e, especialmente, Durante O Verão [1976]. Mas na minha opinião o disco que casa perfeitamente o som de câmara com a MPB e Folk é o terceiro e pouco falado Pirata.

Neste álbum toda a musicalidade do grupo vem recheada de ‘brasilidades’ como melodias de flauta ritmadas por berimbau ou o Prog mesclado com cavaquinho e percussão típica de samba. Estranha combinação? Sim! Mas também empolgante, original e necessário!

Após esse terceiro disco o grupo encerrou suas atividades e muitos músicos que fizeram parte da formação da banda (como Jaques Morelenbaum, Nando Carneiro e Ritchie), seguiram carreiras bem sucedidas dentro da música Brasileira.

MARCO ANTONIO ARAÚJO
1984 | Lucas | 

Marco Antonio Araújo era um músico ímpar dentro do cenário Prog tupiniquim. Além de andar na contramão da música popular e fazer Prog no estilo Sinfônico em plena década de 80, MAA (como é popularmente conhecido) também se diferenciava de outros guitarristas pelo fato de tocar única e exclusivamente violão, e violão de cordas de aço ainda por cima, não o famoso ‘violão de nylon’, tão popular na MPB e no Brasil.

MAA começou sua discografia de forma audaciosa quando em 1980 lançou de forma independente o disco Influências. Na verdade, todos os 4 álbums do músico foram lançados de forma independente através da sua própria produtora, a Strawberry Fields.

Tanto em Influências quanto em Quando A Sorte Te Solta Um Cisne Na Noite [1982] é possível notar suas influências e uma clara paixão por Pink Floyd. Já o terceiro disco traz o músico imerson num clima clássico (ele era membro da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais) e junto à um trio grava o disco Entre Um Silêncio E Outro [1983].

Mas é em Lucas (nome do segundo filho de MAA) que esse exímio violonista chega à perfeição sonora. O disco é um exemplo de como fazer Rock Progressivo instrumental sem ser chato e “Lembranças” é a cereja no topo de um bolo mais do que delicioso!

Nascido em Minas Gerais Marco Antonio Araujo morreu aos 36 anos no dia 6 de Janeiro de 1986 devido à um subito e inesperado aneurisma cerebral. MAA morreu em um momento de sua carreira em que ele fazia shows no Brasil todo e a revista Veja lhe premiava como o melhor instrumentista do país. Perda irreparável não somente para o Prog Brasileiro mas para a música nacional num todo.

 

 

VIOLETA DE OUTONO
2007 | Volume 7

Sim, eu sei o que você está pensando nesse exato momento: “Como assim, não é o primeiro disco da banda que está na lista?” Não meu amigo, não é!

Explico: Concordo que o disco de estreia do grupo paulista, de 1987, é um marco e um clássico do Rock Brasileiro, mas aquele primeiro disco é pura psicodelia, não há nada de Rock Progressivo naquele disco. A verdade é que o Violeta de Outono só se tornou um grupo Progressivo quando da mudança de formação em 2005 e a entrada do baixista Gabriel Costa e principalmente do tecladista Fernando Cardoso. Se antes a banda se embebedava nas cores pintadas por Syd Barret com a entrada dos novos membros eles passaram a beber o chá das 5 da pastoral cidade inglesa de Canterbury e passou a ouvir mais e mais bandas como o Caravan.

Em 2005 a banda lançou o disco Ilhas e esse é o primeiro passo dessa nova fase, mas se nesse disco o resultado é fraco e confuso, no disco seguinte, Volume 7, o grupo se encontrou e gravou o melhor disco deles até o momento!

Vejam bem, desde 2007 o Violeta já lançou outros 2 discos (Espectro [2012] e Spaces [2016]), e todos os dois são absolutamente fantásticos. Mas Volume 7 tem um algo a mais que faz com que o ouvinte seja transportado pra um mundo bem particular, o mundo das Violetas, e vale apena embarcar nessa viagem sóbria!

 

 

 

O TERÇO
1975 | Criaturas da Noite

O Terço foi na verdade uma das primeiras bandas brasileiras a tocar Rock progressivo de verdade. A banda gravou o seu primeiro disco, totalmente voltado para a psicodelia e a MPB, em 1970 e o primeiro disco Prog em 1973 onde podemos encontrar a suíte “Amanhecer Total e seus quase 20 minutos.

No entanto não há como negar que o auge Progressivo da banda foi com o seu terceiro disco, Criaturas Da Noite. A mudança de formação e a adição de um tecladista permamente (ninguém menos que Flávio Venturini que depois fundaria o 14 Bis) fez com que o som da banda mudasse, além da influência do Hard Rock agora a banda também entrava de vez no Progressivo Sinfônico.

Após Criaturas Da Noite o grupo continuou gravando até meados de 1983, voltando em 1990 e nunca realmente parou desde então apesar de não lançar um disco com material inédito desde 1998, 20 anos atrás.

TERRENO BALDIO
1975 | Terreno Baldio