O vendedor cronológico

“Saturno devorando um filho” (1819 - 1823), pintura a óleo do espanhol Francisco de Goya (1746 - 1828). Fonte imagem: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/82/Francisco_de_Goya%2C_Saturno_devorando_a_su_hijo_%281819-1823%29.jpg

A mesa ovalada reluzia no centro o Sol, enfrentando a cinzenta poluição da cidade, dentro de uma sala espaçosa no alto de uma torre onde reinam alguns proprietários do mundo. A torre apresenta toda a sua formosura arquitetônica fazendo a rigidez do sólido concreto se amolecer como que mostrando a desenvoltura e flexibilidade daquele ramo de negócios.

Os executivos chegavam aos poucos e se aconchegavam nas cadeiras modernas e ousadas circundando a mesa ovalada. Um deles parecia muito ansioso, em uma abstinência nicotínica. Outro embebido na falta de um pouco de álcool, hábito corriqueiro no seu dia-dia. Alguns, aguardando, olhavam o teto, outros verificavam a hora no relógio a uma taxa constante, e um ou dois ousavam sair do assento para admirar a pálida selva de pedra pelo vidro que os separava do mundo.

Quase todos já tinham chegado, ainda faltavam dois lugares a serem preenchidos. Todos envolveram a mesa e embebidos pelos dois focos da elipse formada pela mesa, se entreolharam emudecidos. Faltando dois minutos do horário marcado, adentrou a sala um homem alto e magro, enfiado milimetricamente no seu engomado terno de cor não muito bem definida, hora cinza, hora azul carregando uma maleta prateada.

Todos aguardavam ansiosamente por uma nova proposta de negócio pela qual foram chamados. O homem vinha e olhava todos abaixando sua cabeça levemente como em um comprimento frio e “profissional”. Estava ali para fazer negócios ou como diriam os gregos: negar o ócio.

Sem se sentar, se alinhou com a sua cadeira na ponta da mesa e posicionou sua maleta de forma a abri-la. Apesar de parecer um conteúdo grande devido as proporções avantajadas da maleta de mão, ele retirou desta apenas um notebook, demonstrando ultra leveza em sua compactibilidade. A delicadeza protegida pela robustez. Desceu rapidamente a tela de projeção, ligou o projetor e conecta o notebook. Após dois minutos do horário marcado, iniciou-se a reunião:

– Bom dia a todos meus caros. Hoje vou ser curto e simplório em minhas palavras. Pois na minha concepção e acredito que na vossa também, o tempo é o bem mais precioso, antes mesmo do dinheiro. Porque o dinheiro depende do tempo. Mas o tempo parece não depender de nada, apenas de si próprio. Bom… vamos começar a nossa apresentação – seguido de algumas respiradas mais profundas e algumas tosses dos presentes.

Mostrando uma ampulheta na tela de projeção, disse:

– Quero que olhem para ampulheta e reflitam: o tempo é importante?

Eles se entreolharam estranhamente como não entendendo o porquê de um homem de negócios fazer uma pergunta tão fundamental e quase que retórica.

– É óbvio que sim – respondeu alguns instantes depois – Mas vejo que o tempo é importante mas a sua passagem parece não fazer mais sentido para muitos seres humanos. O tempo que eles gastam com coisas inúteis e que deixam seu cérebro em transe pode ser uma fraqueza para a atuação do marketing digital.

Os presentes logo avivaram seus semblantes, talvez palavras-chaves sempre possuem mais efeito na mente das pessoas, por isso a importância da neurolinguística.

– Logo a minha proposta se baseia em um princípio físico, para ser mais exato. Disse um famigerado cientista, Albert Einstein, que a passagem temporal é relativa conforme ao observador, isto é, o tempo passa conforme cada um de nós. Mas ao contrário dos princípios físicos, dos quais não sei nada muito profundamente, prefiro ficar na superficialidade do conceito, assim como todos os indivíduos que consomem coisas inúteis e apenas aplicar um conceito simples que pode funcionar.

Alguns dos presentes demonstravam faces embaralhadas e quase que perdidos na apresentação, sem saber onde o proponente queria chegar com essas peripécias abstratamente estranhas. De repente o proponente mudou a projeção na tela para a obra “Saturno devorando um filho” do artista plástico espanhol Francisco de Goya. Uma criatura estranha tomou a visão daquelas pessoas presentes na sala. Uma criatura que devorava um ser humano sem ressentimentos ou escrúpulos. Um verdadeiro antropófago.

– Quando adolescente, ainda quando a tecnologia não dominava o mundo, com suas necessidades impostas avidamente a todos, li em um livro sobre mitologia grega que contava sobre Saturno, ou para os gregos, Cronos, que era o Titã que representava o tempo. Ele por sua vez, costumava devorar seus filhos com medo de uma maldição de um oráculo, que dizia que ele seria destronado por um dos seus filhos. Fato que ele próprio cometeu contra seu próprio pai Caelus, ou Urano para os gregos.

Os presentes pareciam se sentir em meio a um deboche e achando que o próprio proponente, tão preocupado com o tempo, estava aplicando um golpe para furtar um pouco do tempo deles.

– Mas o que isso tem a ver com o negócio que quero apresentar? Percebo que vocês apresentam uma feição de incômodo, por acharem que tudo isso que mostro é uma perda de tempo sem sentido. Mas quero que vocês entendam que o tempo pode devorar as pessoas sem mesmo elas perceberem, apesar da agilidade proporcionada, despendem o próprio tempo em coisas que não acrescerá em nada em sua humanidade, mas apenas alimentará seus desejos, colocando-as em transe.

Os sentados pareciam se remexer na cadeira como que incomodados.

– Mas indo direto ao ponto, a minha proposta é simples: a percepção temporal humana quando imersa em algum tipo de atividade viciante como as apresentadas por grande parte da humanidade que vive com suas mãos coladas aos frutos da tecnologia comunicativa, como computadores ou celulares, pode ser alterada. E tendo em vista essa fraqueza humana, podemos de certa forma estender o tempo de algo, como por exemplo um anúncio, sem que as pessoas percebam, pois já não tem o sentido de percepção tão mais apurado. Vejam que aumentar 1 ou 2 segundos em um anúncio já faz uma enorme diferença no resultado final do ponto de vista econômico quando aplicado a bilhões de pessoas. A ideia é de estender o tempo dos anúncios através de um algoritmo de modificação proporcional do tempo, conseguindo fazer com que mais tempo pareça ser menos apenas ludibriando as pessoas com os números da contagem do tempo dos anúncios. Assim, poderemos aumentar o tempo com que elas ficam exposta aos anúncios e, consequentemente, aumentar a visibilidade e, consequentemente, aumentar o lucro.

Os engravatados se olharam e fizeram expressões de leve interesse, como que observando circunspecta e sagazmente para aquele modelo de negócio.

– Se despertarem interesse, o que peço em troca, é apenas 5 % do lucro para poder desfrutar do meu tempo com coisas que me agradem e despendê-lo também em coisas que para vós pode parecer inútil. Já tenho uma equipe pronta para implementar todo o algoritmo que será implantado nos anúncios de suas empresas. Quanto à segurança do procedimento fiquem tranquilos, ninguém perceberá, trabalhamos com os melhores profissionais da área de manipulação de redes. E outra coisa: quem disse que “furtar” – disse fazendo os sinais manuais das aspas – tempo é um crime? Até agora ninguém fez uma legislação que proibisse tal ato. E ao meu ver, os tempos das pessoas, atualmente, já são furtados até demais pelas grandes corporações em busca de alienação. As pessoas ficam presas aos seus dispositivos, principalmente nos celulares e perdem a total noção temporal, então furtar um pouquinho mais não faria diferença alguma. Assim, poderíamos de certa forma manipular o “Saturno” que devora cada ser humano preso a tecnologia – disse em tom sarcástico – Para mascarar tudo isso podemos colocar algum termo naquela infinidade de palavras aparentemente inúteis e de inteligibilidade quase que poética que preenche aqueles termos de adesão que ninguém perde tempo lendo. A um clique para fazer sucesso – falou fazendo um gesto com o dedo indicador da mão direita estendido e os demais dedos fechados – Vamos fechar negócios?

Aquelas pessoas embebidas em sua roupa elegantemente compradas em uma marca valiosa, pensaram e debateram entre si. Enquanto o proponente apenas esperava olhando a cinzenta paisagem que cobria a região, com algumas pinceladas impressionistas a “la Monet” de vegetações sobreviventes ou plantadas artificialmente.

Após um longo debate sobre essa “conspiração temporal”, um dos presentes fez uma ligação e após terminá-la, fez um sinal gélido e simplório de um baixar e levantar de cabeças olhando o proponente, o qual demonstrou um leve sorriso no canto da ávida boca.

Logo entraram duas pessoas entesadas em ternos na sala com um envelope em cor amarronzada, de onde tiraram folhas cuja algumas constava o espaço para a assinatura dos presentes. Logo os presentes foram deixando suas assinaturas, naquele processo compulsório de múltiplas assinaturas seguidas. Até que chegou no proponente que sem perder muito tempo lendo os papeis fez a sua assinatura. Após realizar a assinatura realizou uma ligação, pedindo para confirmar a operação e então deu início uma odisseia cronológica, onde 1 segundo de cada indivíduo se tornaria um longo tempo virtual e inexistente, apenas para encher os bolsos corporativos

Todos os presentes se despediram, nenhum demonstrou transparentemente alegria com o negócio fechado e saíram sofregamente para cumprirem seus horários. O proponente se retirou e a sala ficou novamente vazia esperando mais uma reunião futura onde indivíduos poderão negociar bens preciosos, tornando todos os envolvidos verdadeiros escravos de suas propostas tecnológicas.

Assim foi mais uma negociação para vender o tempo das pessoas sem consentimento, aliás há sim consentimento, quando elas assinam aquele contrato que ninguém lê. Ali jaz toda e qualquer autorização para usurpar dos usuários algo que às vezes parece não valer nada, mas é uma mina de ouro, em troca de um serviço aparentemente gratuito. Realmente, as palavras têm poder.

 

Sara Oliveira de Carvalho Loss

São Carlos – SP, 22 de maio de 2020