O vento que trouxe o diabo na Marginal

Na noite fria de quarta-feira, uma neblina rasteira cobria a Avenida Comendador Alfredo Maffei. As luzes dos postes piscavam de forma irregular, como se hesitassem em iluminar o caminho. Augusto voltava do trabalho, dirigindo devagar, os dedos rígidos no volante e os olhos atentos ao escuro que dominava a avenida. À sua esquerda, o Shopping Iguatemi ainda exalava vida artificial, mas o lado direito — onde corre o Córrego do Gregório — era sombra e silêncio.

O rádio falhou. Um chiado metálico tomou conta do carro, como se alguém respirasse dentro dos alto-falantes. Ele girou o botão do volume. Nada. Depois, o motor tossiu. As luzes do painel piscaram uma, duas vezes, e então… tudo apagou. O carro morreu.

Augusto encostou no acostamento. A neblina agora parecia mais densa, como se quisesse entrar pelas frestas do vidro. Foi quando viu.

No meio da avenida, em pé sobre a faixa de pedestres, estava algo.

Não uma pessoa. Não um animal. Era… um vulto. Enorme. Indefinido. Com contornos que tremulavam como fumaça e se rearranjavam a cada segundo, como se não soubesse qual forma deveria assumir. Tinha algo de humano e algo de inseto. Tinha braços, ou o que pareciam braços, que se estendiam até o chão. No lugar do rosto, um redemoinho.

E o vento começou.

Mas não era um vento normal. Era um vento com direção, com vontade. Um vento que rodopiava em círculos ao redor da criatura e avançava pelo asfalto como se estivesse farejando. O ar gelou mais, o para-brisa ficou opaco. E então o vulto se virou — mesmo sem ter olhos — na direção de Augusto.

O tempo parou.

Augusto não conseguia se mover. O peito apertado. Uma força invisível o mantinha preso, como se suas veias fossem feitas de gelo. As luzes da cidade atrás dele se apagaram. O mundo ficou escuro, e o único som era o assovio agudo e contínuo daquele vento, que agora entrava pelo carro, mesmo com tudo fechado.

E o vulto falou.

Não com palavras. Mas com memórias.

Augusto viu sua infância que nunca viveu. Viu um funeral que ainda não aconteceu. Viu São Carlos coberta por uma névoa escura, as casas soterradas por raízes negras que saíam do córrego. Viu o próprio rosto flutuando no céu, com olhos vazios, repetindo em silêncio: “Você viu o que não era pra ser visto.”

O vulto começou a se desmanchar no ar, pedaço por pedaço, como se fosse feito de papel queimado. Mas o vento não parava. Ele crescia. Girava. Sugava.

O carro foi sacudido com violência. Augusto gritou, mas o som não saía. Tentou abrir a porta. Estava trancada. Tentou ligar o carro. O painel piscou, e uma única palavra surgiu em vermelho: Gregório.

Então, silêncio.

O motor voltou. As luzes acenderam. A música no rádio reiniciou do mesmo ponto onde havia parado — uma velha canção instrumental de flauta. Augusto acelerou sem olhar pra trás. Não quis saber se o vulto havia ido embora. Não quis saber se o vento ainda o seguia.

Ele só soube de uma coisa: desde aquela noite, o vento sopra diferente em São Carlos.

E quando ele passa pela Comendador Alfredo Maffei, arrastando folhas secas em círculos perfeitos, há quem diga que vê formas se mexendo dentro da neblina. Há quem ouça sussurros. Há quem sonhe com um redemoinho que fala.

Mas Augusto não fala mais disso. Nem sonha. Nem dorme.

Porque o Vento do Diabo deixou nele algo que não se vê, mas que sopra — noite após noite — por dentro de sua alma.

Esta é uma obra de ficção, portanto não é real. Apenas um conto.