Orçamento de 2026: a crise financeira não pode precarizar os serviços públicos

O orçamento rege a vida da cidade
O orçamento rege a vida da cidade

O anúncio do orçamento de R$ 1,74 bilhão para 2026 em São Carlos veio embalado em discursos de “responsabilidade” e “seriedade”, mas o pano de fundo é outro: crise fiscal, queda de arrecadação e uma prefeitura obrigada a impor cortes drásticos até o fim de 2025. O governo fala em um orçamento “real e modesto”, mas o que está em jogo é a incapacidade de expandir políticas públicas justamente quando a população mais precisa.

É inegável que a entrega da LOA dentro do prazo constitucional é um ato de respeito institucional, mas isso não basta. O cidadão comum pouco se importa com a formalidade do protocolo. O que interessa é saber se a cidade terá condições de investir em infraestrutura, saúde de qualidade, transporte digno e programas sociais eficazes. E a resposta, ao observar os números e a ordem de serviço do prefeito Netto Donato, é preocupante.

Cortes em combustíveis, telefonia e horas extras soam bem no papel, mas escondem um risco real: a precarização dos serviços públicos. Quando se fala em reduzir horas extras, por exemplo, de quem estamos falando? Do motorista de ambulância que cobre plantão emergencial? Do servidor da saúde que já trabalha no limite? Esse tipo de medida, vendida como eficiência, na prática costuma recair sobre quem está na ponta, prestando serviço direto à população.

A Câmara, por sua vez, precisa ser mais do que palco de solenidades. O presidente Lucão Fernandes tem razão quando diz que o orçamento é “a vida da cidade”, mas então é preciso tratá-lo como tal: com rigor, transparência e, sobretudo, participação popular. Audiências públicas não podem ser mera formalidade para cumprir tabela. A sociedade precisa ter voz ativa para discutir prioridades e questionar cortes.

O que preocupa é a repetição de um padrão: governos municipais se escondem atrás do discurso da crise e da escassez, enquanto deixam de enfrentar o debate de fundo — como diversificar a arrecadação, buscar novas parcerias e cobrar maior compromisso dos governos estadual e federal. A população não pode ser refém eterna de repasses de ICMS e do Fundo de Participação dos Municípios.

O orçamento de 2026 revela, em essência, a fragilidade de São Carlos em planejar um futuro além do imediatismo. É “realista”, sim, mas realista demais a ponto de não deixar espaço para sonhar, inovar ou ousar. E uma cidade que não sonha está condenada a andar em círculos, administrando carências em vez de projetar desenvolvimento.

O Legislativo e o Executivo precisam entender que a crise não pode ser desculpa para a inércia. O que São Carlos precisa não é apenas de contenção de gastos, mas de coragem para romper com a mesmice. Sem isso, o orçamento de 2026 será lembrado apenas como mais um documento burocrático que deixou a cidade no mesmo lugar: parada, sufocada e à espera de um futuro que nunca chega.

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