Os namorados são-carlenses “separados e unidos” pelo tempo

*Baseado em uma história real

Aninha e Roberto não se encontravam há 20 anos. Até que no shopping de São Carlos o improvável aconteceu. Olhando as vitrines, Aninha observou que uma das pessoas atrás do balcão de uma boutique era seu antigo namorado de colegial. Aquele semblante era inesquecível.

Sim, ele mesmo. Roberto, cara forte, corpo másculo, hoje com uns quarenta e poucos anos. Aninha, por sua vez, ainda conservava um pouco daquele ar dos anos 80.

Já não era tão magra, mas os olhos azuis eram os mesmos. O cabelo tinha ficado um pouco grisalho, nada que uma pintura não resolvesse, porém seu sorriso tinha permanecido. Dizem que certas coisas do passado a gente não perde, Aninha acreditava que o seu sorriso era uma delas.

Hesitante, com dois filhos lhe puxando a barra da saia, Aninha se escondia atrás da vitrine, das plantas, tudo para ver Roberto cuidando da loja. Ali permaneceu pelo menos uns 15 minutos.

Quando olhou no relógio notou que já estava na hora de ir para a casa. Puxou as crianças, segurou as mochilas e foi para o carro entusiasmada com a visão de seu passado. Sentia o gosto dos anos dourados de sua vida novamente.

Crianças no carro, deixou o estacionamento do shopping, nem lembrou que precisava passar no supermercado para comprar algumas coisas para a casa. Ao contrário da menina idealizadora dos anos 80 que pretendia cursar economia na Unesp, hoje Aninha administrava um lar.

Aninha era casada, com dois filhos e um marido que trabalhava viajando o Brasil numa multinacional, estando em casa apenas nos fins de semana. Podia-se dizer que a moça tinha uma vida que muitas mulheres classificariam como “a pedida a Deus”. Carro na garagem, casa grande e todas as comodidades de um mundo moderno.

O conceito de felicidade para alguns pode ser difícil de entender, para Aninha, depois da visão de Roberto, isto tudo foi muito mais além. Ela percebeu que no seu tudo não tinha nada e que no nada estava o tudo. “Mas, como?”, sempre se perguntava.

No mesmo dia tomou um banho embalada por Bonnie Tyler, “Total Eclypse of the Heart”, a música do seu namoro, do seu tempo, do fusquinha azul do Roberto estacionado na praça para “aquele amasso”.

Quando caiu na real era o telefone tocando, filhos pedindo comida e jogando vídeo game no quarto e o marido dizendo que tinha depositado um dinheiro para o pagamento das contas do mês. Agora, Aninha era a dona Ana Maria Lacerda Oliveira que estava de volta à realidade.

Mas certas coisas viciam, tanto que no outro dia fez o mesmo ritual. Correu para buscar as crianças no colégio, prometeu um sorvete no shopping e novamente parou na frente da vitrine. Usando uma roupa de academia, Aninha tentou modelar seu corpo, que ainda não era de se jogar fora, mas se escondeu com um boné e óculos escuros para novamente espiar Roberto num verdadeiro “Big Brother Nostalgia”.

O susto foi iminente quando o quarentão caminhou até a vitrine para modificar algumas peças expostas. As mãos de Aninha começaram a suar, voltando a ser menina engoliu seco, correu um frio do alto até embaixo. A caminhada de Roberto até a vitrine demorou, pareciam horas, quando estava quase chegando Aninha passou para a loja ao lado e começou a conversar com seus filhos. Entrou para disfarçar e ainda comprou brinquedos para as crianças, não podia deixar ser vista por Roberto. “E se ele fosse casado? O que pensaria de mim?”, preocupava-se.

Dessa vez Aninha não esqueceu de passar no supermercado para comprar o que faltava em sua casa. Carrinho cheio, entrou na sessão de CDs em liquidação porque ninguém mais comprava-os e viu um álbum “O melhor internacional de novelas- Volume II”, tinha tudo o que Aninha queria ouvir, as músicas de seu tempo, era sua juventude voltando aos poucos, pelo menos em pensamento.

Chegou em casa e foi logo para o andar de cima mexer em algumas pastas velhas que estavam no sótão. Lá, encontrou as cartas que Roberto lhe escrevera quando ainda estavam juntos. Dor certa no coração.

“Ane, quero estar na sua alma, fazer parte do seu dia a dia, ser único com você. Conviver no mesmo teto, no mesmo dia, estar sempre no mesmo minuto, no mesmo segundo, mas tenho que ir, preciso aproveitar a oportunidade de estudar em São Paulo, foram anos de cursinho, venha comigo, vamos nos aventurar. Com amor, Rob”, dizia a última carta.

Ao ler aquilo, Aninha não agüentou as lágrimas, foram muitas escorrendo, uma para cada ano de distância. Foi surpreendida por seu caçula que estava no sótão procurando a mãe que havia sumido já fazia meia-hora. Aninha tinha decidido que não veria mais Roberto. Era muita tortura. Juntou as coisas, o CD intacto que havia comprado e os guardou novamente. “Passado morto e enterrado”, pensou.

Na cabeça de Aninha a sensação da condenação, da oportunidade perdida tinha retornado, nem seus filhos a consolavam. Era uma mulher dentro de um castelo de solidão, cercado por todos os confortos da vida moderna.

Às 12h30 do outro dia, Aninha pensou que não passaria no shopping, mas os filhos pediram sorvete, dois dias seguidos acostumam as crianças. Mãe de coração mole, Aninha não resistiu e novamente foi para o seu posto de observação preferido. Como um soldado numa missão secreta.

Chegando na sorveteria, cara a cara com a loja de Roberto, Aninha notou que hoje seu antigo e atual amor arrumava roupas nas prateleiras e atendia clientes. A loja estava apinhada de pessoas e Aninha até esboçou um coitado vendo a situação.

Fixando bem seus olhos, notou que na vitrine tinha um cartaz: “Precisa-se de vendedores”. Essa era a oportunidade que Aninha havia esperado por tanto tempo. Interpretaria um papel que adorava, o de desavisada.

Correu com os filhos para a casa, chamou a vizinha e confidente para tomar conta da criançada. Banho, unha feita, cabelo arrumado, maquiagem e perfume: a Ane Fatal estava de volta. Mais velha, mais experiente e com o mesmo entusiasmo.

Sua idéia era apenas pedir o emprego na loja, mas somente para se mostrar a Roberto, seria a oportunidade que Deus havia colocado em seu colo, saber dele, o que fazia, por onde andou, como era sua vida, terminar uma história inacabada. Com passos lentos, na medida em que chegava mais perto da loja suas mãos suavam, o filme de 20 anos tinha passado na sua cabeça, ponto por ponto, era um misto de dor, ansiedade e felicidade.

Aninha entrou na loja, quando chegou notou que o cartaz ainda permanecia na vitrine, mas percebeu que Roberto não estava mais atendendo clientes. Uma moça lhe explicou que o rapaz havia sido transferido para São Paulo.

Depois do desespero, do choro incontido na praça de alimentação do shopping, de muitas perguntas que enfim teriam respostas, ela viu novamente seu mundo cair e a história não terminar.

Aninha não voltou para casa, ainda não estava refeita, mas era sua couraça de aço que tinha que permanecer. Vendo a cena, a menina da loja foi até Aninha e lhe deixou um envelope. “Roberto disse que você viria e pediu para lhe entregar isto”. Surpresa, Aninha não entendia nada, só pensava que Rob continuava o mesmo, perspicaz e sensível.

Roberto começou com as respostas esperadas, contou que havia notado todos os dias a presença de Aninha nas vitrines, que jamais a tinha esquecido, lembrou de Roupa Nova “se uma coisa louca sair de seu olhar, fica em silêncio e deixa o amor entrar”. Contou que não tinha se formado na faculdade, que a vida o levou apenas para ser comerciário e gerente de lojas e que jamais tinha esquecido de Aninha e que em todos os dias  que passou de volta à São Carlos ficava pensando e tentando adivinhar como e onde estava o seu amor. Roberto disse que não deixou um endereço de São Paulo na carta e frisou, que não tinha esperanças de nada com uma mulher bem casada.

A carta era uma bomba numa quarta-feira quente. Foram dois dias de reflexão até o marido chegar no sábado. Quando Edgar botou os pés em casa, correu para abraçar a mulher e já foi logo surpreendido: “Amor, vou fazer um curso em São Paulo a partir da semana que vem”. A peregrinação pelos shoppings paulistanos estava apenas começando e dessa vez seria longa…

 Renato Chimirri

Imagem de Gabriel Ferraz Ferraz por Pixabay