Os pequenos reis?

Fonte imagem: https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/24/coronavirus-covid-19-sars-cov-2-e-mais-veja-a-explicacao-para-16-termos-usados-na-pandemia.ghtml

Por muitos anos as civilizações humanas foram organizadas em um sistema muito parecido, onde geralmente existia apenas um soberano absoluto, conhecido nas mais variadas culturas como faraó, rei, césar, czar, imperador e entre outros nomes que concediam, de certa forma, poder ilimitado sobre o seu reinado. Esse sistema político é mais conhecido como monarquia.

A monarquia é um sistema de governo onde um monarca (tal como um rei ou imperador) desempenha a função de chefe de Estado permanecendo no cargo até sua morte ou abdicação, sendo caracterizado pela sua atuação absoluta, onde os seus desígnios devem ser acatados sem hesitação, sob pena de opositores serem mortos impiedosamente. Outro detalhe da monarquia, é que o poder geralmente é transferido hereditariamente.

Muitos reis e rainhas passaram pela história humana, a maioria das vezes, ficando marcados pelos seus atos tiranos, violentos e egoísticos, fazendo guerras para buscar uma “paz”, aparentemente utópica, já que os seus próprios gênios não permitiam tal condição. O mundo conheceu grandes conquistadores como: Alexandre, o Grande (356 – 323 a.C.), Gengis Khan (1162 – 1227), Napoleão Bonaparte (1769 – 1821) e entre outros. No entanto, nenhum conquistador chegou aos pés, quanto ao seu poder letal e eficácia em conquistas, de algo que parece tão pequeno e insignificante: as epidemias ou também, ás vezes, chamadas de pestes.

Essas pestes, foram capazes de criar grandes “reinos” que perduraram e que ainda perduram até hoje. Reinos que nenhum ser humano pode ver com olhos nus, apenas munidos de equipamentos sofisticados como o microscópio, inventado apenas no final do século XVI por dois holandeses fabricantes de óculos: Hans Janssen e seu filho Zacharias. Tal invenção permitiu ao homem observar os primeiros reinos invisíveis que eram mais vastos e poderosos do que qualquer reinado sobre a face da Terra.

Alguns desses grandes reinos microscópicos e famosos foram criados por “reis” um tanto quanto estranhos, como: Yersinia pestis (peste bubônica ou, também, peste negra), Vibrio cholerae (cólera), bacilo de Koch (tuberculose), Orthopoxvírus variolae (Varíola), Influenza (gripe espanhola), bactérias do gênero Rickettsia (tifo), Flavivírus (febre amarela), Morbillivirus (sarampo), Plasmodium (malária) e HIV (AIDS).

Por mais pequenos que sejam, são capazes de dissipar qualquer exército. A união física dos seres humanos para enfrentá-los pode ser uma arma ainda mais letal contra os próprios humanos, devido a capacidade de contágio. Os únicos combatentes são a nossa imunidade e fármacos, que muitas vezes não são eficazes, quando se trata de uma doença nova.

Atualmente, vivemos uma situação de cerco, como cidades sob o sítio de um exército. Estamos cercados, ironicamente, pelo isolamento, isto é, pelo “nada”, o que parece até contraditório. Contudo, o isolamento parece ser a melhor posição de defesa contra esses reinos que nos atacam sorrateiramente, sem mesmo dar chance de revide. O comandante de todo esse cerco é o novo tirano, denominado vulgarmente como “coronavírus” ou também identificado como Sars-Cov-2 (em inglês “Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2” ou, em tradução livre, “Síndrome Respiratória Aguda Grave do Coronavírus 2”) que causa a Covid-19 (do inglês “Coronavirus Dicease 2019” ou, em tradução livre, “Doença Do Coronarus 2019”, cujo ano 2019 representa o ano de surgimento da doença). O “nascimento” desse “novo reinado” ocorreu na cidade de Wuhan, localizada na China, possivelmente em um mercado de animais silvestres, levantando a suspeita da transmissão ter ocorrido entre animais e humanos, o que estudos de sequenciamento genético apontam especificamente para o pangolim, um animal contrabandeado, como transmissor.

O termo “coronavírus”, por sua vez, se trata de um “sobrenome” de uma família viral que assim como os reis, passam seus “poderes” hereditariamente, mas a partir de mutações genéticas que potencializam as suas ações. Falando de reis, o nome da família foi batizado desta maneira em 1965, pelo fato da forma microscópica do vírus se assemelhar a uma coroa, sendo “coroado” por essência, ostentando o seu anseio por reinar. Os primeiros vírus foram isolados em 1937 mas só foram identificados em meados dos anos 1960 tendo a capacidade de causar infecções respiratórias em seres humanos e em animais. Alguns predecessores deste atual coronavírus foram responsáveis por causar a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), identificada pela primeira vez na China em 2002, com ligação a civetas (animal), e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), identificada pela primeira vez na Arábia Saudita, no ano de 2012, ligada a dromedários. Tanto os coronavírus supracitados como o novo coronavírus tem como hospedeiro o morcego, que de alguma forma passou o vírus a esses animais intermediários (vetores), que, por sua vez, transmitiram-no aos humanos.

Apesar de se tratar de uma guerra, as armas tradicionais, como espadas, arcos e flechas, espingardas, canhões e até mesmo bombas devastadoras, como as nucleares, se tornam inócuas contra esse inimigo. E contrariando qualquer senso violento e sangrento de guerras, as armas eficazes são simples: sabão e álcool.

Segundo a lenda grega, apesar de todas as mazelas terem se libertado por causa da curiosidade de Pandora, ao abrir uma caixa presenteada por Zeus, no fundo da caixa sobrou uma coisa que supera qualquer mazela: a própria esperança, que muitas vezes fica abandonada mas ressurge imbatível sempre que necessário. A esperança foi, é e sempre será a melhor arma que o ser humano possui contra os males do mundo.

Paradoxalmente, a melhor arma contra o vírus, sem muito contato físico, é a união, coisa que falta muito no dia-dia da humanidade. Talvez, seja um momento de reconciliação que a natureza nos enseja, para podermos mudar a nossa internalidade. Apesar de corrosivo, o vírus parece nos mostrar o quão frágeis somos quanto a nossa união ao próximo. Quiçá a ONU (Organização das Nações Unidas) possa se tornar OPU (Organização do Planeta Unido) para dar mais ênfase a única solução para os males humanos: a união verdadeira e não uma união embasada em interesses taxativos e comerciais.

Historicamente, sabe-se que as monarquias não duram para sempre, tendo um início, um meio e um fim. Utilizando de proposições lógicas temos a esperança de que está “monarquia” acabe, de preferência o mais rápido possível, e tudo retorne ao normal. A união da razão e da fé são importantes em momentos como esse, elo que se degrada com o passar dos dias modernos.

Mas ainda fica a questão: afinal, quem manda no mundo? Os seres humanos ou os pequenos reis? Os seres humanos, aparentemente, imperam sobre a Terra, o que é uma vaga ilusão antropocêntrica. Mas também não significa que estes pequenos reis são os mandantes desse mundo. Em essência, algo deve ser a única verdade e absoluta que manda na dinâmica natural que de certa forma busca um equilíbrio conhecido pela ignorância humana, mas sempre em constante metamorfose.

 

Sara Oliveira de Carvalho Loss

São Carlos – SP, 24 de março de 2020

Referências

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