Os sapatos da morta do Cruzeiro do Sul

Por Frida Fernandes

Era um par de sapatos perfeito! E uma força magnética atraiu seu olhar.

– Aqueles sapatos estão à venda?

A dona do brechó na República do Líbano estranhou a pergunta.  Nunca ninguém se interessara por aqueles calçados. Nem se lembrava deles

– Faz tanto tempo que estão aqui na loja.  São um presente para você.  Pode levar.

Ela se aproximou da prateleira, esticou a mão direita bem devagar em direção aos sapatos, teve um momento de incerteza, titubeou, até que os pegou.

A primeira sensação foi de poder. Sobre aqueles saltos seria a mulher mais confiante do mundo. 

Com a manga da blusa tirou a poeira e o verniz intacto se revelou.

– Como ninguém se interessou antes por esse scarpin?

A dona da loja de roupas usadas realmente não sabia responder. Por um momento também achou estranho e ponderou para espantar a sensação de mal-estar que se materializava no ar:

– É que algumas peças estão destinadas a determinadas pessoas.  Acho que esse é o caso entre esse sapato e você.

Foi automático: assim que ela provou os sapatos foi como se eles abraçassem seus pés.  Ao contrário de tantos outros saltos, aqueles eram confortáveis, quase aconchegantes.

– Vou para casa com eles.

Aquela curta caminhada selou o destino daquela jovem ao da mulher que em tempos pretéritos fora dona deles.

Naquele noite dormiu muito mal.  Foi tomada por imagens desconexas, se via chorando, depois se via dançando sozinha num imenso salão de mármore branco onde os sapatos vermelhos se destacavam, depois tudo girava e vinha uma dor dilacerante no pescoço… eram como lembranças de algo que ela jamais vivenciara.

Na manhã seguinte não conseguiu pensar em outra coisa senão nos sapatos. Assim que saiu da cama abriu o armário e ficou olhando para eles, aqueles saltos finos, de solado quase novo, um vermelho tão intenso…

Perdeu a noção do tempo.

Quando percebeu já era quase a hora do almoço.

Sacudiu a cabeça para espantar a espécie de transe em que entrara.

A partir daquele momento começou a sentir uma presença sempre ao lado e percebeu que algo, ou alguém, precisava soprar um segredo em seu ouvido.

Já era quase noite quando sentiu um ímpeto. Vestiu seu melhor vestido de festa, calçou os saltos vermelhos e ouviu de alguém invisível:

– Agora estamos prontas, vamos.

Tomada por um impulso saiu rumo às ruas. Apesar de não ter um destino certo sabia que chegaria exatamente aonde precisava.

A noite estava tão fresca. Aquela brisa a fez sentir tão intensamente viva, como se pela primeira vez depois de muitos e muitos anos conquistasse a liberdade.

Seus passos eram certeiros e decididos.

– É aqui. – ouviu novamente a voz que vinha do nada.

Parou.

Olhou para o antigo palacete e um arrepio subiu-lhe a nuca.

O antigo portão enferrujado resmungou ao ser aberto. A tiririca tomou o jardim com tanto ódio que todas as antigas roseiras foram sufocadas, provando que há muito o palacete estava abandonado.

Quando empurrou a porta da frente, se viu entrando numa celebração de tempos antigos, era como se estivesse sonhando acordada.  Via diante de si uma época em que os salões eram ocupados pela elite que celebrava apenas pelo prazer de ostentar sua riqueza.

Pessoas começaram a sair de todos os cantos, conversas e altas gargalhadas vinham do andar superior onde garçons serviam bebidas caras e um trio tocava valsas alegremente num dos cantos.

Uma linda mulher começou a subir a escadaria. Todos pararam para admirar a anfitriã. Os convidados gritaram vivas e com uma salva de palmas saudavam aquela mulher tão rara.

De olhos e cabelos negros ela se destacava.  Despertava o desejo de todos, inveja também.

Calçava sapatos vermelhos idênticos aos do brechó.

Uma mistura de pavor e encantamento tomava a jovem.  Ao mesmo tempo que que queria fugir daqueles fantasmas,  desejava a bela mulher que rodopiava tão suavemente pelo salão.

Até que tudo se fez treva. De repente, o salão estava vazio e apenas os ecos de uma briga eram ouvidos.  A banda já não tocava mais, as gargalhadas e  os brindes foram substituídos por escuridão e medo. A jovem viu um homem agredindo a bela do scarpin que murmurava deitada no chão, tentando se esquivar dos socos e chutes.

– Eu já disse que não quero você se oferecendo.

– Você está louco… louco…

– É assim que você quer viver? Então é assim que irá morrer.

A mulher implorava, pedia por sua vida. Cheio de raiva, o homem a tomou pelo braço, arrastou a vítima até a beirada da escadaria onde antes entrara tão triunfante na festa.

Ela ainda tentou esboçar mais um pedido:

– Meu marido, não faça isso…

Ele a soltou degraus abaixo.

Quando a mulher atingiu o último degrau a jovem caiu um si.

Estava novamente sozinha no palacete castigado pelas décadas. Petrificada de pavor pelo que acabara de presenciar.

Veio novamente aquela voz:

– Agora vá.  Diga para todos que não me matei, conte tudo o que viu. Mas antes, deixe aqui os meus sapatos preferidos, que eu usava quando fui morta.

Em questão de segundos a jovem tirou os sapatos da morta e correu sem olhar para trás.

Imagem de zekebolden por Pixabay 

Essa é uma obra de ficção