Padre Antonio Tombolato: um líder religioso, político e social inigualável!

Um líder nato

São Carlos perde o seu mais emblemático sacerdote. A morte aos 93 anos do Padre Antonio Tombolato deixa uma lacuna irreparável na cidade. Perdemos hoje um líder religioso, político e social inigualável. A COVID fez mais uma vítima.

Padre Antonio era daqueles homens de fé firme, fala forte e não deixava barato. Em suas homilias nas missas celebradas por décadas na Paróquia Santa Isabel não tinha medo de demonstrar a coragem necessária para tocar nos problemas de São Carlos, seu forte apelo social nas falas desagradava políticos, na verdade, os deixava aterrorizados, seus conselhos religiosos sempre confortavam, mas não mandava recado, sempre falou na cara.

Lembro-me, certa vez, que estava assistindo uma missa em sua paróquia e naquele período a propaganda da maionese Gourmet fazia muito sucesso com o slogan: “Passa Gourmet que dá!” Pois bem, o astuto sacerdote durante o sermão apenas disse para a pessoa que insistia em incorrer nas coisas erradas: “Não adianta falar para Deus que devemos passar Gourmet e engolir o pecado, porque não dá!”

Classe Operária

Esse era o Padre Antonio, um homem à frente do seu tempo. Na Vila Isabel, era um líder querido por todos, mas antes disso participou da fundação da Juventude Operária Católica (JOC), que desenvolvia projetos de assistência social, foi outra importante atividade do padre.

 O grupo condenava os desmandos dos patrões que exploravam os trabalhadores são-carlenses. Sempre atuante e participativo, durante a ditadura militar foi considerado por alguns um padre progressista e chamado até de comunista. “Chegaram a me chamar de comunista, mas na verdade eu sempre agi da forma que o povo precisava, sempre atuei de acordo com a necessidade do povo.”

O envolvimento com a classe operária em defesa dos trabalhadores deixou marcas. Quando era padre da Catedral, apoiou a formação do sindicato dos metalúrgicos oferecendo salas da igreja para as primeiras reuniões e, ao contrário do que muitos pensam, ele garante que o bispo tinha conhecimento de tudo. “O bispo vivia uma situação delicada e complicada. Precisava defender o povo, mas tinha que manter bom relacionamento com as famílias dos industriais, responsáveis pela maior parte dos empregos na cidade.”

Nesta época, ele foi transferido para a paróquia de Vila Isabel, bairro que mais sofria com a falta de recursos e estrutura. “Fundei a creche para que as mães pudessem deixar seus filhos e trabalhar. Chegamos a atender mais de 100 crianças e foi lá que surgiu o projeto Patrulheiro.”

Foram 42 anos dedicados à paróquia que inclui o Santuário Nossa Senhora Aparecida da Babilônia, e até hoje a Vila Isabel é um exemplo de trabalho religioso aliado à assistência social. “Sempre contei com auxílio, nunca faltaram recursos para desenvolver os projetos, sempre que precisava, alguém ajudava. Até mesmo o Educandário, quando por falta de recursos corria o risco de fechar, fui eu quem trouxe os padres Salesianos para assumir a administração”, lembra, orgulhoso.

Vida

Cônego Antonio Tombolato nasceu em 22 de janeiro de 1928, na Fazenda São Vicente, propriedade dos pais, o italiano Juliano Tombolato e a brasileira Joana Cândida de Oliveira, entre os municípios de Brotas e Torrinha. A mãe morreu quando ele tinha apenas um ano de idade e do segundo casamento do pai nasceram as irmãs, Geni e Elisabete.

A vocação para seguir a vida religiosa surgiu na infância. “Senti o chamado e percebi muito cedo minha vocação. Não tinha ninguém da família que fizesse parte da Igreja e ainda criança fui para São Paulo onde comecei meus estudos no Liceu Salesianos Coração de Jesus.” A sequência da preparação aconteceu em Lorena, Lavrinhas e Pindamonhangaba.

Depois disso, Antonio Tombolato voltou para Lorena onde estudou filosofia e pedagogia. “A partir daí passei a lecionar, morei em Campo Grande, depois no Alto Araguaia, e lecionei também no seminário em São Carlos. Depois me formei em teologia em São Paulo.” Foi seminarista de 1943 até 1958, após a ordenação tornou-se presbítero na cidade de Matão.

Em outubro de 1960, o bispo Dom Ruy Serra trouxe o padre Tombolato para a Catedral de São Carlos.

Personalidade forte

Foi no Educandário que Padre Antonio Tombolato conheceu o menino Edson Luiz da Silva. Hoje aos 50 anos é ele, o filho adotivo, quem cuida do padre. A idade avançada trouxe dificuldades para ouvir e andar, mas não tirou de Tombolato a vontade de viver e servir a Deus. Diariamente ele celebra uma missa às 7h na Capela Nossa Senhora das Dores e atende os mais necessitados em quatro horários especiais por semana, quando realiza uma novena. “Construí minha casa e a capela num terreno da Diocese, pedi autorização para o bispo, queria continuar atendendo o povo”, explica.

A firmeza na pregação e a adoração a Deus o fez conhecido também como um padre que expulsa demônios, fama que até hoje faz com que muitas pessoas, de vários bairros da cidade o procurem. “Jesus expulsou demônios, todas as orações de libertação que faço estão na Bíblia. É preciso ter consciência que o mal existe, temos que combater o inimigo, pedindo as bênçãos de Deus. Mas é preciso saber que não é a igreja que precisa de nós, somos nós que precisamos da igreja”, conclui. Padre Antonio Tombolato.

Renato Chimirri com informações do Portal da Diocese de São Carlos