
Na madrugada de uma quarta-feira de março de 2025, o Trevo Norte de São Carlos, agora cortado por pistas modernas e iluminado por luzes frias de LED, voltou a ser palco de um mistério inquietante. Motoristas que transitavam pela região começaram a relatar estranhos fenômenos: uma figura sombria caminhava pela rodovia, envolta por um séquito de cães silenciosos que desapareciam no vento assim que os faróis tentavam capturá-los.
Era Paulino.
Ou algo que usava o nome dele.
Os primeiros relatos vieram de um entregador de aplicativo que, ao reduzir a velocidade próximo ao cemitério, viu um homem forte, de roupas esfarrapadas, parado sob o viaduto. A figura encarava a estrada com olhos vazios e um sorriso congelado. Antes que pudesse reagir, o entregador ouviu uma gargalhada cavernosa reverberando pelo asfalto. Ele acelerou, mas, ao olhar pelo retrovisor, viu o homem desaparecer na bruma que não deveria estar ali, pois aquela noite era seca e quente.
Em poucos dias, a história se espalhou. Taxistas, guardas noturnos, motoristas de ônibus. Todos relataram ter visto Paulino à beira da rodovia, emoldurado pelas luzes artificiais que mal conseguiam dissipar sua presença. O terror se intensificou quando o sistema de monitoramento da cidade registrou imagens perturbadoras: um vulto indistinto, parado à margem da pista, que surgia e sumia sem explicação. Nenhum técnico conseguiu explicar a falha.
Os mais antigos resgataram a lenda esquecida do Fantasma do Trevo. E os teóricos da conspiração conectaram os eventos ao fato de que, nos últimos meses, São Carlos vinha registrando um aumento anormal de relatos de luzes estranhas no céu. “Paulino sempre falava de discos voadores…”, murmuravam os mais supersticiosos. Mas agora ele próprio parecia ter se tornado um fenômeno inexplicável.
Numa noite de lua minguante, um grupo de jovens decidiu ir até o local para investigar. Armados com celulares e coragem embriagada, pararam o carro na beira da estrada e começaram a filmar. O relógio marcava 3h33 quando uma brisa estranhamente fria varreu a rodovia. Os cães surgiram primeiro. Silenciosos, imóveis, olhos brilhando no escuro como brasas. Então, entre eles, ergueu-se a figura de Paulino. Ele abriu os braços e gargalhou. Mas sua voz não era humana. Era metálica, distorcida, como se dezenas de vozes falassem ao mesmo tempo, ecoando além do mundo visível.
O vídeo foi encontrado na manhã seguinte, ainda transmitindo ao vivo. O carro estava lá, mas os jovens nunca mais foram vistos.
Dizem que, em algumas noites, quando o vento sopra do norte e a lua se esconde, pode-se ouvir uma risada vindo do Trevo Norte. Uma risada antiga, de um tempo em que São Carlos era outra. Uma risada que ecoa pelos anos e sussurra segredos que ninguém ousa entender.
*Esta é uma obra de ficção baseada em uma lenda urbana da década de 70 em São Carlos.









