
1º de abril de 2026.
Dizem que hoje é dia da mentira. Mas há dias em que a mentira não é brincadeira — é espelho.
Chamam esta de Quarta-feira de Trevas. E talvez seja mesmo. Não por causa da ausência de luz lá fora, mas pelas sombras que a gente carrega por dentro. Há um silêncio diferente no ar, como se o mundo, por um instante, pedisse que a gente parasse de rir das pequenas farsas e encarasse as grandes.
Quantas vezes fomos Judas?
Não aquele das histórias antigas, distante, fácil de condenar. Mas o Judas íntimo, cotidiano, que mora em decisões pequenas e silenciosas. Aquele que trai sem alarde — um sentimento, uma promessa, um olhar que prometia ficar e foi embora.
Fomos Judas quando dissemos “estou com você” e não estávamos.
Quando escolhemos o conforto da omissão em vez da coragem da verdade.
Quando trocamos alguém — ou a nós mesmos — por moedas que nem valiam tanto assim: orgulho, medo, vaidade.
E talvez a pior das traições não seja a que fazemos aos outros.
É a que fazemos com quem somos.
Quantas vezes nos abandonamos?
Quantas vezes silenciamos nossos próprios sonhos para caber em expectativas alheias?
Quantas vezes fingimos não sentir, não querer, não precisar — só para evitar o risco de sermos feridos?
Hoje, nessa quarta-feira estranhamente pesada, não dá para fugir dessa pergunta: em que momento eu me deixei para trás?
Há uma dor mansa em reconhecer isso. Mas também há algo de necessário. Porque só quem admite a própria sombra começa a procurar a luz.
Talvez essa seja a verdadeira travessia do dia de hoje: não a das mentiras contadas em tom de riso, mas a das verdades que evitamos dizer a nós mesmos.
Se fomos Judas, também podemos ser reencontro.
Se traímos, também podemos escolher reparar.
Se nos perdemos, ainda podemos voltar.
A Quarta-feira de Trevas não precisa ser o fim.
Pode ser o ponto exato onde a gente finalmente decide não se abandonar mais.
E isso, no meio de tantas sombras, já é um começo.









