Que som esse tambor produz?

Estejamos sempre atentos aos sons

Zelinda Martins*

A infância. As crianças. ‘O que você vai ser quando crescer? ’ Pergunta comum, clichê, que não leva em conta que as crianças não serão, um dia. Elas já são.

São pessoas de tenra idade que têm um potencial enorme para se desenvolver. E têm muito a aprender e a ensinar. A neurociência e outras ciências trazem luzes e mostram como é o caminho do desenvolvimento a ser trilhado e − muito importante − os prazos para que os processos aconteçam.

Assim, para os que querem saber, a alimentação da criança tem de ser muito cuidadosa até os três anos. Não se entendendo essa data como limite, pois a alimentação tem de ser adequada ao longo de toda a vida. Contudo, na infância, os órgãos estão em formação, os sistemas estão se adaptando às respectivas funções, é como se o organismo estivesse aprendendo a ser, a se constituir.

A falta de determinados nutrientes por determinado tempo pode ter consequências graves, como alguma debilidade, alguma incapacitação, ou, lamentavelmente, pode ser letal. Mas, como assim, lamentável? Normalmente, lamentamos por aquilo que não temos controle, não soubemos ou não pudemos evitar. Mas, se temos as chaves, o conhecimento, os meios, por que a sociedade ainda se vê diante da inoperância em relação às nossas crianças e aos nossos adolescentes? Em que ponto as fechaduras do cuidado, do acolhimento, ficaram em baús distantes, enterrados em ilhas que insistimos em não colocar nos mapas das prioridades?

A alimentação é essencial, garante a subsistência. Não se discute. Mas o desenvolvimento não se limita de forma alguma a esse fator. E não se pode colocá-la em um compartimento, desvinculada do entorno. É assim: a vitamina D, por exemplo, é essencial para o desenvolvimento dos ossos, dos dentes, além de participar de outros processos. Mas, se não houver exposição ao sol, essa vitamina não se forma e não se incorpora ao organismo, mesmo que se alimente com alimentos ricos nessa vitamina.

Ou seja: desenvolver-se é complexo. Resta a todos cuidar e prover.

Uma situação que parece corriqueira, banal, pode estar contribuindo para a formação de importantes associações, sinapses. Conversar com uma criança e cantar para ela, por exemplo, produzem nela sensações de aconchego, acarinhamento, acolhimento, enquanto concorrem para a formação de seu complexo sistema auditivo. E por aí seguem as massagens, o abraço, o beijo, expô-la às variadas tessituras, às sensações térmicas… Mostrar coisas coloridas e também sem cor, os perfumes, os gostos…

As experiências são vastas, há um mundo a ser conhecido e vivenciado. Mas há um porém: se tudo isto não estiver envolto pelo afeto, há grande risco de ser em vão. A afetividade é aquele ingrediente a mais que faz acontecer. Não somente as crianças, mas todos só aprendemos realmente se tivermos uma aceitação emocional de determinada vivência.

Por isso, a importância de nossas crianças e de nossos adolescentes terem as oportunidades únicas e ricas de experimentar o esporte, a música, a arte, fazendo aflorar talentos. Não, não se trata de alcançar pódios, mas de crescimento, de saber-se com potencial, com valor.

Ouvi uma vez e gostei: autoestima é o compromisso que temos com os nossos sonhos. Então, vamos fazer valer, fazer por onde, esse sonhar!

Há projetos importantes de esporte. Segundo a neurociência, essa atividade é a que preenche mais prontamente nosso sistema de recompensa. É assim: finalizamos um jogo para o qual nos empenhamos muito, comemoramos alguma conquista, pensamos no que melhorar, praticamos as regras, respeitamos o adversário. Tudo muito a ver com disciplina, que não é imposta, mas percebida como essencial para o êxito.

Espera um pouco… Ouvi um ruído? A Educação Física passou a ser considerada disciplina menor nas escolas, é quase extinta? E também assim com as disciplinas Música, Artes, Filosofia…? Que projeto de desconstrução é este?

Mas ouço também tambores. O timbal, para ser mais precisa. Tambor de origem africana. É um projeto em uma comunidade que ressoa, com meninos e meninas trajando roupas coloridas, penteados cuidados, sorrisos nos rostos, corpos dançando ao ritmo das batidas. Como é lindo! E a música é ‘Mimar você’, linda, linda… Escutem no ritmo timbalada ou com Caetano Veloso ou Virgínia Rodrigues, estes mais intimistas. Os versos vêm ao encontro do início de nossa conversa: o mimo, o cuidado. ‘Você mora em meu coração’/ ‘Mimar você nas quatro estações’/ ‘Que bom viver’/ ‘Andar de mãos dadas’…

Podem me responder por que ouço também, vindo de um tambor, um pedido de ajuda? ‘Moço, ajuda eu?!’. Mas não é canto acompanhado de batidas das baquetas, é apelo vindo de dentro de um tambor. Sim, o menino está preso ali.

Como assim?! Preso por quem? Pelo pai, aquele que devia cuidar, mimar. E a comida, tão básica e essencial? Casca de banana e fubá cru. E roupa para proteger? Está nu. E o abraço e o beijo? Não é possível, as mãos e os pés estão acorrentados. E o sol? Não dá, há uma laje por cima do barril. E como ele conseguiu uma réstia de luz? Empurrou, mesmo fraco, um tijolo recém-colocado.

As respostas são antiversos da música, são antivida. Pode-se ser alheio às situações, nulo na vida. Mas não é o caso: esse pai, tendo como cúmplices de maldade, a esposa e a enteada, tira a vida do filho, o reduz a nada, com requintes de crueldade. Em que vórtice se perdeu o amor?

Daí, encontra-se na casa tudo o que era negado ao menino: comida, roupa, brinquedo… E, num cantinho organizado, comida e água para o cachorro. Como é que é?

Os policiais, ao acharem e libertarem o menino das correntes, choraram.

Por que o prenderam? Ele pegava comida sem ter permissão.

Muitos − mas muitos, mesmo − se emocionaram, se inconformaram, se mobilizaram e enviaram ao menino muitas gulodices, muitos brinquedos… Houve até oferecimento de oportunidade de estudo no Canadá.

Ele está salvo? Não. Lembremo-nos dos prazos para tudo acontecer. O pai (?!) não teve essa atitude de uma hora para outra. É bem provável que a rejeição vinha acontecendo num crescendo. Soube-se que a mãe, drogadita, deu o filho para o pai criar e sumiu. Está viva ou morta?!

Mas dá tempo. Sempre há tempo de oferecer a esse menino tudo o que lhe foi negado. Vamos torcer muito para que ele não tenha perdido a capacidade de sonhar.

Brasil, cuida da infância e da adolescência. Temos a régua e o compasso, como Gilberto Gil canta em seus versos. Não vamos deixar escapar pelas nossas mãos os talentos, a alegria, a plenitude de viver.

Fiquemos atentos aos tambores. Muitos podem soar sons que parecem irreais, mas que existem e nos ensurdecem.

Viva o timbal que toca, que faz dançar, que faz cantar. Viva a bola jogada. Viva o instrumento tocado. Viva o pincel que brinca na tela e o spray que colore o muro. Viva tudo o que for inventado e belo.

E, entre vivas, que não se escute de dentro de um tambor: ‘Moço, ajuda eu?!’

Zelinda Martins, 56 anos, Odontóloga não atuante, Mestre em Língua Portuguesa e Revisora de textos em Português. Observadora do mundo.

Imagem de Jürgen Rübig por Pixabay