
Os maduros e curados chegam a se esbaldar no mar dos atormentados. Afinal, quem ainda não se curou não é digno de ser aceito na comunidade daqueles que são perfeitos e destituídos de todos os erros que o mundo permite cometer. Quem erra e se desculpa não tem valor para a pessoa que tem no peito um coração enrijecido pelo tempo e por seus fracassos galopantes que tanto tenta esconder. O mundo maluco, para o qual tentamos viver, sempre oferece a opção do recomeçar e do perdoar para aquelas pessoas que realmente acreditam que amar seja o melhor caminho a seguir.
Mas na realidade paralela de quem se diz evoluído e devorador da consciência alheia nada importa: apenas o seu eu. Eu faço, eu destruo, eu arremesso, eu mesmo atiro! Eu, sempre eu! Eu firo, eu julgo e sentencio. Julga porque nunca teve sentimentos reais, confusões, ilusões ou mesmo dúvidas. Na verdade, nunca amou, porque amar é confusão, não é sossego. Amar exige respostas rápidas ou então acobertamentos calados, amar pode impor situações não resolvidas, mas que aos poucos são superadas. Amar denota sacrifício, dar o que você não tem para a outra pessoa, afinal só assim, deste jeito peculiar, é que quem se dispõe acaba contemplado com um pouco de paz.
Amar não é interesse. Não é como colocar uma blusa e depois que ela ficar velha, simplesmente descarta-la no cesto ou então doá-la para a caridade. Quem ama se compromete, mesmo calado, com aquilo que lhe faz a cabeça. Quando você é bálsamo e cura (a verdadeira) as marcas do tempo apenas lhe mostram que a direção correta a seguir seja aquela onde a dor é companhia constante. Lá, pode não ter cura, mas tem sinceridade que é quase a mesma coisa…
Publicado originalmente em 2001.








