Ronald Golias, o grande humorista brasileiro

Golias nasceu em São Carlos

Diego Messias é Sociólogo e Pesquisador em Comunicação

Via – Grupo: Comunicação e Pesquisa e Fundação Pró-Memória

“O cride, fala pra mãe” – inconfundível esse bordão que durante anos esteve presente no rádio e na televisão brasileira, inspirando inclusive uma música da banda Titãs. Hoje falaremos um pouco da carreira deste são-carlense que nos fez rir inúmeras vezes, estou falando de José Ronald Golias, ou simplesmente Golias, este artigo é uma homenagem póstuma a esse singular humorista.

Golias nasceu em 4 de maio de 1929 em São Carlos, filho de Arlindo Golias e Conceição Bragato. A sua primeira aparição nos palcos foi aos 8 anos de idade na Escola Dante Alighieri. Posteriormente, a família se mudou para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Golias trabalhou como alfaiate e funileiro e nas horas vagas passou a frequentar o Clube Regatas Tietê, foi ali que ele conheceu o grupo “Acqua Loucos”, já famosos por suas performances e apresentações aquáticas. Logo de início ele já roubava a cena, suas caras e bocas eram únicas, e aos poucos ele foi se descobrindo, não demorando muito para ele alçar voos mais altos.

No início dos anos 1950, ele integrou o quadro de artistas fixos da Rádio Nacional e foi ali que ele conheceu aquele que deu o maior empurrão de sua carreira, abrindo as portas para o sucesso, Manuel de Nóbrega, que o convidou para participar em 1957 do recém-criado humorístico “A Praça da Alegria” ainda na TV Paulista. Nasceu aí o personagem “Pacífico”, um sujeito descolado com o seu boné virado para o lado, o personagem de maior sucesso de sua carreira. Golias também teve uma rápida passagem pelo cinema, chegando a contracenar com o humorista Ankito e Grande Otelo no filme “Os Três Cangaceiros” (1959); seu primeiro filme foi “Um Marido Barra-limpa”, produzido em 1957, mas que estreou apenas em 1967, seus últimos trabalhos nas telonas foi “O Dono da Bola” (1961) e “Golias contra o Homem das Bolinhas” (1969).

Ronald Golias era mesmo um homem de TV, essa era a real tela onde ele brilhava de forma única, e foi entre 1967 e 1971 que ele consolidou a sua carreira com a sitcom “Família Trapo”, exibido pela TV Record, com o personagem “Bronco”. O elenco contava com Jô Soares, Ricardo Corte-Real, Cidinha Campos, Renata Fronzi e Otelo Zeloni. A atuação de Golias era marcada de improvisos, quase sempre suas falas iam além do roteiro, o que causava risos de todos em cena; o rei do improviso chegou a contracenar com o rei do futebol Pelé a quem Golias estava “ensinando” a jogar futebol e marcar um pênalti com a técnica da “paradinha”.

Ainda na TV Record, Golias ganhou seu próprio seriado, “Bronco Total” (1972 e 1973). Já na Rede Globo teve uma aparição relâmpago com o programa “Superbronco” em 1979, mas a produção foi cancelada com apenas 29 episódios sendo exibidos, com altos índices de audiência.

Nos anos 1980, Golias foi para a Rede Bandeirantes com o humorístico “Bronco”, um spin off da Família Trapo. Renata Fronzi estava no elenco, além de Anselmo de Vasconcelos, Felipe Levy, Sandra Annenberg (na época atuando como atriz), Walter Breda, Laerte Morrone (que interpretou o personagem Garibaldo no infantil “Vila Sésamo)” e, claro, Nair Bello, que caía na risada com Golias em cena.

No final dos anos 1980 e início dos 1990, Golias foi para o SBT, dando início a uma nova fase em sua carreira. Na nova emissora ele estreou no programa “A Praça é Nossa”, ao lado do amigo Carlos Alberto de Nóbrega, e o sucesso foi instantâneo com ele interpretando o personagem “Pacifico”. Aos poucos, Golias resgatou alguns de seus outros personagens, como o “Bartolomeu Guimarães” e o “Bronco”, na ocasião dono do bar da praça. Surgiu a “Escolinha do Golias”, formato já produzido décadas anteriores na extinta TV Rio, o programa logo cairia no gosto popular.

Já na década dos anos 2000, Golias contracenou com Moacyr Franco, naquele que seria seu último trabalho na TV, o humorístico “Meu Cunhado” mais uma vez com o personagem “Bronco”. O programa teve um tímido sucesso, mas seguiu no ar e foi durante as gravações que Golias apresentou alguns problemas de saúde. Ele precisou colocar um marcapasso e aproximadamente 30 dias depois foi internado devido ao surgimento de um coágulo no cérebro, infelizmente a situação se agravou levando a um quadro de infecção generalizada.

No dia 27 de Setembro de 2005 o Brasil perdeu Ronald Golias, aos 76 anos, seu humor ingênuo e suas tiradas rápidas ficaram eternizadas na mente do público, a comédia sem Golias perdeu um pouco da graça, mais do que um personagem ele conseguiu expressar naturalmente o cotidiano de uma forma engraçada. Em uma das poucas entrevistas que concedeu, ele disse que parte da sua inspiração era justamente a observação do comportamento das pessoas.

Deixo publica minha admiração e respeito pelo seu trabalho. Que falta você faz Golias!

Até o próximo artigo.

Referências Bibliográficas

● Almanaque da Rádio Nacional. AGUIAR, Ronaldo Conde. Ed revisada e ampliada. Casa da Palavra Produção Editorial. Rio de Janeiro. 2007. ISBN: 978-85-7734-082-8

● História da Televisão Brasileira: Uma visão econômica, social e política. MATTOS, Sérgio. Editora Vozes. Rio de Janeiro. 2010. ISBN: 978-85-326-2749-0