São-carlense desabafa: “Só vão acreditar na COVID-19 quando alguém da família morrer!”

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As mãos ainda trêmulas de Maria (nome fictício a pedido da leitora) mostram uma pessoa frágil que ainda briga com seus sentimentos. Porém, ela sabe que o ano de 2020 será muito difícil de ser esquecido. “Eu perdi meu pai para a COVID-19, sou são-carlense, moro aqui, e meu pai morava na capital com a minha mãe, pois foi professor e sempre gostou daquela pauliceia desvairada, dos teatros e dos museus que ele visitava com frequência”, disse.

“A dor é imensa, pois sei que ele se cuidava, mas precisava sair algumas vezes para ir ao mercado, não sabia mexer em aplicativos de entrega, os vizinhos ajudavam bastante, mas a pessoa que sempre foi independente não gostava de ficar azucrinando as pessoas”, conta.

Ela disse que o seu pai de 79 anos começou a se sentir mal no final de setembro e que acabou internado em outubro. “Ele ficou alguns dias hospitalizado, mas seu pulmão estava comprometido por demais e não houve como salvá-lo”, relembrou.

Maria afirma que a dor é insuportável, sobretudo por quem nega a força que a COVID-19 tem. “Minha mãe foi assintomática, meu pai deu nessa tragédia e fico assustada com o número de pessoas que negam este mal. Gente! Ele existe, está andando disfarçado pelas ruas, mas ninguém parece que acredita”, analisa.

Perguntada se tem medo de andar por São Carlos, Maria falou que toma seus cuidados e faz o essencial e que seu irmão está agora sua mãe. “Tenho dois filhos, tudo em casa, saímos muito pouco e aqui na cidade, algumas pessoas normalizaram a pandemia, churrasco, piscina, gente postando no instagram um monte de aglomeração, chácara, praia, como se nada estivesse acontecendo, só vão dar valor quando perderem alguém!”, lamentou na entrevista feita via Skype.

Ansiosa, Maria espera que a vacinação ajude a acabar com o mal da COVID-19 o mais breve possível. “É uma tragédia, a vacina vai ajudar, mas isso não desaparecerá de uma hora para a outra, os cuidados sanitários precisarão persistir até que possamos voltar a viver na normalidade, ainda não será tão rápido, mas há luz na imensa escuridão que se abateu em cima do planeta”, pondera.

Maria ainda dá um exemplo: “Dia desses, estive na farmácia e um cara reclamava das máscaras, contei sobre o meu pai, e ele me chamou de mentirosa e comunista! Esse povo está descontrolado, há um pessoal que perdeu o senso de humanidade, onde vamos parar?”

Trabalhando em casa, Maria diz que a esperança é ver a consciência das pessoas crescer a cada dia. “Eu faço minha parte e passo o dia tentando abrir os olhos dos cegos, tenho esperança, mas também tenho cansaço, contudo pelo memória do meu pai, um professor de Ciências com mais de 40 anos de sala de aula, eu não posso desistir e não vou”, finaliza.