São-carlense diagnosticado com fibromialgia conta como melhorou sua condição de vida com tratamento de pesquisadores do IFSC/USP

Richard contou sobre sua melhora com tratamento inovador

Liderados pelo pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), Antônio Eduardo de Aquino Júnior e sob a coordenação do Prof. Vanderlei Salvador Bagnato, os fisioterapeutas Daniel Marques Franco, Michelle Luise de Souza Simone, a biomédica, Heloísa Ciol e o mestre em psicologia, Otávio Beltramello, são parte importante da equipe que desenvolve seu trabalho na Unidade de Terapia Fotodinâmica (UFT) sediada na Santa Casa da Misericórdia de São Carlos (SCMSC), tendo como bastião principal o Grupo de Óptica do IFSC/USP. Além de ser um exemplo de preocupação social a ser seguido, este pequeno grupo representa outro bem mais vasto que se empenha em erguer um projeto de pesquisa inovador – quer no quesito da criação de equipamento desenvolvido dentro do próprio IFSC/USP, quer no método terapêutico utilizado no tratamento de dores em pacientes com artrose e, mais recentemente, com fibromialgia.

Desenvolvida inicialmente para o tratamento de pacientes com artrose, e posteriormente para o alívio das dores da fibromialgia – síndrome que afeta majoritariamente (?) mulheres e que causa dores intensas por longos períodos e hipersensibilidade em músculos, articulações e outros tecido moles –, a pesquisa levou esse grupo à introdução do método que trata pessoas que sofrem com esta última doença. “Temos atendido centenas de casos nos últimos três anos. Certa vez, atendi uma paciente que tomava cinco doses de morfina por dia e vários outros medicamentos para amenizar as dores. Depois de dez sessões de tratamento, ela conseguiu eliminar quase todos os medicamentos, exceto a morfina, que tem que passar por uma fase de ‘desmame’: atualmente, essa paciente toma apenas um comprimido por dia”, comenta a fisioterapeuta, Michelle. O processo de retirada autônoma do medicamento não é recomendada, como destaca Daniel Franco, ao salientar a importância do envolvimento médico na questão. “Muitos de nossos pacientes não veem necessidade da medicação depois do sucesso do tratamento. Outros, já tentaram retirar os medicamentos antes do projeto, mas afirmam que as dores voltam, então procuram intercalar os remédios, tomando-os dia sim, dia não. Em todo caso, é sempre importante consultar o médico”.

A procura do tratamento – disponível apenas em São Carlos – por pessoas oriundas de todo o território nacional e mesmo do estrangeiro, obrigou o grupo a reforçar o atendimento que é feito na SCMSC, bem como abrir outro local de atendimento, este localizado no Bairro Vila Prado – Clínica Multifisio. O objetivo é estender o horário de atendimento de segunda a sábado até cerca das 21 horas, atendendo principalmente aqueles que não podem comparecer no horário regular, seja por motivos de trabalho, ou por não morarem na cidade. “Nós já atendemos cerca de 900 pessoas, e após a reportagem exibida ano passado no Jornal Nacional, da Globo, a lista de espera chegou a perto de 700. Sentimos mais do que a obrigação de estender os horários de atendimento, de acordo com o aumento da demanda”, comenta Antonio Aquino, esperançoso em poder atender as cerca de 200 pessoas que ainda permanecem em fila de espera, antes da comercialização do equipamento, prevista, em princípio, para o próximo mês de abril.

Combinando frequências específicas de ultrassom e laser, o tratamento para as dores e inflamação causadas pela artrose mostraram-se como uma nova esperança de qualidade de vida para todos quantos sofrem da doença, tendo acontecido o mesmo no caso da fibromialgia. Contudo, neste último caso, os pesquisadores do IFSC/USP foram mais longe em seus estudos e pesquisas: de fato, ao invés de aplicar a conjugação de ultrassom e laser diretamente no local onde se manifestam as dores, a aplicação começou a ser feita nas palmas das mãos dos pacientes. “Um estudo observou que nas palmas das mãos de pacientes com fibromialgia existe um maior número de neuromecanoreceptores – terminais nervosos que chegam nas palmas das mãos e levam informações para o cérebro interpretar como dor”, relata Heloísa Ciol, que vê aí um possível caminho para identificar a causa da doença. “A nossa hipótese trabalha em cima do efeito da luz e do ultrassom em toda a parte sensorial que existe na mão e que consegue levar informações para o cérebro, de forma que ele pare de interpretar que o corpo está em uma situação de dor constante e ajude a modular tanto a parte celular e muscular, para tentar reduzir os processos inflamatórios.” Em relação a artrose, a biomédica explica que as dores são provocadas pelo desgaste da cartilagem e processos inflamatórios que fazem com que o paciente perca mobilidade, força e dependa de acessórios para se locomover, ou até mesmo da ajuda de outras pessoas. “Com a aplicação da luz e do ultrassom também foi observada a melhora do paciente, porque a luz tem efeitos anti-inflamatórios, analgésicos e promove a circulação sanguínea no local, havendo estudos sugerindo que pode até estimular a proliferação de algumas células da cartilagem”, explica. “Reduzindo a inflamação, reduzimos a dor, e, reduzindo a dor, promovemos uma melhora na movimentação articular”, simplifica Antônio Aquino.

Quanto aos resultados obtidos ao longo dos tratamentos, os pesquisadores obtiveram importantes constatações. Embora a artrose e a fibromialgia estejam relacionadas com o envelhecimento do ser humano, o fato é que a população mais jovem também está sendo bastante atingida por ambas as doenças, tudo levando a crer que aspectos comportamentais e emocionais possam estar por trás dessa realidade. “Nós sempre tivemos a ideia de que a artrose era uma doença de idosos, por conta do desgaste dos joelhos, nomeadamente pelo fato dos indivíduos carregarem pesos durante toda a vida. Contudo, revelou-se que não são apenas os idosos que sofrem de artrose. Eu acredito que a redução da faixa etária dos doentes pode ser explicada pelo aumento dos índices de sobrepeso e de intervenções cirúrgicas”, sugere Antônio Aquino, com preocupação. “O aumento do peso força o joelho a suportar uma carga que ele não aguenta, forçando a articulação. Já os procedimentos cirúrgicos nos joelhos, mesmo que mínimos, causam a degeneração da cartilagem, provocando a artrose”.

Fibromialgia masculina – um caso clínico não tão raro

O fisioterapeuta Daniel Franco atendeu, em 2018, um raro caso de fibromialgia masculina, situação que originou a publicação (2018) de um artigo científico no “Journal of Novel Physiotherapies” (CLIQUE AQUI PARA LER), da autoria dos pesquisadores do IFSC/USP, Antônio Eduardo de Aquino Jr., Daniel Franco, Juliana Amaral Bruno, Heloísa Ciol e Vanderlei Salbvador Bagnato, e Anderson Luiz Zanchun, da empresa “MM Optics”. Sobre esse caso, Daniel Franco comenta “Quando o paciente chegou na clínica estava com tanta dor e tão deprimido que não me olhava nos olhos. Fiquei incrédulo com o estado dele e pelo fato de, pela primeira vez, ser um caso existente no sexo masculino!”

Richard Carlos Rocha tem 43 anos e há cerca de quinze anos foi diagnosticado (por exclusão de outras patologias) com fibromialgia, mas os sintomas já vinham se manifestando desde quando era muito novo – adolescente. “Tem sido uma vida de sofrimento, com dores constantes ao longo de todos esses anos e com picos de dor verdadeiramente insuportáveis, que se acentuaram nos últimos três anos”, lamenta Richard, que começou a sofrer de depressão há cerca de dez anos, após ter perdido seu negócio, único sustento da família. “Foram dores que atingiram meu corpo inteiro, sem que eu pudesse localizá-las, mesmo apalpando meu corpo e procurando os locais doloridos. Não conseguia dormir, me encharcava de anti-depressivos e analgésicos, tendo chegado ao ponto de explicitamente pedir a morte. Passava a maior parte do tempo dopado, tendo como único apoio minha esposa e minhas filhas. Você não consegue detectar de onde vêm as dores, ou seja, qual o ponto dolorido, pois ela é interna, localizada em diversos pontos, não detectável. Insuportável”, relata nosso entrevistado, visivelmente emocionado.

Ao tomar conhecimento, por um amigo, do tratamento em curso na Unidade de Terapia Fotodinâmica, Richard – então com 108kg de peso – entrou no programa e fez as primeiras dez sessões de tratamento, mesmo sabendo que esses procedimentos eram quase essencialmente dedicados a mulheres, não havendo, até esse momento, registros da ocorrência de fibromialgia em homens. Contudo, a partir do momento em que os pesquisadores do IFSC/USP publicaram o caso de fibromialgia masculina, protagonizada por Richard, outros casos começaram a aparecer. O homem dificilmente vai no médico, principalmente quando é acometido por alguma dor ou mal-estar, e isso é típico, segundo Antônio de Aquino. “Por outro lado, há falta de diagnóstico para esse tipo de doença e não existem exames que detectem a fibriomialgia, sendo um problema que começa a ser comum a homens e mulheres, podendo existir, quem sabe, mais casos masculinos do que femininos, só que os homens escondem seu estado de saúde e as mulheres não”, salienta o pesquisador. Quanto à melhora da disposição de Richard Carlos, ela deve-se em grande parte ao processo de normalização dos níveis de fluxo periférico cerebral, que provocam igualmente uma normalização do limiar da dor e a diminuição da fadiga excessiva: “A partir dessa diminuição você começa a ter mais disposição, exatamente como aconteceu com Richard”, acrescenta Antonio Aquino.

Quanto ao exercício físico, embora possa parecer que possa contribuir para um aumento da dor, o certo é que ele libera muita endorfina, que congrega substâncias que atuam ma diminuição da ansiedade e de outros fatores que agem diretamente na ação dolorosa da fibromialgia. Contudo, as pesquisas não param, estando programada a otimização dos tratamentos através de uma intervenção mais lata de profissionais, nomeadamente com a inclusão de um psicólogo na equipe multidisciplinar da UTF – Otávio Beltramello, que reconhece a interferência psicológica no controle ou progressão da síndrome, detectando até que ponto ela é fisiológica e não psicológica. “Toda explicação de qualquer fenômeno nunca é apenas psicológica. A piora de uma condição psicológica pode desencadear uma condição biológica agravada e vice-versa”. Otávio entrou na equipe de pesquisadores exatamente pela necessidade de se poder oferecer atendimento psicológico aos pacientes como parte imprescindível para o máximo sucesso do tratamento e melhora da qualidade de vida. “Muito em breve, o departamento psicológico entrará em funcionamento”, promete Antônio Aquino, que envia um recado a todos os pacientes que ainda estão aguardando tratamento: “Nosso foco é a qualidade de vida. O principal objetivo e vontade sempre foi universalizar o acesso. Em breve, o tratamento será possível para aqueles que não conseguiram participar do tratamento em São Carlos”, conclui o pesquisador.

Richard Carlos pesa agora 82KG, voltou a jogar futebol, inclusive a nível de campeonato regional, pratica exercício físico todos os dias e tem seu astral bem lá em cima. Conversa animadamente (olhando nos olhos de todo o mundo) com todos e continua a fazer tratamentos periódicos na UTF. “Ainda tenho algumas dores, mas elas desaparecem por completo quando faço exercício físico. Durmo tranquilamente, embora de vez em quando ainda precise de um comprimido para “apagar”. Tenho muita esperança que com a continuação dos tratamentos e com o apoio psicológico eu possa me livrar de vez daquilo que agora é apenas uma sombra do que passei na minha vida”, conclui nosso entrevistado, sorrindo.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP