São-carlense que sofre de ansiedade conta como é um dia em sua vida

Os remédios dão algum conforto

O gatilho para a minha ansiedade retornar (eu já sofri com isso há anos atrás, mas consegui diminuir o problema com um longo tratamento) foi uma amizade desfeita de maneira abrupta. A pessoa, eu não sei qual foi o motivo, pois não me deu nenhuma explicação e bloqueou todos os meus contatos, desapareceu. Não sei se tive culpa, qual foi a justificativa, queria apenas ter a paz de lhe pedir perdão, caso tenha feito algo que a desagradou, mas isso ainda foi possível. Espero que ela leia isso e não repita esse expediente com outro alguém.

Depois do episódio me senti muito mal, porque não tinha respostas. Vi que o sentimento de pavor da minha ansiedade havia retornado. Pois bem, eu acordo todos os dias entre 6h15 e 6h30. Abro os olhos e a primeira coisa que faço é ver se veio algum recado, em dias de redes sociais e internet é fundamental ficar de olho, nem sempre tem algo, como a pessoa desapareceu sempre acho que poderia vir algo dela, mas é um ledo engano. Não vem nada e pelo jeito não chegará e se chegar não será tão cedo.

Nisso, a ansiedade já dispara. Sinto um nó na garganta, um sentimento de imperfeição, a descarga de ácidos no meu estômago é gigantesca e aquilo já começa a queimar e ficar quente como deve o ser o inferno. Aquele vazio toma conta de mim.

Eu levanto, começo meus afazeres do dia, cuidar de minhas criações, ir para a padaria comprar pão, mas o sentimento de incompletude continua a me dominar, porque não tenho respostas de nada do que queria saber. Entro no carro, saio dirigindo e percebo que estou tremendo. Na padaria, em tempos de pandemia, as filas do lado de fora são comuns, quando é minha vez de ficar nelas noto que estou tremendo um pouco, algumas pessoas percebem, vejo que comentam algo, talvez nem seja de mim, mas eu acho que é, parece até que tenho certa síndrome do pânico com isso.

Já em casa depois da padaria vou tomar meu café, como com aquela sensação de que nada está acontecendo, converso com familiares protocolarmente, as vezes nem converso, porque cada palavra pode ser um gatilho para deixar minha condição ainda pior. Tento comer direito, me alimentar com alguma tranquilidade.

Trabalhando em casa por conta da pandemia, abro meu computador e começo meu dia, quando olho para as coisas, tudo me faz lembrar que nada foi resolvido e parece que estou levando uma martelada na cabeça, é pancada em cima de pancada, mesmo com cada mensagem carinhosa que eu possa receber de queridos amigos que tenho. Muitos sempre me perguntam se estou bem, somente um ou dois realmente sabem pelo que estou passando, tenho em mente que não devo ficar incomodando ninguém, apesar de ser reconhecido por estar corriqueiramente com o peito aberto para acolher outros.

Depois da barriga ardendo, ela está devidamente preenchida com o café da manhã. O tempo passa e no meio da manhã sinto diversos calafrios que pegam pela barriga e se espalham pelo corpo. Levanto da cadeira, vou até o fundo da casa, olho pelo muro e vejo o horizonte, faço exercícios de respiração, tento até chorar, mas as lágrimas sumiram. Mensagens, telefonemas e questões para resolver fazem com que eu me enfie no serviço, mesmo tendo essas desconfortáveis sensações físicas.

O almoço? Ah, o almoço é um momento onde se tem alguma calma, mesmo assim os pensamentos permanecem e as interrogações não saem de minha cabeça. Acho que todo o ansioso é encanado e quer saber sempre o que houve ou pelo menos obter uma resposta, tipo: “Você fez isso seu filho da p…..!”

O silêncio nos destrói. À tarde retomo as atividades e noto que meus dois braços estão muito cansados, a musculatura ficou mole, é a ansiedade fazendo com que eu me sinta como se fosse feito de uma geleia esquisita, parece que vou despedaçar. Os calafrios na barriga voltam e decido dar uma volta de carro (um pequeno prazer de trabalhar em casa, parar um pouco quando quiser!) e saio pela cidade.

Neste dia, parei na Praça XV e fiquei observando o movimento, fiz uma caminhada, olhei as plantas, as pessoas andando na São Carlos pandêmica e tentei retomar alguma espécie de normalidade. Deu um certo resultado, a mente abriu um pouco e a sensação física de desespero sumiu.

Volto mais tranquilo para a casa, ouvi uma música bonita chamada “Clareou” na Universitária FM e isso me deu relativo conforto. Termino o dia de trabalho e vou tentar relaxar, saio para fazer uma caminhada num dos poucos momentos em que consigo uma interação relativa com a natureza, nessa hora e meia que ando sinto que sou eu mesmo, sem amarras e sem perguntas, passo a passo nas ruas, mas tem sempre um diabinho lá no fundo, pois algumas coisas que vejo me fazem lembrar. Uma latinha de cerveja, uma flor, um anúncio, uma comida, o ansioso encanado é um maluco que vê tudo e lembra daquilo que o agride.

Em casa, um banho, até é gostoso, o jantar, um pouco de TV, mais mensagens no celular, pessoas queridas perguntando e querendo saber, brincando e se dando para lhe receber, mas a incompletude da noite chegou. O vazio veio. Você pode se perguntar: você não foi ao médico?

Fui sim, há três dias estou tomando remédios que não consumia há anos. Hoje tomo Clomipramina que é usada para tratar a depressão e distúrbios do humor, além de obsessões, estados de pânico e fobias (medo irracional), condições de dor crônica e fraqueza muscular (cataplexia) associados com ataques repetidos de sonolência excessiva (narcolepsia). Também tomo Buspirona que é indicado no tratamento de distúrbios de ansiedade, como o transtorno de ansiedade generalizada e no alívio em curto prazo dos sintomas de ansiedade, acompanhados ou não de depressão. A fórmula ainda tem Risperidona que é um antipsicótico. De lambuja ainda vem Complexo B e Arginina. Todos estes medicamentos me dão algum conforto e eu consigo dormir com relativa tranquilidade.

Fico meio dopado depois que tomo, normalmente não consigo ver meus programas preferidos com aquela atenção de antes, tudo isso porque não tenho uma resposta.

E assim, acaba o meu dia, amanhã, provavelmente, será tudo igual novamente. Dizem que é um dia por vez e que a gente supera. Eu espero conseguir. Nunca tire sarro de um ansioso e nem brinque com os seus sentimentos você poderá fazê-lo atingir o mesmo patamar onde estou hoje.

 

Atenciosamente,

 

Ansioso são-carlense.