As eleições de 2026 ficaram para trás. O Brasil escolheu seu presidente, São Paulo definiu seus representantes e São Carlos continua com os mesmos desafios de antes das urnas: saúde, educação, infraestrutura, mobilidade urbana, desenvolvimento econômico e qualidade de vida.
É nesse cenário que uma questão precisa prevalecer sobre as disputas partidárias: o interesse de São Carlos não pode ser condicionado à preferência eleitoral de seus governantes.
O prefeito Netto Donato (PP) tem um mandato conferido pelas urnas e, independentemente de suas escolhas políticas na eleição presidencial, permanece como o principal representante do Executivo municipal nas negociações por recursos e investimentos para a cidade.
Seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, derrotado na disputa presidencial, pertence ao campo legítimo das escolhas políticas. A responsabilidade administrativa, entretanto, exige diálogo com os governos federal e estadual, quaisquer que sejam os partidos que estejam no poder.
O mesmo princípio deve orientar Brasília e o Palácio dos Bandeirantes. Municípios não podem ser tratados de maneira diferente em razão do posicionamento eleitoral de seus prefeitos. A população de São Carlos é formada por eleitores de diferentes correntes políticas, e todos dependem igualmente dos serviços públicos.
A relação de Lula com São Carlos
A trajetória das relações entre São Carlos e o Governo Federal oferece exemplos concretos da importância da cooperação institucional.
O Hospital Universitário da Universidade Federal de São Carlos (HU-UFSCar), que recebeu investimentos federais de milhões de reais ao longo de sua implantação, estruturação e expansão, é um dos símbolos dessa presença da União no município.
A cidade também mantém uma relação histórica com investimentos federais em educação superior, pesquisa científica, infraestrutura universitária e serviços públicos.
Essas iniciativas atravessam diferentes administrações e demonstram que o desenvolvimento de São Carlos depende de políticas de Estado, e não apenas das preferências partidárias de quem ocupa temporariamente os cargos.
O presidente Lula, agora em seu quarto mandato, tem diante de si a responsabilidade de manter essa relação institucional com o município. O histórico de investimentos federais na cidade oferece uma base importante para a continuidade do diálogo.
Universidades públicas não deveriam ser alvo de disputas partidárias
Outro ponto que merece atenção é a discussão ocorrida na Câmara Municipal envolvendo críticas às universidades públicas.
É legítimo que vereadores fiscalizem recursos, questionem decisões e debatam políticas educacionais. Essa é uma das funções do Legislativo. Entretanto, críticas generalizadas às instituições universitárias pouco contribuem para uma discussão séria sobre o papel que elas desempenham em São Carlos.
A UFSCar e a USP representam muito mais do que salas de aula. São instituições que movimentam a economia, formam profissionais, desenvolvem pesquisas, atraem investimentos, promovem inovação e ajudam a projetar São Carlos nacional e internacionalmente.
Nesse aspecto, a atuação institucional do próprio prefeito Netto Donato merece ser considerada. Sua administração mantém iniciativas de aproximação e cooperação com as duas universidades, reconhecendo a importância da produção científica e tecnológica para o desenvolvimento municipal.
Há uma coerência administrativa importante nessa relação: independentemente das posições ideológicas presentes no debate político, o município tem razões objetivas para fortalecer suas parcerias com a UFSCar e a USP.
São Carlos construiu parte significativa de sua identidade econômica e social em torno do conhecimento. Preservar essa característica interessa à cidade inteira.
Netto Donato e as universidades: uma parceria que merece continuidade
A cooperação entre a Prefeitura e as universidades não se limita ao discurso. Em dezembro de 2025, a administração municipal e a UFSCar formalizaram um acordo para ampliar a integração entre a formação de profissionais e os serviços da rede pública de saúde.
Mais recentemente, em outubro de 2026, a Prefeitura participou de articulações com a USP, a UFSCar e o Governo do Estado para discutir a criação de um Distrito de Inovação em São Carlos. São exemplos de uma agenda que aproxima a administração municipal da comunidade científica. Prefeitura de São Carlos+1
Essas iniciativas também ajudam a colocar em perspectiva os embates políticos na Câmara. Divergências sobre o ensino superior podem e devem ser debatidas, mas a discussão ganha mais consistência quando considera os resultados das instituições e suas contribuições para o município.
O diálogo entre Lula e Netto já tem precedentes
Em março de 2026, durante a visita do presidente Lula a São Carlos, Netto Donato participou das agendas oficiais e apresentou reivindicações relacionadas à saúde pública e à infraestrutura urbana.
Na ocasião, foram entregues novas estruturas do Hospital Universitário, com investimentos anunciados de R$ 25,6 milhões do Novo PAC, R$ 5,8 milhões da rede federal de hospitais universitários e R$ 2,5 milhões em emendas parlamentares. O encontro demonstrou, na prática, a possibilidade de cooperação entre representantes de campos políticos diferentes. Prefeitura de São Carlos+1
Após o segundo turno, o próprio Netto reconheceu publicamente a vitória de Lula e desejou sucesso ao presidente reeleito. Também reafirmou seu compromisso de continuar trabalhando por São Carlos. São Carlos em Rede+1
Essa manifestação abre espaço para a continuidade de uma relação institucional que pode ser avaliada por seus resultados concretos: projetos apresentados, recursos obtidos, obras executadas e serviços entregues à população.
São Carlos precisa de resultados, não de prolongamento da campanha
O período eleitoral é marcado por divergências, críticas e escolhas. Encerrada a votação, começa outra etapa: a de transformar compromissos públicos em ações administrativas.
Netto Donato continua responsável pela condução da Prefeitura até o término de seu mandato. Lula tem a responsabilidade de governar o país inteiro, incluindo os municípios onde seu adversário recebeu mais votos. E o Governo do Estado possui atribuições igualmente importantes para o desenvolvimento regional.
A postura republicana pressupõe justamente isso: reconhecer a legitimidade dos mandatos, respeitar as diferenças políticas e manter canais de cooperação entre as instituições.
Também cabe à Câmara Municipal contribuir para esse ambiente, exercendo sua função fiscalizadora sem perder de vista os interesses permanentes da cidade.
São Carlos não pertence a um partido, a um presidente, a um governador ou a um prefeito. Pertence à sua população.
A eleição terminou. As necessidades da cidade, não.
E é sobre elas que os governos precisam continuar conversando.
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