Todos são potencialmente falcões

E como, sabiamente, dizem: ‘O caminho se faz caminhando’.

Numa quermesse, dessas divertidas que acontecem no interior paulista, com quitutes deliciosos, artesanato delicado, bandeirinhas coloridas, barraca da argola, com músicos da terra tocando modas de viola, dois rapazes, com certa diferença de idade, passeiam abraçados.

            Não há nada de agressivo, nada que possa acabar com a noite de alguém. Contudo, a cena despertou a ira de uma pessoa, que, sem titubear, partiu para cima dos dois, agredindo com socos, chutes e palavrões. Até alguém interferir − o que demorou −, apanharam muito.

            Numa outra festa, tipo quermesse, também, duas mulheres, também de idades diferentes, andam abraçadas. Adivinhem o que aconteceu! Também foram agredidas.

            É de se pensar: quem agrediu estava defendendo o quê? Bons costumes? Argumento muito usado: duas pessoas do mesmo sexo abraçadas são mau exemplo para as crianças. Está certo, a cena pode causar estranhamento, mas é algo a ser conversado. Se quem agrediu tem filhos, pode ter certeza de que ‘embaralhou’ a cabeça deles. Pessoas com hematomas são lição do quê?

            Há muito a se esclarecer em relação à homossexualidade. Primeiro de tudo, não é uma opção sexual e nem ‘sem-vergonhice’, como muitos dizem. Quem escolhe ser agredido, hostilizado, não aceito, levar socos, ter dificuldade para se empregar, entrar para a estatística – altíssima – de assassinados? É uma orientação sexual. A pessoa é assim, ela não optou por isso. Muito a refletir, muito a respeitar.

            Outra situação: num jogo de futebol, um menino resolve pedir a camisa do outro time, admira demais aquele jogador. Quando alguns viram a cena, começou um murmurinho, que cresceu num tanto até virar uma reclamação geral contra o menino, com xingamento, ameaça, contra ele e a família dele, no estádio de futebol. Como é que é? Fazer isso com uma criança? Deu uma reviravolta, outros jogadores de vários times se solidarizaram, ofereceram muitas camisetas de time ao menino. E ele, para se proteger e proteger os seus, fez uma comunicação para todos, se desculpando. Tudo invertido: a vítima é que se desculpa.

            Uma mulher não fica satisfeita com o serviço de delivery e sai xingando o entregador, com termos racistas. É, no mínimo, uma imbecil, pois está pedindo para ser indiciada. Falta a muitos olhar o entorno: somos um país em que mais da metade da população é negra. A desigualdade impera e muitas das dificuldades recaem sobre os negros. Como mudar isso? Igualdade de oportunidades. É utópico? Sim, mas como Milton Nascimento canta, na música “Coração Civil”: ‘Quero a utopia, quero tudo e mais / Quero a felicidade nos olhos de um pai’. Eu, também.

            Essas situações são exemplos de intolerância. Infelizmente, há muitas a se comentar e, se nada for repensado, não findarão nunca.

            Percebem que há intolerância e agressão? Não se tolera algo e a reação é agredir física, verbal e moralmente. Pode-se entender: as pessoas que são intolerantes muito provavelmente vêm de famílias e contextos intolerantes. Se a pessoa cresce num ambiente em que é ‘normal’ diminuir, desrespeitar e agredir outras pessoas, ela vai levar isso como o certo. Se ela for a pessoa diminuída, desrespeitada e agredida, junte-se, nesse tacho de crueldades, a revolta.

            Eu disse que se pode entender, a partir da história de vida, uma pessoa ser intolerante. Contudo, aceitar as maldades que um intolerante comete, jamais. Quando terminará essa espiral de injustiça, se não se faz nada?

            Há muitos direitos assegurados em um papel, a dita carta magna: direito a saúde, educação, habitação, segurança e lazer, independente de raça, credo, gênero… Todas essas garantias mínimas têm de sair do papel e ser introjetadas nas mentes e nos corações. Introjetadas, internalizadas, absorvidas e entendidas, até que haja um convencimento sincero de que o bem de cada um constitui o bem de todos.

            A intolerância não é de todo indesejável. Tudo depende do alvo que ela alcança. Se tolerarmos as injustiças, há grande risco de banalizá-las, pois passam a ser ‘normais’. Uma cena que me incomoda muito é ver senhores e senhoras de idade avançada puxando carrinhos com material reciclável. Não é algo que se aceite, se tolere, pois passam o dia carregando peso para angariar alguns reais no fim do dia. Que realidade é essa que não garante aos nossos velhos e velhas uma vida minimamente decente? Usei ‘nossos’ para reforçar o conceito de que o bem de cada um constitui o bem de todos, o nosso bem, o seu bem, o meu bem.

            Palavras, palavras, palavras… Não, não fico somente nas palavras. Igual a muitos, faço o que posso, seja levando cestas básicas, roupas, etc. aos asilos e casas de assistência, seja oferecendo uma ajuda quando vejo alguém puxando esses carrinhos. E tenho plena consciência de que é pouco, é pontual, porque o problema é estrutural: há de se mexer na distribuição de renda, na priorização das demandas, na igualdade de oportunidades, no investimento sério…

Voltemos à utopia. Muitos dirão: isso é impossível de se alcançar. Não, não é. Se não sabemos onde queremos chegar, todos os caminhos são errados, dispersos, erráticos, mesmo, no sentido de dar voltas no mesmo lugar ou tomar direções totalmente erradas. Mas se sabemos dos objetivos, se muitos já desenvolveram os meios para alcançá-los, se há lugares onde houve sucesso, por que é impossível? A quem pode interessar um estado de coisas ruim?

Em um dos versos da música de nosso inspirado Milton, ele diz que quer a alegria dos olhos de um pai. Vamos extrapolar e imaginar um casal que chega em segurança em sua casa, que tem o orgulho de ganhar o suficiente para garantir o bem-estar de sua família, que vai levar seus filhos para passear, que se senta para ajudá-los na tarefa… Vamos pensar em que pontos esse círculo virtuoso tem se quebrado, espatifando esperanças.

Em um contexto sadio, em que a Educação tem lugar especial, que ocupa um espaço precioso na vida das pessoas, não vinga a intolerância. E por quê? Porque a Leitura abre horizontes, permite conhecer o que é diferente e quem é diverso de nós mesmos, e o respeito por essa diferença acontece, flui. Há o poder da argumentação e xingamentos ficam distantes, no âmbito do chulo, da baixeza. Outra vertente da Educação? A Dança, que faz com que conheçamos nosso corpo e o valorizemos, respeitando o corpo do outro, também. As agressões físicas caem no vazio, não há espaço para a violência física.

Ainda nessa vertente, o Esporte, que traz consigo as noções de disciplina, de saber que há espaço para vitórias e derrotas, de respeito às regras e ao outro, pois pode haver adversários, mas não cabe a figura do inimigo a ser eliminado. A agressão física perde espaço. Outra vertente da Educação? A Música. Mais do que comprovado, a música estimula forte e beneficamente nossa atividade cerebral, e vivenciamos o que há de enlevado, mágico. É transformadora.

Quando se fala da utopia, vem à nossa mente o impossível, o etéreo, o idealizado. Mas não se trata, aqui, de universos paralelos, inatingíveis, onde o chão é um arco-íris, com fadas mágicas e gnomos facilitando as coisas. Não, pois há situações possíveis de serem alcançadas, projetos a serem concretizados. Falta vontade para pôr tudo isso em prática e a consciência de que somente quando houver igualdade de oportunidades, alcançaremos o desenvolvimento. Ou seja: tem de estar bom para todos.

Há uma organização que se ocupa em atender necessidades básicas dos que têm menos oportunidades e, ao mesmo tempo, procura oferecer qualificação, ensino, para os que deixaram o estudo para trabalhar. A organização se define assim: ‘Somos um ecossistema de desenvolvimento social que atua por meio da estratégia de rede em periferias e favelas de todo o Brasil. [  ] baseamos nossas ações em análise de dados e gestão eficiente, para interromper o ciclo de pobreza e transformar a pobreza em item de museu.’ [Ver doe.gerandofalcoes.com.br]. Não por acaso, chama-se ‘Gerando Falcões’.

É isso. É preciso fincar metas, acreditar na mudança possível e fazer por onde alcançar as já não tão utopias assim.

Na imagem que ilustra esse texto, estão minha filha e seu pai, caminhando por uma vereda. Alguns já sabem que minha filha tem Síndrome de Down. Eu garanto que a utopia nos faz seguir em frente e que é necessário acreditar que se vão alcançar degraus que parecem impossíveis de se galgar. Luto pelo fim da intolerância para que Julia viva num mundo melhor, sem tantas crueldades. E, sim, vejo a felicidade nos olhos de um pai.

E como, sabiamente, dizem: ‘O caminho se faz caminhando’.

Antes que eu me esqueça: aqueles rapazes, com certa diferença de idade, passeando abraçados, são pai e filho. E aquelas mulheres, também abraçadas, são mãe e filha.

Zelinda Martins, 57 anos, Odontóloga não atuante, Mestre em Língua Portuguesa e Revisora de textos em Português. Observadora do mundo.