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Trânsito infernal em São Carlos: e se as ruas do Centro permitissem estacionamento apenas de um lado?

Trânsito infernal estressa o motorista/Imagem gerada por IA

Trânsito infernal estressa o motorista/Imagem gerada por IA

Congestionamentos nos horários de pico desafiam São Carlos. Artigo defende estudo para permitir estacionamento em apenas um lado de importantes ruas do Centro, além de semáforos inteligentes e educação no trânsito.

Quem circula diariamente pela região central de São Carlos conhece o problema. Basta chegar o horário de entrada no trabalho, o período do almoço ou o fim da tarde e início da noite para que diversas ruas passem a registrar trânsito lento, filas nos semáforos e dificuldade para atravessar poucos quarteirões.

É uma situação que merece uma discussão mais ampla por parte do poder público.

Não existe uma solução única para o trânsito de São Carlos. Melhorias no transporte coletivo, investimentos em tecnologia, sincronização semafórica, fiscalização e educação dos motoristas precisam caminhar juntas. Entretanto, existe uma alternativa relativamente simples que deveria ser tecnicamente estudada pela Prefeitura: retirar o estacionamento de um dos lados de algumas das principais vias do Centro.

A medida reduziria vagas disponíveis, evidentemente, e por isso não deve ser adotada sem planejamento. Mas poderia devolver às ruas algo cada vez mais escasso nos períodos de maior movimento: espaço para a circulação dos veículos.

Ruas do Centro foram projetadas para outra realidade

Grande parte da malha viária da região central nasceu quando São Carlos tinha uma população e, principalmente, uma frota de veículos muito menores.

A cidade mudou. O automóvel ganhou enorme presença nos deslocamentos cotidianos, enquanto a geometria das ruas centrais permaneceu praticamente a mesma.

O resultado aparece com maior intensidade nos horários de pico.

Quando automóveis ficam estacionados dos dois lados de determinadas ruas, sobra um corredor relativamente estreito para todo o fluxo. Basta um veículo reduzir a velocidade para estacionar, realizar uma conversão, aguardar a passagem de um pedestre ou tentar acessar uma garagem para que os carros seguintes também sejam obrigados a parar.

O efeito se espalha rapidamente pelos cruzamentos seguintes.

Trânsito: Estacionamento de apenas um lado poderia ser estudado em 13 vias

Uma proposta seria a Prefeitura de São Carlos realizar estudos técnicos de capacidade viária, estacionamento, segurança e impacto no comércio para avaliar a implantação de estacionamento permitido em apenas um lado em determinados trechos de importantes ruas.

Entre as vias que poderiam entrar nesse estudo estão:

A Avenida São Carlos seria uma exceção a essa proposta, por possuir características próprias e exigir planejamento específico.

Não significa simplesmente instalar placas de “Proibido Estacionar” de uma hora para outra. A mudança precisaria ser precedida de estudos para determinar qual lado deveria permanecer disponível para estacionamento em cada trecho, levando em consideração largura da pista, pontos de ônibus, garagens, carga e descarga, acessibilidade, comércio e segurança de pedestres e ciclistas.

Menos estacionamento pode significar mais capacidade para circulação

Uma rua não precisa necessariamente ganhar uma nova faixa formal para apresentar melhora na circulação.

Ao eliminar veículos estacionados de um dos lados, aumenta-se a largura útil disponível. Isso pode facilitar conversões, melhorar a passagem de ônibus e veículos maiores e diminuir interferências provocadas pelas manobras.

Em determinados pontos, dependendo da largura existente e dos estudos de engenharia, o espaço recuperado poderia inclusive permitir reorganização das faixas de circulação, áreas específicas para conversão, carga e descarga ou outras intervenções.

Há, porém, uma contrapartida evidente: vagas seriam eliminadas.

Por isso, qualquer projeto precisaria considerar alternativas para comerciantes, moradores, trabalhadores e consumidores que utilizam o Centro.

A discussão não pode ser simplesmente “carro circulando contra carro estacionado”. É necessário decidir qual utilização do espaço público produz maior benefício coletivo em cada rua.

Centro não pode funcionar como um grande estacionamento

Esse talvez seja o ponto central da discussão.

As ruas possuem espaço limitado. Quando parte significativa desse espaço é destinada ao armazenamento permanente de veículos particulares, diminui a área disponível para aquilo que deveria ser uma de suas funções principais: permitir deslocamentos.

Uma vaga utilizada durante horas atende praticamente um único veículo. O mesmo espaço incorporado à área de circulação pode beneficiar centenas ou milhares de deslocamentos ao longo do dia.

Isso não significa acabar com o estacionamento no Centro.

Significa estabelecer prioridades.

Ruas secundárias, estacionamentos privados e áreas especificamente destinadas às vagas continuariam desempenhando essa função. Já os principais corredores poderiam receber tratamento diferenciado, especialmente onde os congestionamentos são recorrentes.

Comércio precisa participar da discussão

Qualquer proposta desse tipo inevitavelmente encontrará resistência, principalmente pela preocupação com a redução das vagas próximas aos estabelecimentos comerciais.

Essa preocupação é legítima.

Por isso, comerciantes, moradores e entidades representativas precisam participar do debate.

Também seria possível adotar soluções intermediárias, como vagas rápidas, bolsões de estacionamento, espaços exclusivos para carga e descarga em horários determinados e maior rotatividade nas vagas remanescentes.

O objetivo não deveria ser dificultar o acesso ao Centro, mas justamente o contrário: tornar mais fácil chegar, circular e sair da região central.

Um Centro permanentemente congestionado também prejudica o comércio.

Semáforos inteligentes precisam fazer parte da solução

Outra frente que São Carlos deveria ampliar é o investimento em semáforos inteligentes e sistemas de gerenciamento do trânsito em tempo real.

A lógica tradicional de tempos semafóricos rígidos nem sempre responde adequadamente às oscilações do tráfego.

Um cruzamento pode apresentar grande demanda em determinado sentido pela manhã e comportamento completamente diferente no período da tarde.

Tecnologias de detecção e controle permitem ajustar os ciclos conforme o volume de veículos, reduzindo períodos em que uma via permanece parada enquanto existe pouca movimentação no sentido transversal.

Nos principais corredores, a sincronização também precisa permitir que os veículos encontrem uma sequência mais eficiente de sinais verdes, dentro dos limites de velocidade da via.

Não elimina congestionamentos, mas pode tornar o sistema mais eficiente.

Motorista também precisa mudar de comportamento

Infraestrutura e tecnologia, entretanto, não resolvem tudo.

Parte dos problemas cotidianos de trânsito nasce do próprio comportamento dos condutores.

Parar em fila dupla, bloquear cruzamentos, estacionar irregularmente, realizar conversões proibidas, utilizar vagas rápidas durante longos períodos ou avançar para dentro de um cruzamento sem espaço para concluir a travessia são atitudes capazes de transformar uma retenção pequena em congestionamento.

A educação para o trânsito precisa acompanhar qualquer mudança estrutural.

Fiscalização também é indispensável. Uma rua reorganizada perde grande parte de sua eficiência se veículos continuarem parando irregularmente justamente no espaço destinado à circulação.

São Carlos precisa discutir o trânsito antes que o problema fique ainda maior

O congestionamento observado hoje em determinados horários é também um aviso para o futuro.

Intervenções viárias de grande porte custam caro, exigem desapropriações e, no Centro consolidado, muitas vezes são praticamente inviáveis.

Isso torna ainda mais importante aproveitar melhor a infraestrutura que São Carlos já possui.

Retirar o estacionamento de um dos lados de corredores estratégicos não resolveria sozinho o trânsito da cidade. Seria uma peça dentro de um conjunto maior de medidas.

Estacionamento unilateral em determinadas vias, semáforos inteligentes, melhor sincronização, transporte coletivo eficiente, fiscalização, educação no trânsito e planejamento urbano precisam fazer parte da mesma estratégia.

A proposta merece estudos técnicos, simulações e diálogo com a população antes de qualquer implantação.

Mas São Carlos precisa começar essa discussão.

Porque continuar utilizando praticamente o mesmo espaço viário enquanto a demanda por deslocamentos aumenta significa aceitar que, ano após ano, os congestionamentos tendam a fazer parte cada vez mais da rotina do são-carlense.

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