Na primeira morte, o bairro Aracy ainda respirava poeira quente. O corpo foi encontrado ao amanhecer, deitado como quem apenas desistiu de caminhar. Nada de sangue espalhado, nada de espetáculo. Só um silêncio que parecia errado demais para ser natural. O delegado Antunes ficou alguns segundos parado antes de atravessar a fita de isolamento. Aprendera, com o tempo, que certas cenas não pediam pressa. Pediam respeito.
A vítima tinha nos bolsos um papel dobrado, velho, amarelado pelo tempo. Não era bilhete de despedida, não era recado. Era um desenho tosco de três círculos ligados por uma linha torta. Embaixo, três nomes de bairros: Aracy, Centro, Vila Marina. Antunes sentiu o estômago se contrair, não por medo, mas por reconhecimento. Aquilo não era acaso. Era um mapa.
Dois dias depois, no Centro, na rua Dona Alexandrina, a cidade acordou com a segunda morte. O comércio abriu as portas em meio ao burburinho habitual, mas o clima era outro: pesado, carregado, como se o ar tivesse aprendido a guardar segredos. O corpo estava sentado em um banco de praça, postura ereta, olhar vazio apontando para lugar nenhum. Parecia um morador que simplesmente parou no meio da vida.
Nos bolsos, o mesmo desenho. Os mesmos três círculos. Agora, um deles estava marcado com um risco fundo. Aracy estava “completo”.
Antunes começou a montar o quebra-cabeça com a lentidão de quem sabe que peças erradas também contam histórias. As vítimas não se conheciam. Não tinham laços aparentes. Profissões distintas, idades distintas, vidas que jamais teriam se cruzado. Exceto por um detalhe quase invisível: todos haviam morado, em algum momento, na mesma casa antiga da Vila Marina, décadas atrás. Uma casa que hoje estava abandonada, de janelas cegas e paredes que descascavam como pele doente.
O delegado foi até lá naquela mesma noite. Não para investigar oficialmente, mas para escutar o que os relatórios não diziam. Casas antigas guardam memória como gente guarda culpa. Ao atravessar o portão enferrujado, Antunes teve a sensação incômoda de que alguém respirava junto com ele. Não havia ninguém. E havia tudo.
No chão da sala principal, alguém havia desenhado os três círculos com carvão. Aracy e Centro estavam marcados. Faltava apenas um.
A terceira morte aconteceu na Vila Marina antes do amanhecer seguinte. O bairro, acostumado ao barulho de ônibus e passos apressados, amanheceu com um silêncio de velório não anunciado. O corpo estava próximo da antiga casa, quase como se tivesse sido atraído até ali por algo invisível. No bolso, nenhum papel. Não era mais necessário. O ciclo estava completo.
Antunes chegou ao local e não sentiu choque. Sentiu confirmação. As três mortes não eram um crime comum. Eram um ritual urbano, uma espécie de geometria do abandono. Três pontos distantes da cidade, ligados por histórias esquecidas, por uma casa que não fora apenas moradia, mas um lugar onde algo se partira de forma irreversível.
Nos arquivos antigos, encontrou o que faltava: naquela casa, anos atrás, ocorrera uma tragédia nunca totalmente esclarecida. Não entrara para as manchetes. Não rendia cliques. Foi abafada pelo tempo, pela pressa, pela conveniência. Pessoas foram embora levando culpa, medo e silêncio.
O realismo fantástico começava ali: não havia um assassino de carne e osso. Havia uma cidade cobrando memória. As mortes eram ecos, não atos isolados. Como se São Carlos tivesse criado mãos invisíveis para tocar seus próprios fantasmas.
Antunes escreveu no relatório final algo que jamais seria publicado integralmente:
“Essas mortes não pedem punição. Pedem lembrança. O que mata não é o que acontece, mas o que é enterrado sem nome.”
Naquela noite, o delegado caminhou sozinho pela Dona Alexandrina. As luzes dos postes desenhavam sombras longas no asfalto, como riscos ligando pontos invisíveis. A cidade parecia calma, mas ele sabia: quando a memória é ignorada, ela aprende a gritar de outros jeitos.
Este é um conto, portanto ficção. Obra literária.
