Um amor no supermercado da Cidade Jardim

Um café e uma história

 *Baseado em fatos reais

“Ame como se fosses morrer hoje. Demonstre seu amor hoje, como se você estivesse numa despedida.  Fale com as pessoas de tal modo que elas guardem de você as palavras mais ternas. Não perca a oportunidade de mostrar seu afeto a cada pessoa que cruzar o seu caminho hoje. Não adie o amor, não adie o sorriso, o olhar de candura, a boa palavra, o abraço caloroso, o beijo de ternura, porque ninguém sabe se amanhã reencontraremos essas pessoas.  Um dia sem amor é um dia perdido! E um dia que não volta mais! Somos espíritos imortais, mas a experiência na Terra tem prazo de validade. E ninguém sabe quando esse prazo expira”.

Sêneca

Aos 21 anos, em 1997,  não era fácil ser jovem para Marcelo. Gordinho, de óculos, cheio de dúvidas, ele não tinha namorada, poucos amigos e estava começando uma faculdade. Marcelo era a dúvida em pessoa porque não sentia a verdadeira segurança que é muito necessária para entrar na vida adulta e quase não saía de casa.

Ele estava naquela fase de que nenhuma roupa lhe agradava, calça apertava, camisa subia pela barriga, as espinhas comiam seu rosto. Fazia os regimes, não via resultado, se afogava na comida, admirava as meninas, mas nunca conseguia nada.

Uma das poucas alegrias era passar tardes na casa da avó que ficava na Cidade Jardim. Ali, morava uma senhora sozinha, Dona Lu e vocês sabem como são as avós, não é? Para elas, netos não tem defeitos. Marcelo gostava desse dengo, era bem tratado pela velhinha e tinha autonomia para fazer algumas coisas.

Naquela casa, ele se sentia o homem, saía para fazer as compras, não tinha pressão da neurótica da mãe que todos os dias lhe cobrava resultados de sua vida. Ela sempre lhe perguntava quando ele trabalharia, quando daria lucro e contribuiria para aquela casa. As palavras da mãe em cima de Marcelo eram marteladas que lhe acuavam diariamente.

Fugir para a casa da avó parecia ser normal, uma coisa boa, a sensação do pão fresco e do café passado e a oportunidade de conversar com alguém gentil que sempre lhe dizia que um dia ele seria grande fazia com que seus sonhos escapassem pelo peito e ganhassem as estradas da vida.

Dia desses, Marcelo saiu em mais uma missão para Dona Lu. Foi às compras. Ele gostava muito de ir até o Jaú Serve que fica (até hoje) na região do cemitério. Ali passava um tempo olhando a vida passar e ainda tinha a carta branca para poder comprar alguma coisa que gostasse, pois no coração da avó sempre cabia mais uma guloseima.

Mas aquela terça-feira não parecia ser um dia normal. Ele entrou no mercado e lembrou da missão dada pela avó, comprar um desodorante que ela havia pedido, afinal as vovós sempre querem esse tipo de coisa.

Marcelo entrou decidido na loja, andou um pouco por um corredor, apreciou as pessoas que faziam suas compras, mas quando foi dobrar para chegar no local da perfumaria sua vida começou a mudar.

Foi um topada? Uma trombada, uma topetada, um encontrão, uma batida? Ah, foi tudo isso sim! Ele bateu de frente com uma funcionária da loja. Tudo caiu no chão, as mercadorias que a moça levava se espalharam bonito e ela começou a catar tudo porque precisava voltar para os seus afazeres.

Marcelo era tímido, mas muito educado. Na hora, ajudou-a a recolher as coisas e em dado momento parou e começou a admirar aquela beleza. Cabelos claros, olhos bonitos, sorriso tímido e o jovem, ainda mais tímido, estava encantando. Sentiu sua boca seca, seu coração bater mais forte, ficou apertado no peito e não sabia para onde correr. Apenas continuou ajudando, recolheu tudo, colocou os perfumes na caixa. A jovem timidamente lhe disse obrigado e seguiu seu caminho, mas antes deu uma olhada para trás, o que fez Marcelo sonhar mais um pouco. O mercado deu uma parada, todos pareciam que estavam olhando a cena, mulheres começaram a conversar e neste momento a vergonha do rapaz ficou ainda maior.

Correndo, Marcelo nem levou nada, foi embora para a casa da avó. Explicou para Dona Lu o que havia acontecido e a própria vovó resolveu ir ao mercado para fazer as compras e poupar o neto de entrar no estabelecimento naquele dia.

A semente foi ali plantada. Marcelo sonhou, pensou, se encorajou. Queria voltar no mercado, queria falar, pedir alguma desculpa à moça, dizer que foi sem querer, mas na verdade, ele queria mesmo era puxar papo, falar que havia gostada da jovem, daqueles olhos, que tinha visto a vida, pensado no que poderia ser, naquilo estava porvir. Marcelo queria, porém não tinha coragem, era travado, estava todo suado, só de pensar.

Passaram uns dias, eram as férias de julho, ele estava passando a semana com a sua avó e naquele dia decidiu ir ao mercado comprar bombons para entregar à jovem. Ato de coragem para um travado com autoestima baixa.

Engoliu o medo, foi até o Jaú, entrou, estava decidido. Correu para os doces, comprou uma caixa de bombons finos, passou no caixa e quando foi levar para a moça ficou paralisado. O rosto dela dizia tudo. Vermelho, irado, aqueles olhos tão lindos saindo fogo, ela balbuciava alguma coisa.

Do nada, ela fitou Marcelo e seu semblante não mudou, parecia que queria expulsá-lo do mercado. Sem coragem, juntou a caixa de bombom e desceu até uma praça da Cidade Jardim e comeu tudo compulsivamente.

A segunda tentativa, dois dias depois, seria tentar falar com ela na saída do trabalho. Naquele dia, ele esperou tudo fechar, mas não a viu sair, depois descobriu que ela havia ido embora mais cedo e só imaginou: “Miséria pouca é bobagem!”

O fim de semana chegou e Marcelo foi fazer nova compra para a sua avó. Decidido, era a hora do agora ou nunca. Sabia que a musa dos cabelos claros estava todo o fim de semana no mercado.

Correu e quando entrou foi logo perguntar. “Onde está a jovem da recepção?”.

Adão, o gerente foi gentil e respondeu: “Hoje ela não vem, está com dor de garganta, deve voltar na terça!”

Era o fim, Marcelo entendeu que parecia realmente ser impossível encontrar, conversar, trocar ideias e dar vazão ao seu sonho de leva-la pelo menos no cinema. Desistiu, voltou para a casa  e passou à tarde refletindo sobre sua falta de sorte.

Na segunda, voltou para a universidade que frequentava em Ribeirão Preto e continuou seu curso.

Os anos foram passando, Marcelo amadureceu e percebeu que ser gordo, magro, cheio de espinhas são coisas da vida, se casou e seguiu.

Porém, o mundo que não é plano, mas redondo e também capota lhe presenteou com as redes sociais. Em um desses dias, houve um pedido de amizade e aquilo deixou Marcelo extasiado.

Era ela. Simplesmente ela. Linda, mais velha, mais madura, contudo com o mesmo brilho no olhar. Ele aceitou, ficou engasgado, sem saber de nada, sem responder. Um tempo se passou, as interações gentis começaram e um café saiu.

Naquele dia, o tempo parou, estávamos no início da pandemia de COVID. Foram três horas de conversas, de histórias, de ideias, de vida e olhares. O mundo não tinha limite, nem os sonhos, porque o poeta sempre diz que eles não envelhecem.

Mesmo com comprometimento de ambos houve um beijo, um silêncio, um passado revigorado. Houve o tudo, houve o nada, houve a vida. Afinal,  o amor, ele não tira férias, apenas aparece no momento mais improvável.

Um novo encontro? Ainda não sei, o Marcelo não quis contar o resto da história.

Renato Chimirri

Imagem de Free-Photos por Pixabay