
A chuva fina caiu a noite inteira, sem trovão, sem aviso, como um castigo discreto. Na rua Yawgiro Toyama, no Jardim Paulistano, nem os cães latiam. Quando o delegado Antunes chegou, o frio já havia entrado nos ossos da casa antes mesmo de entrar pela porta.
O ourives estava morto de joelhos, como quem reza. O pescoço fora torcido com precisão antinatural, mas não havia sangue no chão — apenas símbolos desenhados com fuligem e saliva, espalhados em círculo ao redor do corpo. Ouro e prata repousavam intactos nas prateleiras, reluzindo com um brilho opaco, como se tivessem perdido o direito de refletir luz.
— Não é roubo — disse Antunes, a voz engolida pela sala abafada. — É oferenda.
O bandido ritualista deixara marcas por toda parte. Não digitais, mas cortes rasos na madeira, feitos com lâmina cega, insistente. Cada entalhe repetia o mesmo símbolo imperfeito, um círculo quebrado, como se o autor não aceitasse a ideia de fim. O delegado reconheceu o padrão: crimes antigos, espalhados pela periferia, sempre sem furto, sempre com mortos “preparados”.
No fundo da casa, o cheiro piorava. Incenso queimado com gordura humana. Um odor doce, quase infantil, que embrulhava o estômago. Antunes encontrou o altar improvisado: ferramentas de ourives dispostas como instrumentos cirúrgicos, um copo com sangue coagulado, e um anel ainda quente, gravado por dentro com letras invertidas.
O ritualista não era apenas um assassino. Era um devoto.
Na parede, escrito com carvão:
“ELE NÃO ACEITA METAL ROUBADO.”
A chuva bateu mais forte na janela, como se quisesse entrar. Antunes sentiu a presença antes de ouvir os passos. No corredor estreito, alguém respirava com dificuldade, como quem carrega peso demais dentro do peito.
O bandido surgiu lentamente, envolto num casaco encharcado. O rosto coberto por cicatrizes autoimpostas, símbolos cravados na própria carne. Os olhos eram fundos demais, vazios demais, como se algo olhasse de trás deles.
— Ele sabia — disse o ritualista, com a voz arranhada. — Sabia como fechar a porta. Mas tentou negociar.
Antunes apontou a arma, mas a mão tremeu. O chão parecia pulsar. As ferramentas vibravam sozinhas.
— Você matou por isso? — perguntou.
O homem sorriu, mostrando dentes manchados de ferrugem.
— Não matei. Preparei. Quem veio buscar foi outro.
A lâmpada estourou. Por um segundo, o símbolo no chão brilhou em vermelho escuro, vivo. Quando a luz de emergência acendeu, o bandido não estava mais ali. Apenas marcas molhadas levando até o centro do círculo — e parando abruptamente.
Nada foi levado. Nem ouro, nem prata.
Apenas o que o ourives devia.
No relatório, Antunes escreveu “autor desconhecido”. Mas ao lavar as mãos, horas depois, percebeu que o símbolo ainda estava ali, gravado na pele, impossível de apagar.
Na rua Yawgiro Toyama, a chuva cessou.
O inferno, satisfeito, fechou a porta por enquanto.
Este é um conto, portanto ficção, portanto obra de.









