Um Brasil desconfiado

Uso de máscara para proteção contra o novo coronavírus./Ricardo Wolffenbuttel/Governo de SC

Foi notícia, há uns anos. Um moço teve uma doença na face e a cirurgia que o tratou, ao mesmo tempo, o desfigurou, deixou-lhe sem possibilidade de aparecer, conviver, pois, com certeza, seria muito chamativo. Mas havia uma chance para resgatá-lo dessa fatalidade: uma cirurgia plástica. Contudo, caríssima, ele não teria como arcar com o custo. Uma ‘vaquinha’ na internet parecia ser a solução e, realmente, aconteceu. Pronto! Lá vinha o Brasil solidário cooperando, muitas contribuições de pouco valor monetário mas de infinita empatia totalizaram o custo da cirurgia reparadora. Mas… Uma gente de má índole e com pedra no lugar do coração soube do montante e, com violência, sequestrou o moço e somente o liberou depois de ele entregar o dinheiro arrecadado. A mesma rede que o salvou fez propaganda de que o valor tinha sido alcançado, um chamarisco para os bandidos.

Crueldade, pura crueldade, em total contraste com a compaixão.

Infelizmente, o Brasil coleciona casos assim. E, apesar disso, continua solidário, mas com certa desconfiança: ‘Vou ajudar, mas vai chegar onde precisa?’. Outros desistem: ‘Não vou ajudar, não, com certeza vai ficar pelo caminho, vão desviar…’. E outros doam, independente de chegar ou não à finalidade, pois ficam contentes em saber que estão fazendo a sua parte. Daí, chegam outras pessoas e se apoderam, surrupiam, o que não lhes pertence, sem se importarem se o que fazem prejudica outros. De novo, a crueldade versus empatia.

Esse fato ilustra a impossibilidade de se afirmar que o brasileiro é bom ou de se afirmar que ele é mau, pois isso seria uma generalização, em que não cabem indivíduos com suas peculiaridades, mas antes uma massa uniforme. E como afirmava nosso bom e cáustico Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.

E eis a pandemia. A máscara. O álcool em gel. A lavagem das mãos. O distanciamento social. A vacina. Vamos por partes, pois a situação é complexa.

Primeiro, não é uma ‘gripezinha’. Se antes acometia gravemente os de mais idade, agora acomete todos, não importando se a pessoa é jovem ou se tem um passado de atleta, por exemplo. A informação é muito importante e deve ser ampla, séria, objetiva. Os estudiosos valem-se do vasto conhecimento acumulado e da pesquisa do novo quadro que se apresenta, para esclarecer e mostrar caminhos. Há base científica na informação séria e não cabem achismos. Daí, as fake news surgem e se espalham feito rastilho de pólvora, num grande desserviço. Muita gente imbuída, preocupada em informar, contribuir, e outras tantas gentes (?) boicotando, promovendo passos atrás no combate a essa doença tão séria. Pensemos que há um Brasil que nega a ciência e que – é preciso tomar cuidado! – pode-se cair num mar de monstros logo ali, após a Terra, que é tão linda, esférica e azul, tornar-se espantosamente plana.

Então, vêm as atitudes simples, como o uso da máscara. E a máscara vem acompanhada de polêmicas totalmente desnecessárias. É simples: a barreira contra o vírus é física. Mas há notícias de que não protege, que é tudo besteira. Tudo bem, acredite-se no que quiser, mas, céticos, usem a máscara, pois quem acredita e se protege não pode ficar à mercê de seus achismos. Ou seja: quem não estiver convencido da proteção que a máscara – ainda bem! – oferece, não tem o direito de expor os outros, de lançar seus perdigotos, contaminando o entorno. Uma propaganda mostra o desconforto mínimo do uso da máscara comparado ao real desconforto causado pelos instrumentos necessários a uma intubação, um procedimento hospitalar invasivo e muito delicado. Concluam. E pensemos que há um Brasil que nega a realidade, que faz pouco dos depoimentos de médicos e enfermeiros clamando, implorando, por sensatez.

A lavagem das mãos. Simples assim. Mas não tão simples para muitos.  Há domicílios que não têm água encanada. Muitos resolveram instalar pias comunitárias ou em praças. É paliativo? Sim, mas apresenta-se como uma resolução pontual e necessária.

O distanciamento social. Funciona, pois o vírus se vale do contato físico, dos aerossóis que são ejetados. Aglomerações favorecem a contaminação das coisas e o contágio é praticamente certo. Contudo, temos de lidar com a realidade. Muitos não podem permanecer em casa, pois ganham para dar de comer à família naquele mesmo dia. Ou têm de enfrentar o transporte público, com ônibus ou trens superlotados, mais do que propícios para se infectarem. Mas, um instante: há os que se aglomeram para festejar não sei o quê, em batidões, com muita bebida e sem uso de máscaras. Contágio quase certo, levando o vírus para quem se resguarda. Como é que é?! De novo: egoísmo versus empatia.

Foi necessário o ‘colchão’ financeiro, um repasse de dinheiro que permitisse às pessoas permanecer em casa. Casa? Muitos moram em espaços que não podem ser chamados de casa, pois são muitas vezes um ou dois cômodos que mal acomodam famílias numerosas. Se já havia uma história de violência, esta se acirrou e há notícias estarrecedoras de violência contra mulheres e crianças. A situação é tão delicada, no limite, que se escancarou o papel protetor da escola para as crianças e os adolescentes. Na escola, além da função maior de ensinar/aprender, há a segurança alimentar e a segurança contra a violência da rua e da própria casa.

Nos tempos pandêmicos, aflorou um país dentro de outro. Até então invisíveis, muitos brasileiros foram notados e o Brasil conheceu-lhe a cara. Sim, a miséria tem uma face. No começo, muitas doações que se transformam em cestas básicas de alimentos. Mas coloquem-se também artigos de limpeza: o sabão básico, o desinfetante, a água sanitária… E artigos de cuidado, como o sabonete que limpa e perfuma, o xampu que limpa e trata, a fralda, pois estes não são supérfluos, têm a ver com a autoestima, com o cuidado mínimo. O país estourou em solidariedade, com galpões cheios de mantimentos e outros artigos prontos para serem organizados, ensacados e, humanamente, divididos.

A pandemia já tem um ano e meio, praticamente. As doações vêm diminuindo e apela-se para que quem tiver o que doar, o faça, pois os galpões já não estão tão cheios, como no princípio. Por que as doações diminuíram? A carestia do outro já não comove e, assim, não move? Ou quem doava também passa por dificuldade? Ou, mais provavelmente, a carência aumentou, há mais necessitados, já que o auxílio emergencial aconteceu, inexistiu por meses e volta agora com valor parco. Há de se ver por onde a doação sobrepor-se à demanda que se avoluma.

Há um Brasil que se acostumou a não ver outros também brasileiros, banalizou-se a miséria. Essa marginalização é histórica, encoberta, mas agora há uma grita. Esperar que o poder público passe a agir é bem temerário, pois essa ação pode acontecer em passos muito lentos. Então, ouçamos os pedidos das associações que, há muito, surgidas nas próprias comunidades, cuidam das famílias em situação dificílima. Esses agentes, vindos do seio das comunidades, sabem de cada família, daquela mãe que cuida sozinha dos filhos, daquela casa onde vive a pessoa com deficiência e está desassistida. E procuremos, quem puder e quiser, ajudar os que estão próximos, vamos olhar para as pessoas dos bairros mais vulneráveis de nossa cidade. Como disse sabiamente o irmão do Henfil, o Betinho, a fome tem pressa.

E, finalmente, neste escrito, a vacina. A pesquisadora Natalia Pasternak tem esclarecido muitas dúvidas e é dela esta frase: ‘A vacina é vítima de seu sucesso.’ Explicando: houve campanhas exitosas de vacinação contra o sarampo, a poliomielite, a meningite, entre outras doenças. E foram tão eficientes, acontecendo ano a ano, que se alcançou a imunidade coletiva. Assim, esses vírus deixaram de ser transmitidos e a poliomielite, por exemplo, foi erradicada. E as pessoas se acostumaram com a inexistência das doenças, sem perceberem que é a vacinação periódica que garante essa situação. De repente, voltam, por exemplo, surtos de sarampo e meningite, e é preciso explicar – de novo − que são doenças sérias, que podem matar ou deixar sequelas. Chamamento para vacinar!

A vacinação contra a Covid-19. Como tudo, nessa pandemia, o Brasil não teve a sabedoria de aprender com o que acontecia nos outros países. Talvez, mais do que não aprender, tenha sido mais fatal não ter sabido escutar os nossos técnicos com vasta − e até invejada − experiência na vacinação. O Brasil sabe vacinar, sabe fazer chegar a vacina por todos os rincões, graças à universalidade e à capilaridade do nosso SUS. Mas precisa ter a vacina em si. Era preciso ter fechado contratos lá trás para garantir a vacina. Vacinados, os casos não se agravam a ponto de colapsar o sistema hospitalar. O colapso lembra uma cascata de demandas que são quase impossíveis de se atender. É preciso oxigênio. É preciso um conjunto de medicamentos para intubação e para manter o paciente sedado. Os extremos do colapso: escolher quem vai seguir o tratamento e quem vai morrer, e intubar um paciente sem sedação, amarrando-o para que, num instinto, não tente retirar o tubo. Mal dá para imaginar essas situações, mas estão ocorrendo.

Voltemos ao nosso mote: há brasileiros e brasileiros. Na vacinação, há técnicos que enfrentam as maiores barreiras para fazer chegar a vacina a todos, nas cidades, nos bairros, naquela comunidade distante, aos indígenas, aos quilombolas. Mas há os que fingem vacinar e desviam as doses. Como assim? Daí, a ordem é registrar o ato da vacinação, porque há desconfiança. Como se sentem os técnicos honestos e imbuídos, com essa exigência?

Sonhemos com um país em que possamos confiar no outro. Um país em que não seja preciso provar inocência. Um país que não queira levar vantagem a qualquer preço. Um Brasil não desconfiado de si mesmo.

Zelinda Martins, 56 anos, Odontóloga não atuante, Mestre em Língua Portuguesa e Revisora de textos em Português. Observadora do mundo.