Um conto de amor no Dia dos Namorados

O amor está no ar/Foto: Pixabay

*Essa é uma obra de ficção

Dizem que o amor tem mais anos que os de fundação da Universidade de Salamanca (que nasceu em 1218) na Espanha. O amor não tem muita idade, não escolhe cor, nem por onde vai soprar, ele é como o vento que chega de um lugar bem distante e invade um local que antes estava vazio. O vento é barulhento e derruba tudo e o amor pode ser silencioso, mas mexe com qualquer coisa que esteja viva.

É isso! O amor é vida e a vida é amor. Assim, um professor sozinho se apaixonou, depois de um tempo, por sua aluna que todos os dias estava em suas aulas. Ele se esmerava a noite toda para preparar as palestras que seriam dadas no outro dia quando iria encarar a sua turma e nem tinha ainda percebido que aqueles olhos negros lhe fitavam todo dia, toda hora, todo instante. Ele não entendia que quando entrava na sala de aula que o seu respirar era metodicamente sincronizado com o da sua admiradora.

Ele parava num mundo que era só seu durante as aulas que ministrava quase que diariamente para aquela turma, falando das teorias de direito, das revoluções da história, do passado construído a sangue, suor e guerras da humanidade, mas não conseguia enxergar um palmo diante do seu próprio nariz e notar que suas palavras muitas vezes soavam como uma verdadeira sinfonia para aquela que mais lhe admirava diariamente.

Quando ele vinha pelos corredores floridos da universidade seu paletó surrado marrom contrastava com seus poucos cabelos e aquela menina ficava encantada ao ver aquele homem gordinho tímido, mas de passos firmes ingressando pela nave central do prédio para mais uma aula.

Ela suspirava, imaginava, pensava e queria de alguma forma se expor. Queria lhe falar num seminário, mas só conseguia conversar com seu desejado de maneira acadêmica, ou seja, nas atividades, ele não ligava muito, não dava bola, não dava olhares, vivia concentrado nos seus livros, no café que pegava no barzinho da universidade antes de começar suas aulas.

Todos os dias, depois das intermináveis lições do professor, ela saía leve, pensativa, parava no meio do campo florido e simplesmente ficava imaginando aquele homem chegando para um simples bate-papo embaixo da árvore. Seus pensamentos não eram muitos, ela ainda queria apenas conhece-lo melhor, sentir se sua mão era macia como a sua fala, se suas palavras eram tão doces quanto à correção e as mensagens de incentivo deixadas em cada prova.

Certa vez, ela deixou seu suéter cair perto do professor, ele simplesmente pegou rapidamente a blusa e lhe devolveu educadamente. Sabe quando ocorre aquele toque ligeiro entre mãos? Pois é, foi aquilo que a deixou ainda mais encantada pelo seu professor,  mas não foi nada, apenas um teco.

A aluna o olhava com aquele respeito, mas também o amava de maneira sublime, entretanto não sabia como chegar, nem falar, tinha apenas a noção de que o professor era solteiro, ocupado com seus estudos e uma pessoa comum que usava transporte público e que às sextas-feiras tomava um vinho no boteco português que ficava perto da universidade. Neste bar ele ouvia jazz e outras músicas para distrair a cabeça, porém quase sempre ia embora depois da meia-noite.

Descobrindo isso, lá foi ela para o bar, no caminho olhou o céu e viu que existiam nuvens carregadas. Depois de cinco minutos despencou uma pancada, o trânsito da cidade parou, só para chegar da sua casa no bar foram mais de 45 minutos, de um trajeto que a pé não demoraria mais de meia-hora se cortasse caminho, entretanto não ousou arriscar com medo do tempo.

Quando chegou viu que a mesa do professor estava vazia, solitária, com apenas o vasinho de flor habitual e com aquela toalha em tom dégradé do bar que estava mais surrada que qualquer outra coisa.

Não teve dúvidas, foi até o barman e perguntou sobre o professor, levou um soco na cara. O indiano que trabalhava no local contou que o professor ao ver que a chuva se aproximava pediu para embrulhar seu prato para viagem e foi embora mais cedo.

Ela ruiva, pernas bonitas, cabelo arrumado, olhos negros, toda produzida para tentar falar com o homem que admirava, apenas teve o tempo de sentar e sussurrar bem fundo pelo azar que o tempo lhe havia conferido naquela noite que estava passando.

Pediu um vinho, a garrafa inteira e a levou para a casa onde ficou vendo uma maratona de Netflix escolhendo os títulos que mais lhe agradariam. Rodou, rodou e rodou e achou um documentário sobre a Revolução Francesa, tema que o professor trabalhava naquela semana em sala de aula.

Assistiu a tudo e se preparou, dormindo copiosamente na frente do computador, deixou a garrafa de vinho do lado da cama e sem saber muito bem o que havia feito acordou no outro dia com a hora perdida para ir à faculdade.

Se trocou e ficou linda, mas com cara de amanhecida. Andou e sabia que não iria chegar na hora, quando viu que suas pernas não lhe permitiriam tal feito notou que um carrinho pequeno encostou.

Abriu a porta achando que fosse um amigo aluno, contudo para sua surpresa o coração disparou ali mesmo. Era o professor lhe oferecendo uma carona, pois havia notado que ela estava atrasada.

Não sabia se era sorte ou azar, mas entrou no carro, não conseguia falar muito, apenas lamentou que naquele dia não teria aula com seu amado mestre, apenas o veria na carona. O professor disse que havia ficado muito contente em poder lhe oferecer uma carona e que havia apreciado seus últimos escritos dos trabalhos dados.

Ela nem sabia o que dizer, apenas queria agradecer a gentileza e tinha mais um motivo para ficar “grilada”, pois não sabia se o professor estava sendo amável ou então se falava sério. A carona terminou no campus com um gentil muito obrigado e o professor lhe dizendo que qualquer hora poderiam marcar um café com os alunos, mas ela queria o encontro fosse entre os dois apenas.

Num dia de muito frio, os dois caminharam e seguiram seus destinos. Ele foi para a aula na primeira turma, ela entrou no lugar onde a esperavam para uma avaliação.

O semestre foi passando, faltavam poucos para terminar aquela parte do ano. Então, quando já estava indo embora da universidade, ela andou por todo o campus e estava decidida a encontrar e intimar o professor para um café, jantar, almoço, encontro ou qualquer coisa do tipo, mas ficou sabendo que ele havia se deslocado para a Inglaterra onde participaria de uma mesa redonda sobre feudalismo e proferiria uma palestra.

Naquela semana fechou a conta no prédio onde morava, despachou suas coisas e apenas levou consigo um livro que havia ganho num sorteio na aula do seu amado professor. Não o havia aberto ainda, afinal as coisas andavam muito corridas, ele estava embrulhado num papel feio, típico de quem não entende nada de presentes.

Quando entrou no avião para seguir seu destino, resolveu abrir o pacote e nele tinha um telefone com uma frase simples: me ligue, porque você é brilhante!

Suas pernas tremeram, seu rosto esquentou, seus olhos encheram de lágrimas, era o amor que havia chegado, meio tarde é verdade, mas por culpa dela mesma que não havia aberto o pacote, em sua vida na Espanha.

Neste instante o avião decolou para mais um voo solo com destino a Munique, na Alemanha.

O professor desembarcou em Salamanca naquele mesmo dia, foi até a casa da aluna, mas quando chegou ficou sabendo que ela havia voltado para a Alemanha e que seu intercâmbio havia terminado.

Balançou a cabeça e apenas pensou que não tinha dado sorte, porque não se deve prestar muita atenção em alunas, afinal isso pode lhe gerar problemas.

Em Munique, ao chegar no seu quarto, ela começou a preparar a papelada para voltar à Salamanca.

Dessa vez iria direto no gabinete do professor. Será que ela conseguirá encontra-lo antes de seu pós-doutorado na Inglaterra? Se amor quiser, sim…

 

Texto de MA.