Um Lobisomem na Vila Monteiro

Mistérios da Meia-Noite

*ESSA É UMA OBRA DE FICÇÃO

 

Saiu da missa na igreja São José eram por volta das 20h30, fazia um frio desgraçado naquela noite. As árvores em volta do Parquinho da Vila Monteiro assobiavam, o céu estava vermelho e uma garoa fina caía rapidamente numa noite típica de inverno são-carlense.

Não sabia se iria passar pela pizzaria ou então se seguiria direto para a casa e pediria uma comida via iFood. Então se despediu de duas senhoras e resolveu caminhar, estava encapotado, com um gorro, cachecol, além da blusa emborrachada que havia comprado quando esteve na Argentina no passado.

Andou o primeiro quarteirão em direção à escola Arlindo Bittencourt, passou em frente da pizzaria, mas desistiu da compra, queria chegar logo em casa. Desceu pela Campos Salles na quebrada da escola, deu alguns passos e avistou alguém na esquina. Olhou com desconfiança, afinal quem estaria na rua naquela hora da noite?

Resolveu se aproximar devagar, andou quase que sem fazer barulho e notou que um gari estava na esquina da José Rodrigues Sampaio, ainda perto da escola. O susto foi pequeno, mas como morava do outro lado do rio, ainda tinha que descer um bom pedaço, era frequentador da paróquia São Judas Tadeu, mas naquela noite resolveu ir na igreja São José, pois se tratava da missa de aniversário de uma querida amiga de escola que era moradora da Vila Marcelino.

O tempo atrapalhava muito sua caminhada, porém o azar era tanto que sua moto justamente nessa semana de frio havia sido “internada” na oficina e com isso não podia contar com o deslocamento rápido, já que para  ônibus a região era fora de mão.

Foi andando, apertando o passo como podia e num instante já estava na rua Sorbone, perto do Fórum. A penumbra da iluminação falha e também o tempo de frio deixaram o lugar deserto e o seu medo de ser assaltado era grande, mas infelizmente esse era o caminho.

Quando estava descendo quase em frente do Fórum começou a ouvir barulhos no meio do matagal. Era como se algum cavalo estivesse se mexendo, depois os barulhos se intensificaram e ao fixar o olhar passou a observar que alguma coisa estava pulando, como se tivesse uma mancha escura ou alguma criatura  “se exercitando” no meio do mato.

Atônito, parou e observou aquilo, num piscar de olhos o frio que sentia passou e o calor tomou conta do seu corpo, talvez fosse a adrenalina ou o medo que aquela visão estava lhe causando num momento em que estava sozinho na rua.

Deu três passos e foi até a beiradinha da calçada para ver se conseguia observar com exatidão o que estava se mexendo no meio do matagal, atrás da sede da associação de engenheiros e arquitetos. Não sabia de onde vinha tanta coragem, mesmo assim a curiosidade era muito maior.

Resolveu dar uns passos em direção ao mato, quando estava já no matagal a criatura pulou sobre ele. Sabe quando você tem aquela sensação que algo passou por cima de você e parou bem atrás, nas suas costas? Exatamente, foi isso que aconteceu. Ele escutou apenas os pés se fixarem no chão, pois ainda não havia tido a robusta coragem de se virar e ver o que tinha que encarar.

E, agora? Não tinha jeito, precisava se virar, olhar para trás e ver o que o destino lhe reservava. Engoliu seco e virou.

Arregalou os olhos, ficou com as pernas bambas e nem sabe se fez um xixi amigo, mas simplesmente não acreditava no que via. Estava diante de um cão, lobo ou alguma criatura peluda, com pelos negros, olhos vermelhos que saíam fogo e da boca que mostrava dentes enormes escorria uma baba assustadora.

A criatura olhou para ele, o rodeou, bufou bastante e ficou na posição de ataque. Foi neste momento que o rapaz teve a ideia de juntar um pedaço de caibro que estava no chão. Rapidamente, ele pegou o porrete e a criatura avançou, quando o bicho veio para cima, o jovem lhe desferiu o golpe e o atordoou.

Isso lhe permitiu correr para o meio do matagal no terreno do Facchina, corria como doido, mas levou alguns tombos, rasgou a calça, a blusa e até feriu suas mãos e joelhos. Cansou muito, mas quando estava quase do outro lado, quem estava lá?

Ela mesmo, a criatura. Ele queria saber como que o bicho, praticamente num passe de mágica, e depois de levar uma pancada gigantesca, conseguiu correr mais que ele e chegar do outro lado da rua na Rafael de Abreu Sampaio Vidal em frente as torres gêmeas e que hoje são chamadas de condomínio Aurora Gardens. “Como isso era possível?”, pensou e se questionou.

A criatura estava parada, seus olhos de fogo e seu babo eram constantes, porém agora existia uma espécie de rosno que veio lhe acompanhar e dar ainda mais medo no garoto que achava que não iria escapar de ser mordido, esquartejado e devorado.

O que fazer? Juntou pedras nas mãos, atirou no bicho, ele desviou de todas. Lembrou que tinha um isqueiro dentro do bolso e fez fogo com a própria blusa, apesar do frio e partiu para cima do cão gigante. A criatura desviou e começou a rodeá-lo rapidamente. Numa bobeada o cão lhe atacou, mas não o mordeu, deu uma cabeçada em seu peito e o jogou no chão com uma força absurda.

O jovem ficou estatelado no solo coberto de barro vendo a chuva que havia ficado ainda mais fina, porém constante, lhe limpar a face. Por um instante, achou que o bicho havia ido embora, se sentou, mas quando olhou para o lado, lá estava a criatura novamente e desta vez arrastando um dos pés no chão.

O bicho partiu novamente para cima do rapaz que reuniu forças para correr e trepar numa árvore. Ele havia perdido o celular no meio do mato, gritava mas ninguém ouvia, estava à mercê da vontade do lobo gigante que tinha cara de lobisomem.  A criatura viu que ele estava na copa da árvore ficou lá embaixo apenas sentada, esperando que ele descesse e assim ela poderia completar o seu banquete talvez com um pedaço de víscera ou coração.

Foi neste momento que vindo lá de cima da rua José Rodrigues Sampaio surgiu um disparo. Ele só ouviu o barulho e pensou: “Tiros? Era só o que me faltava!”

A bala morreu perto da criatura e acertou o tronco da árvore. O bicho saiu correndo e embrenhou novamente no mato. Alguns minutos depois chegou um carroceiro que parou ali e ajudou o jovem a descer da árvore. “Você foi mais uma vítima do lobisomem da Vila Monteiro?”

Ele nem sabia o que dizer, apenas perguntou se havia sido o homem que tinha disparado a arma que tinha espantado a criatura. O homem negro fez que sim com a cabeça e explicou: “Essa é uma bala de prata, só usamos para matar os lobisomens ou então assustá-los quando aparecem por aqui, hoje eu estava presente para poder lhe salvar, foi seu dia de sorte, as vezes não estou aqui, mas em outro lugar!”

Assustado, Marcos, o jovem atacado pelo lobisomem quis saber se outras pessoas haviam sido vítimas do bicho e o carroceiro respondeu: “Ele sente o medo no cheiro do sangue e gostou do seu, ele aparece de vez em quando, ataca pessoas, pegou várias aqui, outras foram salvas, antes mesmo de existir esse bairro, essa avenida chamada de Marginal, ninguém liga para essas lendas, mas eu se fosse você iria estudá-las”.

O carroceiro ajudou Marcos e ainda lhe encontrou o celular perdido que, na verdade, caiu de seu bolso quando ele subiu na árvore. A vítima do lobo pediu um UBER para poder ir para a sua casa. Enquanto pedia, se desligou por um momento, e ao se virar o carroceiro não estava mais ali. No chão havia apenas uma bala que parecia ser de prata e as marcas da carroça que havia ido embora.

Marcos esperou por uns dez minutos, o carro chegou e quando estavam cortando a marginal ele olhou para trás e viu novamente, de longe, os olhos vermelhos em cima de um barranco do terreno.

Resolveu que nunca mais sairia à noite sozinho e passaria por aquele local.