Um vírus, duas realidades: Brasil e Taiwan

Eu sou C.L., taiwanesa, imigrante no Brasil e moro na cidade de São Carlos há 25 anos. Um ano após o primeiro caso de Covid-19 no Brasil, neste exato momento, eu me deparei com duas realidades tão distintas e chocantes que decidi compartilhar esse pequeno texto com todos. (Taiwan é uma pequena ilha localizada na costa sudeste da China, onde estão os maiores tesouros da cultura chinesa, e se destacou nesse último ano no cenário internacional pelo seu excelente trabalho de conter a propagação do vírus). De um lado observo e sinto o sufoco que estamos passando aqui no Brasil e por outro, fico feliz pelas pessoas da minha terra natal vivendo como se não existisse pandemia no mundo, todos seguros e trabalhando normalmente.

A ideia desse texto não é comparar quem é melhor ou pior, é apenas compartilhar uma humilde visão sobre como o povo taiwanês enxerga sua relação com o vírus. Na cultura chinesa, o povo sempre acreditou no conceito de sintonia entre a natureza e o homem, em outras palavras, para adquirir prosperidade na vida, todos os fenômenos fisiológicos, sociais, políticos devem estar em harmonia com a natureza. Então, os infortúnios somente acontecem quando o homem está desalinhado com a natureza, seja pela sua mentalidade quanto pelas suas ações com relação ao seu próximo ou ao meio-ambiente. Baseado nesse mesmo conceito, para transformar o infortúnio, deve-se iniciar pela transformação do próprio indivíduo.

Embora pareça um conceito um tanto abstrato e misterioso para povo ocidental, na verdade é bem simples: “Ninguém está separado de ninguém, somos todos um só”. O primeiro caso de Covid-19 em Taiwan foi de uma empresária que retornou para lá da cidade Wuhan na China, na véspera de Ano Novo Chinês. Antes dela embarcar no avião, comunicou aos comissários sobre alguns de seus sintomas de “gripe”, mesmo não tendo certeza se era mesmo o novo coronavírus. Fez isso com a intenção de não colocar outros passageiros em risco e caso necessário já ficar de prontidão para ir ao hospital, conforme as orientações das autoridades e especialistas taiwanesas.

Graças à sua simples atitude empática ao seu próximo, todos os outros passageiros e os comissários voltaram ilesos para Taiwan. Depois dos devidos tratamentos, a moça se recuperou e ainda escreveu uma carta de gratidão a toda equipe dos profissionais de saúde, pedindo desculpas para a sociedade por ter causado transtorno e preocupação a todos. Ela finalizou a carta dizendo: sou muito grata por tudo, quanto menos reclamamos, maior alegria vamos sentir, tenham fé, tudo vai melhorar, obrigada mesmo a todos!

Voltando então à pergunta inicial, como um povo, retrato da cultura milenar chinesa enxerga o vírus? Em minha humilde observação, o vírus não foi politizado ou sequer negligenciado em nenhum momento no contexto, muito pelo contrário, o vírus foi respeitado e tratado com atenção especial. Então, a solução mais prática para amenizar seus efeitos era adotar ações prudentes e empáticas ao próximo, afinal, ninguém está separado de ninguém, somos todos um, e pelo jeito deu muito certo ali. Após 8 meses sem nenhum caso de transmissão local, hoje Taiwan recebeu o seu primeiro caso da variante do coronavírus de Manaus de uma família que voltou do Brasil, e claro, com muito carinho e cuidado!

C.L. Profa de Mandarim – Han.Yu Idiomas