Uma amiga de outro mundo no Cemitério Nossa Senhora do Carmo

Surgiu uma nova amizade

Estava pregado em cima de uma lápide do cemitério Nossa Senhora do Carmo. Dormiu ali a noite toda, sentia frio, o vento lhe comia vivo, mesmo estando perto de tantos mortos. Não sabia de onde vinha tanta dor de cabeça. Saiu correndo depois de notar uma presença estranha dentro do cemitério, só depois de um certo tempo viu que era um gatinho cinza que estava andando entre os túmulos e que se assustou quando enxergou um ser vivo por ali. Ele pensou que o gato fosse uma alma penada, mas a combinação era interessante: cemitério, gatos, sobrenatural e gente morta.

Conseguiu levantar e pulou o muro, começou a caminhar na Salgado Filho em direção da avenida São Carlos, viu um bêbado deitado na calçada quase na esquina com a avenida. Resolveu passar batido porque queria ir para a sua casa, aquela noite de bebedeira tinha terminado no cemitério mais uma vez, ele não aceitava, tentava, mas não conseguia.

Atravessou a avenida São Carlos e quase foi atropelado por uma motocicleta, era um entregador que fazia seu trabalho naquela madrugada gelada e quase não viu aquele homem com uma camisa de cor escura atravessando a rua. Depois de “desviar da moto” chegou ao ponto de ônibus. Sentou por uns minutos, respirou, respirou mais fundo, parecia que o ar não chegava, dava a impressão que não conseguiria. Ele continuava ouvindo aquelas vozes que estavam na sua cabeça desde a fatídica noite de 29 de maio de 2019.

O começo

Era agrônomo, tinha emprego, vida estável, a sociedade lhe reconhecia. Era casado com Bela, amada, amante, ser humano incomparável, vida iluminada. Ela o tirou da ruína, do desespero, dos pensamentos suicidas, das vezes em que se acabava na bebida. Aliás, o conheceu por causa disso.

Um acidente de carro na Carlos Botelho com a Episcopal, ela vinha pela preferencial com semáforo aberto e ele atravessou com seu carro. A pancada foi inevitável, os carros se destruíram. Ele ficou desmaiado, no dela o dano foi menor.

Rapidamente, Bela desceu e acionou o Samu. Os socorristas levaram o rapaz para a Santa Casa, a jovem não precisou de atendimento, foi para a casa, mas pegou o cartão do engenheiro.  Naquela noite não dormiu direito, se sentia sufocada pelos pensamentos, não parava um minuto de rememorar o acidente, fechava os olhos e ouvia o barulho da freada, sentia os vidros batendo em seus braços, o carro rodando, as buzinadas e o medo, muito medo!

Bela dormiu um pouco somente depois de um calmante, mas pulou cedo da cama e foi ao hospital. Chegou e ainda encontrou o chefe do plantão que disse que o seu “algoz” estava na UTI, mas por observação, pois tinha apenas quebrado a perna, porém apresentou um quadro de arritmia cardíaca. Ela descobriu que a família do internado era de Fortaleza e que em São Carlos não havia ninguém.

O homem estava sedado, passou um dia, ele acordou e Bela fez questão de vê-lo. Na cama do hospital nasceu um sentimento, cresceu um carinho. Ele nunca tinha pensado que uma atitude educada poderia mudar sua vida.

Um pouco melhor, conversou, cumpriu sua obrigação de pagar o conserto do carro de Bela e depois a chamou para um café. Os “tramites” do amor foram aparecendo, jantaram, namoraram, casaram, assim foi uma paixão arrebatadora.

Depois

Foram morar na Cidade Jardim, perto da UFSCar, onde Bela ingressou no mestrado em Educação e ao lado do seu escritório de engenharia. Vida calma, mar de rosas. Caminhadas na Marginal, jantar em bons restaurantes, viagens para Campos do Jordão, Monte Verde, ao nordeste para conhecer a família do marido. Uma vida boa de um casal estabilizado.

Mas num dia de janeiro de 2019 a situação mudou. Bela sentiu dores, precisou ser atendida na universidade. Foi levada ao hospital, primeiro acharam que era uma apendicite, exames de imagens revelaram outra coisa: uma mancha escura, o prognóstico não era bom.

O médico que a examinou pediu exames mais detalhados e deu a triste notícia: câncer no pâncreas.

Ao 32, Bela recebeu um baque, chorou muito e ficou nos braços do marido. A vida mudou, a busca por atendimento, pela mudança de vida, a quimioterapia, porém o prognóstico nunca foi dos melhores. Mas Bela vivia…e tentava…

Em 29 de maio de 2019, às 00h05, Bela faleceu, não suportou. O mundo do agrônomo despencou, perdeu a vida assim como a ganhou em segundos depois de um acidente de trânsito.

O sepultamento se deu em São Carlos, um dia muito triste, a família toda reunida e contando histórias, relembrando da vida. Tudo acabou e ele foi para a sua casa, mas naquele lugar o espaço lembrava dela, as fotos, o cheiro, as roupas, a vida, a arrumação. Ele entrou em colapso no mesmo dia do enterro. Passou a beber e andar pelas ruas sem eira e nem beira.

Largou o emprego, não se vestia bem, a depressão era profunda e toda noite passava pelo cemitério, pulava o muro e deitava em cima da lápide de amada que havia falecido há pouco mais de um ano.

 

Chegando

Novamente no ponto de ônibus, as vozes o levaram a levantar. Resolveu que desceria para a sua casa que era na Alameda dos Heliotrópios. Foi caminhando, passou pela loja do Miguel, continuou andando e ouviu um barulho diferente. Quando fixou seus olhos era o gatinho  que estava anteriormente no cemitério.

O gatinho começou a ronronar perto dele e passou a acompanha-lo. Ele resolveu descer para a sua casa e o gato junto. Quando abriu o portão, o bichano entrou. Há tempos não se importava com nada, mesmo assim colocou o gato para dentro, lembrou que tinha um pouco de ração que era do gatinho de sua sogra e por isso alimentou o felino que comeu avidamente.

Ainda estava desalmado, tinha bebido muito e a ressaca o comia, foi tomar um banho, demorou pelo menos uns 45 minutos na água e quando voltou não viu mais o gato. O procurou por toda a casa e deixou por último o seu quarto.

Não entrava ali desde o falecimento da esposa, mas precisou, pois  era o último local onde poderia estar o gato.

No quarto, acendeu a luz, sentiu o cheiro, o espírito dela, sua alma, aquele luz que a rodeava, mas ao mesmo tempo veio a tristeza. Ela não estava mais ali, havia partido para a sua derradeira jornada.

Mas e o gato? O gato estava ali, em cima de um criado mudo, deitado, olhando, parecendo apontar. Ele se aproximou e tentou pegá-lo, mas tomou um arranhão no braço. Ele passou a miar, miar e miar como se estivesse dando um recado.

O que queria dizer o gato? O miado era uma fala que ele entendia, contudo parece que o animal pedia para ele abrir a gaveta. Tudo no quarto, inclusive a gaveta, estava do jeito que Bela havia deixado, iria ele profanar seu santuário particular?

Reuniu coragem e fez: abriu o criado-mudo  e achou o antigo celular de Bela. Em princípio ficou com medo de liga-lo, mas viu o carregador na mesma gaveta e então quis colocá-lo na tomada.

O celular ressuscitou, ele passou a mexer no aparelho e acabou abrindo o e-mail de Bela. Ali, viu uma mensagem não enviada e quando foi checar, era um áudio para ele. Mas, por que não mandar pelo WhatsApp? Por que pelo e-mail? Talvez Bela quisesse que ele demorasse para ver o arquivo.

Começou a tremer, resolveu abri-lo e começou a ouvi-lo: “Meu amor, quando você estiver ouvindo esse áudio, que fiz questão de mandar por e-mail e não por WhatsApp, provavelmente eu já terei partido dessa vida, as dores são grandes, estou no derradeiro dia. Queria dizer que compartilhar momentos com você foram as melhores facetas de minha vida, a batida de carro que nos levou ao casamento não foi um acidente, foi o destino, contigo encontrei a paz e realizei um sonho de viver uma vida de amor e de tranquilidade, não me arrependo de nada, nem de estar doente, pois sei que vivi o melhor e da maneira mais intensa que pude, mas eu estou preocupada com você, mesmo antes de partir para a minha jornada final, porque sei que não aceitará o que está por vir, sei que não quer a nossa separação, mas ela chegará e será inevitável, peço que você tenha força, que viva da melhor maneira que puder, que encontre alguém que cuide de você, porque aqui eu não poderei mais, não se desespere, nasça sempre com as manhãs, você tem que ser forte, você precisa acreditar, viva, eternize nossos bons momentos, mas siga seu caminho, te amarei eternamente!”

Depois de ouvir, ele deitou na cama, se sentiu acolhido, com o celular na mão veio um sono que não chegava há um ano. Adormeceu lindamente, enquanto o gatinho ali o olhava. Sonhou com um campo florido.

Acordou pela manhã, sentiu um frescor na vida e saiu para uma caminhada, aquilo que era frequente, porém tinha se tornando tão raro. Mas o gato não estava mais na casa, o procurou e viu que uma janela estava aberta.

Foi ao cemitério, durante o dia, correu até o túmulo de Bela. Ali, quando chegou, encontrou o gato, deitado em cima da lápide. Parou, se emocionou, chorou, e depois de ouvir o áudio novamente sentiu uma sensação de alívio. O gato voltou a lhe acompanhar e pouco tempo depois ele descobriu que o gatinho era uma gatinha e ganhou o nome que todos já sabiam: Bela.

A vida mudou e aos poucos parecia entrar nos eixos. O sentimento ainda era profundo, mas havia a esperança de uma grande retomada. A gatinha se transformou em sua inseparável companhia, resta saber se ela ganharia uma nova tutora.

 

Renato Chimirri

Imagem de ClaudiaWollesen por Pixabay