Uma mãe nunca deve enterrar seu próprio filho

 

Hoje de manhã fui na padaria de uma amiga (vou preservar o nome em respeito à família) e fiz as compras habituais. Quando cheguei no caixa, a proprietária falou: “Renato, você conheceu meu filho que morreu?”

No momento, fiquei sem ação, sabia que ela estava falando do Carlinhos que morreu jovem com 12 anos de idade. Engoli seco e por alguns segundos pensei no que falar, mas imaginei que dizer a verdade é sempre o melhor. Disse que o conhecia e certa vez na padaria, fui comprar um bolo para a minha filha e ele estava no balcão junto com seu pai e que tinha brincado comigo, estendido sua mão e dado muita risada.

Quando contei o episódio aquela mãe se surpreendeu e disse: “Ah, ele gostava de você, porque não era de muita conversa com clientes, mas acho que por você ser assíduo aqui achava sua fisionomia comum!”

Carlinhos era especial, tinha alguns problemas de saúde, confesso que não sei quais eram, porém o que podia notar é que seus pais o tratavam com muito amor, carinho e respeito, porém ao regressar de uma das minhas viagens passei na padaria e vi um cartaz: “Missa por alma do nosso amado Carlinhos será às 19h30 desta quinta, dia 8”.

Confesso que minha barriga gelou naquele dia. Descobri que Carlinhos havia passado por um inexplicável mal súbito, ele tinha problemas, teve complicações e não resistiu. Depois de dois dias internados acabou falecendo.

Aquilo foi uma flecha para o coração daquela mãe e hoje quando a vi olhando uma foto de celular do seu filho com seu irmão mais velho, logo às 7 horas da manhã, não consegui conter minhas lágrimas. Carlinhos usava uma camisa com a imagem de Nossa Senhora Aparecida e sua mãe cravou: “Parece um anjinho junto com o irmão dele!”

De fato, parecia mesmo. Nunca havia visto Carlinhos com um sorriso angelical daqueles. A foto parecia uma pintura e ver aquilo elevou ainda mais a minha convicção de que os pais jamais devem enterrar seus filhos, porque isso viola uma lei (que não está escrita, mas que existe) natural das coisas. A dor de ser perder um pai e uma mãe é incomensurável, mas perder seu próprio filho necessita de um desprendimento gigantesco para seguir vivendo neste mundo tão cruel e cheio de desigualdades.

O interessante em tudo isso é observar que diariamente quando vou à padaria fazer minhas compras acabo sempre conversando coisas corriqueiras com a proprietária que se tornou uma grande amiga. Ela sempre tem um sorriso no rosto, uma palavra de incentivo para que possamos vencer mais um dia, mas no fundo, depois do que vi hoje fico imaginando o tamanho da força que essa mulher e toda a sua família possuem, pois precisam superar diariamente este episódio tão triste.

A vida deveria ser mais doce, mais simples ou então nós mesmos deveríamos fazê-la assim, ocorre que em nossa sanha diária de tentar fazer com que nossas atividades deem certo acabamos não percebendo que temos que valorizar (e muito) aqueles que estão ao nosso lado. Que façamos isso ainda hoje e pelo resto dos nossos dias.

Renato Chimirri

Imagem de Vânia Raposo por Pixabay