
Nunca imaginei que um dia acordaria cercado por aparelhos, fios e monitores. Até aquele momento, Unidade de Terapia Intensiva (UTI) era apenas um lugar que eu conhecia pelas reportagens ou pelas histórias de outras pessoas.
Quando me vi ali, percebi que a UTI é um universo à parte, onde o tempo passa de uma maneira completamente diferente.
A primeira lembrança que tenho é do som. Não das vozes, mas dos apitos. Cada monitor parecia conversar em uma língua própria. Alguns disparavam um alerta, outros mantinham um ritmo constante, como se lembrassem a todos que a vida ainda estava ali, insistindo em continuar.
Eu não sabia exatamente que dia era. A luz nunca parecia apagar completamente. Às vezes era manhã, outras vezes noite, mas dentro da UTI isso fazia pouca diferença. O relógio deixa de ser importante. O que passa a contar é a próxima medicação, o próximo exame, a próxima visita.
Foi ali que descobri o valor de gestos que, do lado de fora, parecem pequenos. Uma enfermeira ajeitando o travesseiro. Um técnico segurando minha mão enquanto um procedimento era realizado. Um médico que, mesmo na correria, parava por alguns segundos para explicar o que estava acontecendo. Em um ambiente cercado por tecnologia, o que mais conforta continua sendo a humanidade.
Também aprendi a observar. Mesmo debilitado, percebia o trabalho silencioso daquela equipe. Enquanto muitos dormiam, eles continuavam caminhando de um leito para outro, verificando sinais vitais, ajustando medicamentos, respondendo rapidamente a qualquer alteração. Não havia espaço para distrações.
Mas a UTI também ensina sobre fragilidade
Em alguns momentos eu olhava para os outros leitos e imaginava as histórias que existiam ali. Pessoas de diferentes idades, profissões e sonhos dividindo o mesmo espaço, todas dependentes da mesma esperança de melhorar. Não importava quem era rico, pobre, conhecido ou anônimo. Dentro da UTI todos se tornavam apenas pacientes lutando pelo mesmo objetivo: sobreviver.
A saudade da família era talvez o sentimento mais difícil de suportar. As visitas pareciam durar apenas alguns minutos, mas eu passava horas esperando por elas. Um sorriso por trás da máscara, um olhar emocionado ou um simples “estamos esperando você em casa” tinham força suficiente para renovar a vontade de continuar.
Também houve medo.
Medo do desconhecido. Medo de fechar os olhos e não saber como seria o dia seguinte. Medo de depender completamente de outras pessoas para tarefas simples. A doença tira parte da autonomia, mas ensina algo que raramente aprendemos quando estamos saudáveis: aceitar ajuda não é sinal de fraqueza.
Quando finalmente deixei a UTI, percebi que quem entrou naquele setor não era exatamente a mesma pessoa que saiu. Levei comigo cicatrizes invisíveis, mas também uma nova forma de enxergar a vida.
Passei a agradecer por coisas que antes ignorava: caminhar sem dificuldade, tomar um café em casa, ouvir o barulho da chuva, abraçar quem amo. Descobri que a saúde não é apenas ausência de doença; é um privilégio que costuma passar despercebido até fazer falta.
Hoje, quando passo em frente a um hospital, meu pensamento é sempre o mesmo. Atrás das portas da UTI existem batalhas acontecendo em silêncio. Há profissionais fazendo o impossível para salvar vidas. Há famílias vivendo dias de angústia. E há pacientes que, mesmo sem conseguir falar, continuam lutando com todas as forças.
Se a UTI me deixou alguma lição, foi esta: a vida pode mudar em poucos segundos. E justamente por isso, cada dia comum é, na verdade, extraordinário.
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