
Velórios nunca foram eventos de alta relevância no calendário de vida de uma criança de 10 anos. A não ser, claro, que você seja arrastado para um, como eu fui, com a promessa implícita de que aprenderia algo profundo sobre a vida e a morte. Mas a única coisa que aprendi naquele dia foi o significado do verdadeiro pânico.
Lá estava eu, entediado, encostado numa parede, contando os azulejos da sala de velório, quando um homem misterioso surgiu do nada. Ele parecia cansado, como alguém que tivesse feito uma maratona, mas com a alma — o tipo de cansaço que eu, com 10 anos e zero preocupações além de brincar e assistir TV, ainda não conhecia.
— Aproveita a vida, menino — disse ele, num tom que misturava sabedoria e pesar. Passou a mão na minha cabeça, como se estivesse me abençoando, e foi embora. Não pensei muito naquilo. Era apenas mais um adulto com frases filosóficas enigmáticas.
Mal sabia eu o que estava por vir.
Quando meu pai ordenou que eu me despedisse do morto no caixão, fui relutante, é claro. Não tinha ideia de quem ele era, mas o protocolo dos adultos exigia isso. Olhei para o caixão, pronto para murmurar um adeus genérico, e quase desmaiei. Lá estava o homem! O mesmo que havia acabado de passar a mão na minha cabeça e despejar um mantra de “carpe diem” sobre minha infância.
Não preciso nem dizer que passei a dormir com as luzes acesas. Dormir, aliás, era só um conceito. E minha vida virou um festival de sustos imaginários e consultas no psicólogo, onde tentavam me convencer de que fantasmas não existem. “Como não existem?” pensava eu, com provas claras do contrário.
A reviravolta veio anos depois, numa conversa familiar qualquer, quando minha tia — bendita tia — mencionou casualmente que o tal falecido tinha um irmão gêmeo.
Ah, como a verdade tem o poder de aliviar e, ao mesmo tempo, fazer você se sentir um idiota. O homem que me abençoou no canto não era um fantasma. Era apenas o irmão vivo do morto, provavelmente exercendo um momento de sabedoria espontânea antes de voltar para o buffet de salgadinhos.
Hoje, consigo rir disso. Mas, honestamente, ainda olho de lado para qualquer pessoa que chegue perto de mim num velório. Vai que é outro gêmeo, né?
O Brasil não é um país para amadores, certo?
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