A Casa Amaldiçoada do Jardim Paulistano

ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO.

Dizem os mais antigos que uma casa construída nos anos 70 no final da Iwagiro Toyama, no Paulistano, era estranha. Uma tragédia se abateu sobre aquela moradia quando uma família inteira foi dizimada.

Eram quatro pessoas: pai, mãe e dois filhos, um menino e uma menina. Todos morreram no mesmo dia e na mesma hora, um 31 de outubro, dia de Halloween. Tudo aconteceu quando um temporal fortíssimo caiu em São Carlos.

A chuva provocou as famosas inundações na Baixada do Mercado. Rios transbordando, prejuízos para os comerciantes e aquelas coisas corriqueiras que já conhecemos e que infelizmente nenhum político consegue resolver.

Neste dia, uma descarga elétrica foi tão forte e acabou caindo justamente em cima da casa. A corrente desceu pela antena de TV e explodiu o aparelho. Para piorar, o pai mecânico tinha um pouco de gasolina que havia deixado dentro de um frasco perto da porta da cozinha. A força explosão fez com que o fogo se espalhasse e até o botijão de gás entrou na dança. Era tarde da noite, todos estavam deitados e ninguém conseguiu sair da casa.

Somente no outro dia os sacos com os corpos foram retirados e levados ao IML. A tragédia ganhou as manchetes em todos os locais. A residência ficou destruída, mas o proprietário, um homem que morava em SP, a reformou e perto do ano 2000 a colocou novamente em locação.

Passaram-se uns meses e a casa foi alugada. Uma família de libaneses foi morar no lugar. O filho havia vindo ao Brasil para um doutorado na UFSCar e trouxe seu pai e sua mãe. Os dois tinham vida estável, o pai era da indústria petrolífera, a mãe, uma ótima professora, e em São Carlos, os dois passaram a plantar uma bela horta naquele quintal.

Alguns meses depois as hortaliças passaram a ficar evidentes, frondosas, bonitas, prontas para serem colhidas. Karina, a mãe da família, comentou com Sadi, o filho, que faria a colheita no dia seguinte.

Quando levantou pela manhã e foi para a horta realizar a colheita deu um grito: “Corram aqui! Corram aqui!”

Sadi e seu pai Abdulah foram até a mãe e quando chegaram tiveram uma surpresa. Os canteiros estavam repletos de ratos, todos mortos, as hortaliças tinham sido “comidas” por eles ou então por algum outro animal.

A mãe irritada e chateada foi transportada para dentro da casa. Para acalmá-la, Sadi e Adulah resolveram leva-la ao Centro para tomar um café. Pararam na padaria Vovó Lúcia da 15 de Novembro e durante a bebida o assunto não podia ser outro. “Quem destruiu minha horta? Será que foram crianças? Alguém que não gosta da gente?”

Abdulah colocou panos quentes. Foram até o carro e voltaram para a casa. Quando chegaram na residência viram que havia uma janela aberta, coisa que não era costume deixar. Resolveram entrar rápido na moradia, abriram a porta e nada acharam na sala.

Foram até a cozinha. O primeiro a chegar foi Sadi. A cena foi dantesca novamente: ratos, muitos ratos mortos em cima da pia, da mesa, pelo chão, sangue, muito sangue, um cheiro insuportável tomava conta do local.

O libaneses, queridos pelos vizinhos pois eram gentis “toda a vida” ficaram sem chão. A família resolveu não falar nada e limpou o lugar, mesmo vomitando e tapando o nariz. Removeram os ratos e os levaram para um buraco que eles mesmos cavaram no fundo do grande quintal.

O clima era difícil. Ratos na horta, ratos na cozinha, medo, seria um ataque de que tipo? Intolerância? Não era possível, os libaneses recebiam presentes dos vizinhos, eram convidados com frequência para almoços e também apresentavam as delícias da cozinha típica do país para os são-carlenses.

Karina foi se deitar e deixou Abdulah e Sadi na sala. Eles olhavam para o movimento da rua Iwagiro Toyama e não sabiam o que fazer. Tiveram uma ideia: vamos colocar câmeras nos cômodos e ver quem está invadindo a casa. “Sim, pai! Boa ideia”, falou Sadi.

No outro dia, os técnicos instalaram o sistema de segurança. Por dois dias nada de anormal registrado. Olharam as filmagens, não viram nada, talvez quem estivesse aprontando as maldades tinha desistido.

Sadi acordou numa terça, precisava ir para a aula, e foi correndo escovar os dentes enquanto os pais dormiam tranquilamente. Sabe quando você está assonado? Então, Sadi abriu a pia, pegou a água ou que parecia ser água para passar no rosto, mas sentiu um gosto adocicado e olhou no espelho. “Por que diabos meu rosto está vermelho?”, perguntou.

Olhou para a pia a viu que estava coberta por sangue, a torneira jorrava litros e litros de sangue, sua escova de dentes foi coberta, ele cuspiu e gritou. O pai veio ao seu encontro e viu a cena, logo em seguida chegou a mãe.

Karina desmaiou. Foi acudida pelo filho e marido. Levada para o hospital, a pressão estava baixa.

Depois de se restabelecer, a família se reuniu em restaurante para decidir se deveriam sair da casa. O pai e o filho queriam deixar a moradia imediatamente, mas Karina não quis, achava que era o lugar deles na cidade e acreditava que tudo tinha um propósito. Pai e filho resolveram dar mais uma chance à mãe. Mas se novas manifestações surgissem eles iriam mudar de lugar.

O dia era 31 de outubro, conhecido como Dia das Bruxas, o Halloween. Foram para a casa, mais uma vez limparam tudo.

Karina preparou quibes com coalhada para o jantar, a família cantou, se abraçaram, ficaram felizes. O pai e a mãe resolveram ir dormir, Sadi viu o futebol na TV e por volta das 23h30 foi se deitar.

Escovou os dentes, dessa vez com água normal e sem sangue, claro que tudo o que havia ocorrido estava na cabeça dele e dos pais. Porém, um pouco mais calmo foi até o quarto. Deitou e depois uns minutos começou a sentir um cheiro forte.

Sadi se levantou e viu que o cheiro vinha da porta da sala, abriu-a e quando olhou na área notou uma grande quantidade de esterco, um cheiro forte, horrível, invadindo sua casa, foi olhar no corredor ao lado e notou em que volta da casa havia mais estrume.

Ele entrou e quando foi fechar a porta o susto veio: ela se bateu sozinha. Seu pai e sua mãe se levantaram e foram para sala. “O cheiro está insuportável? O que há Sadi?”

O estudante contou que era fezes de animais, ele tentava abrir a porta a todo custo e não conseguia. Nisso, os pratos que estavam de enfeite na sala começaram a se quebrar, a cristaleira explodiu e a TV exibia a seguinte mensagem: saiam de nossa casa!

A família, unida, foi até a cozinha. Quando chegaram no local foram surpreendidos por um ataque de facas, conchas, garfos, copos, tudo em cima deles. Alguns acertaram e feriram o corpo de Sadi que pegou uma forma para tentar se defender e arrombar a porta da cozinha.

A mesa começou a dar pulos e vozes maléficas diziam em coro: “SAIAM DA NOSSA CASA! AQUI NÃO É LUGAR DE VOCÊS!!”

Com muito custo, Sadi arrombou a maçaneta, teve passar pelo monte de esterco e abriu um caminho para o quintal. Seus pais correram e chegaram nos fundos. Quando saíram, notaram que as chamas começaram a tomar conta da casa e que no meio do fogo quatro sombras estavam abraçadas e rindo de maneira demoníaca para eles. As vozes diziam: “SAIAM DE NOSSO TERRENO, ESTA É UMA PORTA CONSAGRADA PARA O MAL!”

O fogo passou a ficar mais forte e Dona Pina, a vizinha, notou e acionou o Corpo de Bombeiros. Depois de alguns minutos os Bombeiros chegaram no lugar e apagaram o fogo. Um dos mais experientes que estava no incêndio contou que tinha participado do primeiro incêndio e que quando resgataram os corpos acharam diversos bilhetes escritos por algum desconhecido pedindo para que tudo fosse queimado ali, inclusive os corpos.

Os libaneses queridos pela vizinhança e que tinham perdido tudo receberam o carinho dos moradores e após algumas semanas estavam morando em um prédio nas imediações. Nele, nenhuma manifestação sinistra havia sido registrada.

A casa no Paulistano permanece queimada e o dono não sabe o que fazer com o imóvel.

Renato Chimirri

Imagem: Facebook