
Era véspera de feriado e o supermercado estava cheio. Carrinhos cruzavam os corredores, gente conferia preços, outros lembravam de última hora do pão, da cerveja, da sobremesa. No caixa, aquela impaciência tão comum de quem já terminou as compras, mas ainda não terminou a missão.
Eu estava na fila quando reparei no homem à minha frente. Um senhor bem vestido, algumas correntes de ouro no braço e uma garrafa de vinho entre as compras.
Chegou a vez dele.
A jovem que trabalhava no caixa pegou a garrafa para passar a compra. Em uma fração de segundo, ela escorregou.
Caiu.
E se espatifou.
O barulho de uma garrafa quebrando num supermercado tem uma capacidade impressionante de interromper o mundo. Por alguns segundos, parece que todo mundo olha.
Vinho espalhado pelo chão, cacos para todos os lados e uma funcionária que imediatamente tentou explicar que não havia problema. O supermercado substituiria o produto.
Era simples.
Ou deveria ser.
O homem, porém, ficou bravo.
Reclamou, elevou o tom e disse algumas coisas desagradáveis para a moça. Uma delas ficou na minha memória:
“Vocês ganham para isso e não prestam atenção no que fazem!”
A jovem tentou contornar a situação. Do outro lado, o colega ajudava a recolher os cacos e cuidar da sujeira maior.
Mas havia algo no rosto daquela funcionária que nenhum pano conseguiria limpar.
Constrangimento.
Foi então que pensei numa conta que ninguém faz quando está diante de um caixa de supermercado.
Quantas garrafas aquela moça já havia passado sem quebrar?
Quantas latas, caixas de leite, pacotes de arroz, sacolas de açúcar, produtos de limpeza, carnes, refrigerantes e compras inteiras já tinham passado por suas mãos naquele dia?
Talvez centenas.
Possivelmente milhares naquela semana.
Mas bastou uma garrafa cair.
Uma.
Nós somos estranhos nisso.
Raramente percebemos as centenas de coisas que alguém faz corretamente. Mas temos uma habilidade extraordinária para enxergar o único erro.
Ser caixa de supermercado talvez seja também exercer uma espécie de psicologia do cotidiano.
Quem trabalha ali encontra de tudo.
O cliente apressado. O que reclama do preço. O que esqueceu a senha do cartão. O que está atrasado. O que brigou em casa. O que teve um dia ruim. O que resolve descarregar sua frustração justamente sobre quem não tem absolutamente nada a ver com ela.
E há uma crueldade silenciosa nessa relação: quem está do outro lado do caixa quase nunca pode responder.
Também tem problemas em casa.
Também acorda cansado.
Também recebe notícias ruins.
Também sente dor.
Também se preocupa com dinheiro.
Também se irrita.
Também gostaria, algumas vezes, de mandar alguém às favas.
Mas precisa engolir.
Respirar.
E dizer:
“Boa tarde.”
Porque precisa do emprego.
Naquele dia, depois que a garrafa caiu, o medo apareceu imediatamente no rosto daquela jovem. Talvez não fosse medo da garrafa, nem do vinho desperdiçado.
Era aquele receio de quem trabalha atendendo o público e sabe que qualquer confusão pode virar reclamação, advertência ou problema com o chefe.
Então ela fez algo que milhões de trabalhadores fazem todos os dias.
Vestiu uma fantasia de coragem.
Continuou trabalhando.
Chamou o próximo cliente.
E a fila andou.
A garrafa foi substituída. O vinho foi limpo. Os cacos desapareceram. Poucos minutos depois, provavelmente ninguém mais naquele supermercado lembrava do acidente.
Eu lembrei.
Porque algumas cenas pequenas dizem coisas enormes sobre nós.
Empatia não está nos grandes discursos. Ela aparece justamente quando alguma coisa dá errado.
É fácil ser educado quando tudo funciona.
Quero ver quando a fila demora.
Quando o pedido vem errado.
Quando alguém se atrapalha.
Quando a atendente não encontra o preço.
Quando o sistema cai.
Quando uma mão cansada deixa uma garrafa escapar.
É nesses momentos que mostramos quem somos.
Aquela garrafa custava alguns reais e podia ser substituída.
A dignidade da moça atrás do caixa, não.
Talvez o homem das correntes de ouro nunca tenha percebido isso.
A garrafa caiu e se quebrou.
Mas, naquela tarde, não foi ela que fez o maior estrago.
Os cacos foram rapidamente recolhidos do chão.
A falta de gentileza demorou muito mais para desaparecer.









