
Pouca gente sabe que, antes do gramado, das arquibancadas e das partidas de domingo, aquele terreno era um cemitério.
Dizem que mais de quatro mil pessoas foram enterradas ali, muitas delas vítimas de epidemias que assolavam São Carlos no fim do século XIX.
Quando os túmulos foram removidos, quase todos aceitaram partir.
Quase todos.
Naquela noite, Gustavo decidiu cortar caminho pelo estádio. Eram 2h17 da manhã. O portão dos fundos estava entreaberto. Achou estranho, mas entrou.
O silêncio era absoluto.
Nem grilos.
Nem vento.
Apenas seus passos.
No meio do campo percebeu algo curioso.
A temperatura caiu.
Seu celular perdeu o sinal.
E um cheiro antigo, mistura de terra molhada, velas apagadas e flores secas, tomou conta do ar.
Foi então que ouviu.
Primeiro, um sino distante.
Depois outro.
Em seguida, dezenas de passos sincronizados.
Tac…
Tac…
Tac…
Como centenas de pessoas caminhando lentamente.
Mas não havia ninguém.
Até que uma névoa começou a surgir perto da linha do meio-campo.
Dentro dela apareciam sombras.
Homens usando chapéus do século XIX.
Mulheres com vestidos escuros.
Crianças de mãos dadas.
Nenhum deles olhava para frente.
Todos caminhavam de cabeça baixa.
Em silêncio.
Quando a procissão passou diante dele, Gustavo percebeu que ninguém tinha rosto.
Apenas pele lisa.
Como cera derretida.
Sem olhos.
Sem boca.
Sem nariz.
Mesmo assim…
Todos pareciam saber exatamente onde ele estava.
Uma das figuras parou.
Virou lentamente o corpo.
E levantou um braço.
Apontava diretamente para Gustavo.
Nesse instante, todas as outras pararam também.
Ao mesmo tempo.
As centenas de cabeças giraram em sua direção.
Sem rosto.
Mas olhando.
Então surgiu uma voz.
Baixa.
Rouca.
Como se viesse debaixo da terra.
— Ainda falta um…
O gramado começou a afundar sob seus pés.
Como areia movediça.
Mãos pálidas saíram do solo.
Primeiro uma.
Depois dez.
Depois centenas.
Seguraram seus tornozelos.
Seus joelhos.
Sua cintura.
Gustavo gritou.
Ninguém ouviu.
Na manhã seguinte, funcionários encontraram apenas seu celular, exatamente sobre a marca do círculo central.
A câmera ainda estava gravando.
O vídeo mostrava apenas o campo vazio.
Até o último segundo.
Quando uma fila de figuras escuras atravessou lentamente a imagem.
E a gravação terminou com um único sussurro:
— Agora… somos completos outra vez.
Desde então, alguns vigias juram que, nas madrugadas frias de inverno, é possível ver uma procissão atravessando lentamente o gramado do Rui Barbosa.
Se você contar as sombras…
Nunca encontrará o mesmo número duas vezes.








