Andar na região da Rodoviária: Quando o medo passa a fazer parte da rotina

Morar próximo à região da rodoviária de São Carlos, especialmente nas imediações da Rua Antonio Blanco, no Tijuco Preto, tem sido para muitos moradores um exercício diário de tensão. O problema não é recente. Há anos, quem vive ou circula pela região convive com abordagens constantes, insegurança durante o dia e à noite, furtos, assaltos e a presença crescente de pessoas em situação de vulnerabilidade social e usuários de drogas. O que antes era visto como algo pontual tornou-se uma sensação crônica de abandono.

O episódio registrado ontem apenas aumentou essa preocupação. Uma explosão em um poste de energia, ocorrida nas proximidades da Rua Antonio Blanco, no trajeto da rodoviária em direção ao cemitério, deixou diversas residências sem energia elétrica. A CPFL foi acionada, mas o problema ultrapassou a questão técnica. O medo tomou conta dos moradores.

E esse talvez seja o ponto mais grave: há pessoas que hoje têm receio até mesmo de sair na rua para verificar o que aconteceu em frente de suas próprias casas. Não apenas pelo risco envolvendo a rede elétrica, mas pelo ambiente de insegurança que se consolidou naquela região. Quando um cidadão sente medo de abrir o portão ou olhar a rua após um incidente, significa que algo muito maior já entrou em colapso.

É importante dizer que pessoas em situação de rua não podem ser tratadas como inimigas da sociedade. Muitas enfrentam dramas humanos profundos, dependência química, abandono familiar e ausência de políticas públicas eficazes. O problema é que o poder público, durante anos, parece ter tratado essa realidade apenas de forma paliativa. Nem os moradores se sentem protegidos, nem quem vive em vulnerabilidade recebe assistência suficiente para sair dessa condição.

O resultado é uma convivência marcada pela insegurança, pela deterioração urbana e pela sensação de que determinadas áreas da cidade ficaram esquecidas. A iluminação precária em alguns pontos, a circulação constante de usuários de drogas, a criminalidade oportunista e a ausência de presença efetiva do Estado criam um cenário onde o cidadão comum vive em alerta permanente.

A explosão do poste poderia ter acontecido em qualquer bairro. Problemas na rede elétrica fazem parte da realidade urbana. Mas em regiões onde já existe medo acumulado, qualquer incidente ganha proporções ainda maiores. O problema deixa de ser apenas uma queda de energia e passa a representar vulnerabilidade total.

São Carlos precisa discutir seriamente o que está acontecendo naquela área. Não basta apenas enviar viaturas de forma ocasional ou realizar ações temporárias. É necessário unir segurança pública, assistência social, saúde mental, combate ao tráfico e revitalização urbana. Porque enquanto o problema continuar sendo empurrado para depois, moradores continuarão vivendo atrás das grades de suas casas — não para se proteger do mundo lá fora, mas da própria sensação de abandono.