
Os números divulgados pela Guarda Civil Municipal (GCM) (você conferir nesta matéria do G1) de São Carlos em relação aos atendimentos envolvendo a Lei Maria da Penha no primeiro semestre de 2025 são alarmantes e, sobretudo, reveladores. Um aumento de 44% em comparação ao mesmo período de 2024 não é apenas um dado estatístico: é o retrato cru da violência que continua a rondar os lares e a vida das mulheres da cidade.
Passar de 819 ocorrências em seis meses para 1.179 no mesmo recorte temporal é uma escalada que deveria acender todas as luzes vermelhas possíveis. Não se trata apenas de medidas protetivas ou visitas preventivas – ainda que estas sejam ações fundamentais. Trata-se de uma evidência clara de que mais mulheres estão sofrendo, denunciando e precisando de proteção.
Fevereiro, com seus 386 registros, se tornou o mês com o maior número de atendimentos desde 2019, quando os dados começaram a ser disponibilizados. Esse recorde, longe de ser apenas um marco estatístico, deveria envergonhar e mobilizar toda a sociedade. Afinal, cada número representa uma vida marcada pelo medo, pela ameaça ou pela agressão.
É verdade que o crescimento dos atendimentos pode estar relacionado também ao fortalecimento de programas como a Patrulha Maria da Penha, que encoraja denúncias e aproxima as vítimas da proteção do poder público. Mas não podemos nos enganar: a violência existe, é recorrente, e não se resolve apenas com estatísticas e boas intenções.
O fato de maio ter concentrado “apenas” 101 ocorrências não significa que a violência diminuiu, mas talvez apenas que ela não foi registrada em toda a sua extensão. É sabido que muitas mulheres ainda silenciam, seja por medo de retaliação, dependência econômica ou pela descrença em mecanismos de proteção.
Diante desse cenário, a sociedade precisa fazer a sua parte. Não basta aplaudir o trabalho da GCM e da Delegacia de Defesa da Mulher – ambos, sem dúvida, essenciais. É urgente criar políticas públicas consistentes que ofereçam apoio psicológico, jurídico e social às vítimas, além de promover campanhas educativas contínuas que ataquem o cerne do problema: a cultura machista que ainda insiste em submeter mulheres à violência.
São Carlos, cidade reconhecida pela inovação e pelo conhecimento, não pode conviver passivamente com a barbárie dentro de suas casas. Cada ocorrência registrada é um grito por socorro. E esses gritos não podem ser ignorados.
A violência contra a mulher não é apenas uma estatística em relatórios policiais. É uma chaga social. E a cada aumento registrado, cresce também a responsabilidade de todos nós – Estado, instituições e cidadãos – em combatê-la sem tréguas.









