Quando a Avenida São Carlos tinha duas mãos e a vida parecia ter mais tempo

Quando a Avenida São Carlos tinha duas mãos e a vida parecia ter mais tempo
Quando a Avenida São Carlos tinha duas mãos e a vida parecia ter mais tempo

Era o tempo do famoso footing na Avenida São Carlos. Rapazes e moças passeavam, trocavam olhares, ensaiavam namoros. Alguns encontravam o amor da vida. Outros voltavam para casa apenas com a esperança de reencontrar, no próximo fim de semana, aquele sorriso que havia cruzado a calçada.

Houve um tempo em que a Avenida São Carlos tinha duas mãos. E não estamos falando apenas do trânsito. Tinha a mão de quem ia e a mão de quem vinha. A mão que cumprimentava, que apertava outra mão, que acenava do outro lado da rua. Tinha o abraço inesperado, a conversa na calçada, o encontro que não precisava ser marcado.

Era a São Carlos dos anos 80 e de boa parte dos anos 90. Uma cidade que parecia respirar em outro ritmo.

Olhe bem para esta fotografia.

Os carros disputavam espaço na avenida. Fuscas, Chevettes, Opalas, Corcéis e tantos outros automóveis que hoje são peças de coleção. O trânsito era intenso, as lojas estavam iluminadas, as calçadas tomadas por gente. Muita gente.

E havia algo naquela multidão que talvez seja a maior ausência dos nossos dias: as pessoas estavam verdadeiramente presentes.

Ninguém caminhava olhando para a tela de um celular. Ninguém precisava registrar o passeio para provar que tinha saído de casa. Ninguém estava preocupado com curtidas, seguidores ou notificações.

As pessoas simplesmente viviam.

Era o tempo do famoso footing na Avenida São Carlos. Rapazes e moças passeavam, trocavam olhares, ensaiavam namoros. Alguns encontravam o amor da vida. Outros voltavam para casa apenas com a esperança de reencontrar, no próximo fim de semana, aquele sorriso que havia cruzado a calçada.

O comércio era um espetáculo à parte.

As vitrines iluminadas convidavam à contemplação. As lojas tinham vendedores conhecidos pelo nome, fregueses habituais e histórias que atravessavam gerações. Comprar alguma coisa era também conversar, perguntar pela família, saber das novidades.

O centro era mais do que um lugar para fazer compras. Era o coração social de São Carlos.

As praças tinham bancos ocupados, conversas demoradas, crianças brincando e aposentados observando o movimento. A vida acontecia diante dos nossos olhos, não dentro de uma tela.

Não era um mundo perfeito. Nunca foi. Havia problemas, dificuldades, desigualdades e preocupações. Mas existia uma forma de convivência que, aos poucos, parece ter ficado pelo caminho.

No final dos anos 90, durante a gestão do prefeito Dagnone de Melo, a Avenida São Carlos passou por uma mudança importante. A antiga circulação em duas mãos deu lugar ao sentido único, da região da Praça Itália em direção ao Cemitério Nossa Senhora do Carmo.

A cidade mudou seu trânsito. E, com o passar dos anos, também mudou seus hábitos.

Vieram os supermercados maiores, os centros comerciais, os shoppings, a internet, as compras virtuais e as entregas na porta de casa.

A praticidade ganhou espaço. O tempo ficou mais curto. As distâncias digitais diminuíram, mas, paradoxalmente, muitos encontros se tornaram mais raros.

Hoje, parte do centro de São Carlos carrega sinais de um tempo diferente. Imóveis fechados, vitrines apagadas, pontos comerciais que já conheceram dias melhores. O movimento ainda existe, o comércio continua resistindo, mas aquela efervescência humana das noites de antigamente parece pertencer a outra cidade.

E talvez pertença mesmo.

Porque a São Carlos daquela fotografia não existe mais da mesma maneira.

Onde antes havia jovens passeando para encontrar outros jovens, hoje há pessoas que se conhecem pelas redes sociais. Onde havia bancos de praça e longas conversas, agora existem mensagens instantâneas. Onde havia a expectativa de encontrar alguém por acaso, hoje tudo parece depender de um aplicativo.

Ganhamos tecnologia, conforto e possibilidades que nossos pais e avós sequer imaginavam.

Mas será que, em algum momento, não perdemos também alguma coisa?

Talvez a saudade não seja exatamente dos carros antigos, das fachadas comerciais ou da avenida de mão dupla.

Talvez seja da sensação de pertencimento.

De sair de casa sem destino e saber que encontraria alguém conhecido. De caminhar sem pressa. De ouvir o barulho das conversas misturado aos motores. De sentir que a cidade era uma extensão da nossa própria casa.

Talvez seja saudade de quando a felicidade cabia numa volta pelo centro, num sorvete, numa conversa de esquina, num namoro começando ou num simples passeio de sábado à noite.

A fotografia guarda uma avenida São Carlos movimentada. Mas, para quem viveu aqueles anos, ela guarda muito mais.

Guarda a juventude que passou, os amigos que seguiram outros caminhos, os pais que envelheceram, os avós que partiram, os amores que ficaram apenas na lembrança.

Guarda uma São Carlos que ainda vive dentro de muita gente.

E há algo especialmente bonito e doloroso nas fotografias antigas: elas conseguem nos levar de volta a lugares que continuam existindo, mas aos quais já não podemos retornar da mesma forma.

A Avenida São Carlos continua lá. Os prédios, as esquinas, algumas lojas e tantas histórias permanecem.

Mas aquelas pessoas da fotografia? Onde estarão hoje? Quantas ainda caminham por nossas ruas? Quantas já se despediram desta vida? Quantas dariam tudo para voltar, nem que fosse por alguns minutos, àquela noite iluminada?

A verdade é que a avenida tinha duas mãos, mas o tempo sempre teve uma só.

E ele seguiu em frente.

Sem esperar por ninguém.

Talvez por isso esta imagem emocione tanto. Porque não mostra apenas o centro de São Carlos nos anos 80 ou 90.

Ela mostra um tempo em que éramos mais jovens, em que os encontros aconteciam sem aviso e em que a vida, mesmo com todas as suas dificuldades, parecia oferecer mais oportunidades para estarmos juntos.

No fundo, talvez não sintamos saudade apenas daquela São Carlos.

Sentimos saudade de quem éramos quando caminhávamos por ela.

E você? Quem gostaria de reencontrar, nem que fosse por uma única noite, numa caminhada pela antiga Avenida São Carlos?

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