Avô recorda caso famoso de lobisomem em São Carlos

Era uma noite chuvosa, e o vento gelado fazia as árvores do quintal dançarem. Os trovões estalavam ao longe, e os três netos de Seu Alfredo se espremiam no sofá da sala, aguardando o momento mais esperado do dia: as histórias de seu avô.

Com sua voz grave e pausada, Seu Alfredo ajeitou os óculos e sorriu ao ver os olhos atentos das crianças. “Hoje vou contar o caso do lobisomem da Vila Monteiro”, começou, aumentando o suspense.

Os netos entreolharam-se, já arrepiados.

“Era uma época em que a Vila Monteiro vivia no maior rebuliço. Diziam que nas noites de lua cheia, um lobisomem rondava a região. Não era história de pescador, não! Era coisa séria. E quem viveu lá naquela época, como eu, pode jurar que ouviu e viu coisas esquisitas.”

As crianças estavam de olhos arregalados, e Seu Alfredo prosseguiu:

“O danado começava sua ronda pela rua Marcolino Lopes Barreto. Quem morava lá já sabia: se ouvisse um arranhão na janela, nem adiantava olhar. Era ele, o lobisomem, com suas garras afiadas, tentando assustar os desavisados. As janelas de madeira amanheciam todas riscadas. Teve gente que até trocou as janelas por grades!”

“Mas, vô, ninguém viu ele arranhando?” perguntou Enzo, o mais curioso.

“Ah, menino, viu, sim. Uma vez, seu Durval jurou que viu pela fresta da cortina. Disse que era um bicho grande, de pelo escuro, com olhos brilhando como brasas. Depois disso, nunca mais dormiu com a janela aberta.”

Seu Alfredo fez uma pausa, observando o impacto de suas palavras.

“E não parava por aí. O lobisomem adorava uivar em frente da igreja São José. Era como se quisesse zombar do lugar sagrado. Aquelas noites eram de arrepiar. O som ecoava pelas ruas e deixava todo mundo trancado dentro de casa.”

“O senhor já ouviu o uivo, vô?” perguntou Isabela, abraçando uma almofada.

“Ouvi, sim, e não foi só uma vez”, respondeu, com os olhos distantes, como se revivesse a cena. “Era um uivo longo e triste, capaz de gelar a espinha até do mais valente. Teve até padre que fez vigília para tentar ‘abençoar’ o bicho, mas ele nunca aparecia quando havia gente do lado de fora.”

“E depois disso, vô? O que mais ele fazia?” insistiu Pedro, segurando a mão do avô.

“Depois de assustar na igreja, o lobisomem descia a rua da escola Arlindo Bittencourt. Diziam que as luzes dos postes piscavam quando ele passava. E quando as crianças chegavam no dia seguinte, encontravam pegadas enormes de patas no chão de terra batida.”

Os netos estavam vidrados, mas Seu Alfredo não parou:

“O lobisomem terminava sua jornada no matagal que ficava ali perto. Sumia no meio das árvores e só voltava na próxima lua cheia. Alguns diziam que ele era alguém conhecido da Vila Monteiro, um homem amaldiçoado, que durante o dia vivia entre nós como se nada tivesse acontecido.”

“Mas ninguém sabia quem era?” perguntou Enzo, já arrependido de ter feito a pergunta.

“Ah, muitos tinham suas suspeitas. Seu Joaquim, da quitanda, que era meio estranho e sumia às sextas-feiras de lua cheia. Dona Marli jurava que era o leiteiro, que sempre tinha arranhões nos braços. Mas, no fundo, ninguém nunca teve coragem de ir atrás para descobrir.”

Seu Alfredo parou, deixou o silêncio preencher a sala, e então concluiu:

“Sei que depois de um tempo, o lobisomem desapareceu. Dizem que foi embora, talvez pra outro lugar. Mas, vez ou outra, quando estou pela Vila Monteiro em noite de lua cheia, juro que ouço ao longe um uivo. Quem sabe ele ainda está por aí, escondido, esperando o momento certo para voltar.”

As crianças ficaram em silêncio, olhando pela janela. A chuva havia parado, e o som do vento parecia mais sinistro do que nunca.

“Agora vamos dormir, que já está tarde”, disse Seu Alfredo, levantando-se com um sorriso matreiro.

Os netos correram para o quarto, mas ninguém quis dormir com a janela aberta naquela noite. Afinal, nunca se sabe quando o lobisomem da Vila Monteiro pode voltar.