
Pouca gente que passa pela Fundação Educacional São Carlos (FESC), na Vila Nery, imagina que o local já foi um dos principais cemitérios da cidade e, posteriormente, um dos mais tradicionais palcos do esporte são-carlense.
A história remonta ao século XIX. Inaugurado em 1882, o antigo Cemitério da Vila Nery foi criado para substituir o cemitério que funcionava nas proximidades da Igreja de São Benedito, na região central da cidade. Com o rápido crescimento populacional e os desafios sanitários da época, o espaço tornou-se insuficiente em poucos anos.
Segundo registros históricos, o cemitério teria recebido mais de 4 mil sepultamentos em apenas oito anos de funcionamento. O elevado número de enterros foi impulsionado, principalmente, pelas epidemias que atingiram São Carlos no final do século XIX, dentre elas, a de tifo.
Em 25 de novembro de 1890, o cemitério foi oficialmente desativado, marcando também a inauguração do Cemitério Municipal Nossa Senhora do Carmo, que passou a receber os sepultamentos da cidade.
Embora tenha sido fechado oficialmente naquele ano, relatos históricos indicam que a área do antigo cemitério ainda era identificada como tal em publicações e almanaques da década de 1910.
Do campo de futebol ao complexo educacional
Ao longo das décadas, o terreno ganhou novos usos. Em 1932, passou a abrigar o Campo Rui Barbosa, que posteriormente se transformou no Estádio Rui Barbosa, um dos espaços esportivos mais conhecidos de São Carlos.
O local foi palco de diversas partidas e marcou gerações de atletas e torcedores são-carlenses. Mais tarde, a área recebeu instalações voltadas ao ensino e à formação esportiva, até se tornar a sede da Fundação Educacional São Carlos (FESC), como é conhecida atualmente.
Ossos, lendas e mistérios
Apesar dos translados realizados para o Cemitério Nossa Senhora do Carmo, a memória popular preservou histórias cercadas de mistério.
Uma das mais conhecidas foi registrada pela pesquisadora Ligia Temple Garcia Gatti, no livro Aspectos do Folclore São-carlense. A obra relata a crença de que, durante as noites de sexta-feira, uma procissão de figuras encapuzadas surgia à meia-noite, contornava o antigo campo de futebol e desaparecia sem deixar vestígios.
Segundo a tradição oral, essas aparições estariam ligadas às pessoas cujos restos mortais teriam permanecido na área após o encerramento das atividades do cemitério. Histórias semelhantes também eram contadas por trabalhadores da antiga Fábrica de Tapetes, localizada nas proximidades, que evitavam passar pelo local durante a madrugada.
Os relatos ganharam novos capítulos em 1995. De acordo com registros citados pela pesquisadora Célia, durante obras de drenagem realizadas no estádio, funcionários afirmaram ter encontrado restos humanos enterrados no terreno, incluindo partes de um esqueleto feminino.
Memória preservada
Passados mais de 130 anos do fechamento do antigo cemitério, o terreno continua despertando curiosidade entre historiadores e moradores da cidade. A transformação da área — de campo santo a estádio de futebol e, posteriormente, centro educacional — representa uma das passagens mais singulares da história urbana de São Carlos.
Mesmo com as mudanças ocorridas ao longo do tempo, a memória do antigo Cemitério da Vila Nery permanece viva em documentos, pesquisas históricas e no imaginário popular da cidade.
Fontes: Ocimar Pratavieira (in memoriam); Ligia Temple Garcia Gatti, autora de Aspectos do Folclore São-carlense; Júlio Roberto Osio, autor de A Morada dos Mortos; registros históricos sobre os 130 anos do fechamento do Cemitério da Vila Nery e abertura do Cemitério Municipal Nossa Senhora do Carmo.
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