Avanço das compras on-line muda o varejo e pressiona lojas físicas, avalia empresário da região

Compras pela internet tem mudado o destino de lojas
Compras pela internet tem mudado o destino de lojas

Empresário com imóveis comerciais locados para lojas em São Carlos, Ribeirão Preto e Franca relata mudanças no perfil dos locatários e afirma que já diversifica investimentos diante da transformação do varejo

O fechamento de centenas de lojas das Casas Bahia em meio à reestruturação financeira da companhia reacende uma discussão que vai muito além da situação de uma única empresa: qual será o futuro das grandes lojas físicas diante do avanço das compras pela internet?

Para um empresário do setor imobiliário que atua com locação de prédios comerciais em São Carlos, Ribeirão Preto e Franca, a transformação já pode ser percebida diretamente no mercado de imóveis. Com décadas de investimentos no segmento, ele afirma que algumas atividades que tradicionalmente ocupavam grandes pontos comerciais estão perdendo espaço, enquanto serviços ligados à nova economia começam a aparecer como potenciais locatários.

O empresário conversou com a reportagem sob condição de anonimato e ressaltou que não possui informações sobre a administração das Casas Bahia. Sua avaliação está baseada exclusivamente na experiência acumulada como proprietário e investidor de imóveis comerciais.

“Não tenho como falar da parte administrativa, isso não me compete, mas posso dizer pela minha experiência que as compras on-line realmente estão ganhando cada vez mais espaço. Essa é uma tendência e veremos o varejo em lojas físicas encolher ainda mais nos próximos anos”, afirmou.

Casas Bahia fecha 298 lojas em meio a reestruturação

O cenário citado pelo empresário coincide com uma profunda reestruturação do Grupo Casas Bahia. A companhia entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. Entre as medidas adotadas está o fechamento de 298 lojas, equivalente a aproximadamente 29% da rede, além de cortes no quadro de funcionários.

É importante, entretanto, separar os fatores. O avanço do comércio eletrônico, isoladamente, não explica a crise da Casas Bahia. A companhia enfrenta uma combinação de fatores na sua gestão que estão pesando neste movimento da empresa.

Mesmo assim, o movimento de redução da estrutura física chama atenção de quem acompanha o mercado de imóveis comerciais.

“Por que eu não comprei direto pela internet?”

Na avaliação do empresário ouvido pela reportagem, uma mudança fundamental está acontecendo no comportamento do consumidor. A facilidade para pesquisar preços, comparar produtos e receber mercadorias em casa diminuiu a necessidade de deslocamento até uma loja para determinadas compras.

“Você vai a uma loja comprar determinada coisa e, às vezes, não tem. Ou então você compra e o vendedor fala que vai entregar daqui a tantos dias. Daí o consumidor pensa: ‘Por que não comprei direto pela internet? Por que vim aqui?’. Outros já vão direto para a internet. Até material de construção você compra on-line atualmente”, disse.

Dados oficiais ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo a TIC Empresas 2024, pesquisa do Cetic.br, 61% das empresas brasileiras com acesso à internet pesquisadas afirmaram ter realizado vendas pela internet nos 12 meses anteriores. No segmento de comércio e reparação de veículos, o percentual chegou a 68%.

O levantamento também mostra como a venda digital deixou de depender exclusivamente de sites tradicionais. Entre as empresas que venderam pela internet, 81% utilizaram WhatsApp ou outros serviços de mensagens como canal de venda, 42% usaram redes sociais, 32% venderam por seus próprios sites e 30% por aplicativos. Os canais podem se sobrepor, já que uma mesma empresa pode utilizar diferentes meios para comercializar seus produtos.

Mudança já chega aos imóveis comerciais

Para quem investiu durante anos na construção de imóveis destinados a grandes empresas, a transformação do varejo também representa necessidade de adaptação.

O empresário afirma possuir prédios alugados para grandes redes, mas relata já ter enfrentado a saída de locatários de diferentes segmentos.

“Eu fiz minha carteira de negócios ao longo dos anos com prédios e investimentos na construção civil e aluguel. Tenho vários prédios que hoje estão alugados para grandes redes, mas posso dizer que já perdi alguns locatários. Isso aconteceu em diversos setores, passando pela área de saúde, construção e até alimentação. A internet está mudando muita coisa”, afirmou.

A percepção é de que a mudança não significa necessariamente o desaparecimento dos imóveis comerciais, mas uma transformação na forma como esses espaços serão utilizados.

Grandes áreas destinadas exclusivamente à exposição de mercadorias podem disputar espaço com operações híbridas, serviços, centros de distribuição, escritórios compartilhados, pontos de retirada, alimentação, saúde e negócios que utilizam a internet como parte central da operação.

Empresário começa a diversificar os investimentos

A mudança já fez o empresário rever a estratégia para os próximos anos. Segundo ele, a orientação dentro da própria família passou a ser diversificar os investimentos e procurar atividades menos dependentes do modelo tradicional de loja física.

“Disse aos meus filhos que agora estamos diversificando os investimentos. Continuo locando prédios, mas também busco locatários que estejam alinhados com a internet. Já tenho alguns coworkings funcionando em meus imóveis. É uma tendência: sai uma loja de determinado segmento e chega um serviço ligado à internet”, relatou.

Loja física não deve desaparecer, mas poderá ter outra função

Apesar do avanço digital, os números não indicam o fim imediato do comércio presencial. O varejo brasileiro, inclusive, terminou 2025 com crescimento de 1,6% no volume de vendas, segundo o IBGE, completando o nono ano consecutivo de expansão. O resultado, porém, ficou abaixo do crescimento de 4,1% registrado em 2024.

Isso reforça uma distinção importante: crescimento das vendas on-line não significa necessariamente desaparecimento das lojas físicas. Os dois modelos podem coexistir, especialmente por meio de operações chamadas de omnichannel, nas quais o consumidor pesquisa pela internet, compra pelo aplicativo, retira na loja ou faz o caminho inverso.

Para o empresário da região, entretanto, dificilmente o comércio físico permanecerá como é atualmente.

“Teremos outro comércio. As vendas serão diferentes. O comércio de rua vai resistir? Pode ser que sim, mas mudará muito”, afirmou.

Na avaliação dele, a próxima década deverá acelerar uma transformação que já está em andamento. Para proprietários de imóveis comerciais, comerciantes e investidores, a questão deixa de ser apenas se o comércio digital continuará crescendo, mas principalmente como os espaços físicos conseguirão se adaptar a um consumidor que já transita naturalmente entre a loja, o celular e a internet.

Lojas fechando preocupam
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