
Uma chuva de granizo atingiu pontos da Zona Leste de São Carlos na tarde desta segunda-feira (28), depois de um período de calor intenso no município. Moradores relataram a queda de pedras de gelo em bairros como São Carlos 8 e Santa Maria II e também em parte da região do Fagá.
O fenômeno ocorreu de maneira localizada e com intensidade moderada. Enquanto alguns bairros registraram granizo, outras regiões da cidade não tiveram a mesma condição.
Pouco antes da mudança no tempo, por volta das 15h15, São Carlos registrava temperatura na casa dos 35°C.
A ocorrência, apesar de chamar a atenção, é compatível com o cenário de forte aquecimento e formação de tempestades isoladas previsto para esta segunda-feira.
Calor intenso ajudou a criar ambiente para a tempestade
O IPMet/Unesp já indicava para esta segunda-feira tempo estável durante a manhã, mas previa aumento da nebulosidade e possibilidade de chuva durante a tarde, com manutenção das temperaturas elevadas.
Para São Carlos, o boletim divulgado pelo instituto apontava temperatura máxima de 35°C.
O calor intenso próximo à superfície funciona como uma importante fonte de energia para a atmosfera. Quando existe umidade disponível e condições favoráveis em níveis mais altos, parcelas de ar quente podem subir rapidamente.
Esse movimento vertical pode dar origem às chamadas nuvens cumulonimbus, enormes nuvens de tempestade capazes de produzir chuva forte, descargas elétricas, rajadas de vento e granizo.
Por que caiu granizo apenas em alguns bairros?
Esse é justamente um dos aspectos mais interessantes do episódio registrado nesta segunda-feira.
Uma tempestade de verão ou primavera não precisa atingir toda a cidade. Em situações de forte instabilidade, podem surgir células convectivas relativamente pequenas e muito intensas.
Dentro dessas nuvens existem fortes correntes ascendentes, chamadas de correntes de subida. Gotículas de água são transportadas para regiões da nuvem onde as temperaturas estão abaixo de 0°C e congelam.
Essas partículas podem continuar circulando dentro da tempestade, recebendo novas camadas de água super-resfriada e aumentando de tamanho.
Quando ficam pesadas demais para serem sustentadas pelas correntes ascendentes, caem em direção ao solo na forma de granizo.
O problema — ou a curiosidade — é que a região da nuvem capaz de produzir granizo pode ocupar apenas uma parcela da tempestade. Além disso, o vento transporta as pedras durante a queda.
Por isso, é perfeitamente possível ocorrer granizo no São Carlos 8 e no Santa Maria II, por exemplo, enquanto bairros situados poucos quilômetros adiante registrem apenas chuva, algumas gotas ou até permaneçam secos.
Chuva extremamente localizada
O comportamento observado também combina com uma característica das tempestades convectivas: sua enorme variabilidade espacial.
O radar meteorológico é justamente uma das ferramentas utilizadas para identificar essas células. O sistema do IPMet/Unesp mede a refletividade da precipitação em dBZ. Quanto maior a refletividade detectada pelo radar, maior tende a ser a intensidade dos alvos presentes na atmosfera.
Entretanto, o radar público consultado pelo São Carlos em Rede não disponibilizou, no momento da elaboração desta matéria, uma imagem histórica específica das 15h15 que permitisse afirmar a intensidade exata da célula que passou sobre a Zona Leste. Por isso, não é possível atribuir um valor de refletividade à tempestade desta tarde.
O próprio IPMet explica que radares meteorológicos também possuem limitações relacionadas à distância, altura do feixe e dimensão vertical das nuvens.
Cenário de tempestades isoladas já era esperado
Há outro elemento importante.
A PREVOTS, organização formada por meteorologistas e pesquisadores especializados em tempestades severas, apontava em sua análise convectiva a presença de grande quantidade de calor e umidade sobre partes do Sudeste.
A análise indicava que áreas localizadas de convergência poderiam funcionar como gatilho para células isoladas de tempestade durante a tarde em São Paulo. Segundo a previsão convectiva, algumas dessas tempestades poderiam produzir granizo isolado e rajadas fortes.
Isso ajuda a explicar por que uma tarde extremamente quente pode mudar rapidamente em uma pequena parte da cidade.
35°C e granizo não são contraditórios
Apesar de parecer estranho observar pedras de gelo caindo quando os termômetros estão próximos dos 35°C, não existe contradição.
A temperatura medida junto ao solo é muito diferente daquela encontrada vários quilômetros acima.
Uma nuvem de tempestade pode alcançar grandes altitudes, chegando a regiões da atmosfera onde as temperaturas são muito inferiores a 0°C. É lá que o granizo se forma.
Se as pedras forem suficientemente grandes ou atravessarem rapidamente a camada de ar quente existente entre a nuvem e o solo, não há tempo suficiente para que derretam completamente.
Assim, uma pessoa pode estar enfrentando calor intenso e, pouco tempo depois, observar gelo caindo do céu.
Primavera favorece mudanças rápidas
A própria Defesa Civil de São Carlos havia chamado atenção recentemente para a possibilidade de chuvas irregulares durante a primavera, inclusive com temporais bastante localizados.
Esse tipo de situação pode fazer uma tempestade atingir determinado bairro e praticamente poupar outro.
O episódio desta segunda-feira reforça justamente essa característica: depois de uma tarde de calor intenso, uma célula localizada foi suficiente para provocar granizo em pontos da Zona Leste de São Carlos.
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