Lobisomens existem? Talvez, sim!

A fazenda Água Santa, encravada nos rincões esquecidos da zona rural de São Carlos, sempre foi cercada por um silêncio estranho. Não era sossego. Era um silêncio pesado, sufocante, como se a própria terra guardasse um segredo.

Na noite de 23 de abril, esse silêncio foi quebrado por um uivo que pareceu rachar o céu. Os cachorros enlouqueceram, o gado estourou a cerca e um cheiro insuportável de enxofre invadiu as casas. Tonho, o vaqueiro mais antigo, jurou ter visto uma sombra enorme cruzando os campos, em pé, com olhos de fogo e garras longas como facões. No dia seguinte, foi encontrado sentado no alpendre, em choque, os cabelos totalmente brancos — ele que tinha apenas 45 anos.

Dona Lourdes, a esposa do capataz, foi a primeira a ver com clareza. Acordou de madrugada com um zunido nos ouvidos e, pela janela da cozinha, viu uma criatura devorando um bezerro ainda vivo. Tinha corpo de homem, patas traseiras de lobo, pelos negros e olhos amarelos que brilharam quando ela gritou. O monstro virou o rosto devagar e sorriu com dentes pontiagudos, antes de desaparecer no mato.

A história se espalhou pela redondeza e chegou à cidade. Foi então que chamaram o padre Damião, da paróquia de São Sebastião , conhecido por lidar com “casos difíceis”. Ele foi até a fazenda com cruz, água benta, terço e Bíblia. Rezou, benzeu, espalhou sal grosso. Disse que algo ali havia sido profanado. Que a terra estava amaldiçoada.

Mas na mesma noite, ele desapareceu.

Pela manhã, encontraram apenas seu rosário, pendurado na porteira do curral, e marcas profundas no barro: pegadas de um animal grande, mas que se levantava sobre duas patas de tempos em tempos. As galinhas estavam todas mortas. Os bois, imóveis, como se tivessem visto o próprio demônio.

Foi então que Zeca do Mato, o ancião da região, contou o que sabia. A fazenda fora construída sobre um antigo altar de sacrifícios. Dizem que o primeiro dono fez um pacto ali mesmo, em uma noite de lua cheia, pedindo fartura em troca de sangue. Morreu tragado pelo próprio pecado, mas não descansou. Voltou. Como lobisomem.

Hoje, quando a lua cheia se levanta sobre os eucaliptos da Água Santa, os moradores fecham as janelas, trancam os animais e rezam por dentro. Ninguém mais fala o nome do padre Damião em voz alta. Ninguém ousa ir até o galpão velho depois das 22h.

Porque todos sabem: ele ainda está lá.

Esperando.

Este é um conto, não se trata de realidade.