
Sou motoboy em São Carlos, e minha rotina é uma mistura de adrenalina, paciência (algum medo) e amor pelo que faço. Acordo cedo, faço o café e me preparo mentalmente para o dia que começa, sabendo que as ruas da cidade têm seus desafios próprios.
A primeira coisa que enfrento são as condições do trânsito. Dirigir por São Carlos exige atenção redobrada. Entre carros que param de repente e pedestres distraídos com seus celulares, é preciso estar sempre um passo à frente. Meu maior aliado? O retrovisor e o instinto que desenvolvi com o tempo. Preciso, por vezes, desviar de imensos buracos que existem nas ruas, as vezes fico até envergonhado quando vejo o tamanho das crateras e os políticos batendo em casa e pedindo votos. São incompetentes!
As entregas variam: às vezes é o almoço que precisa chegar quentinho, outras vezes são documentos importantes que não podem atrasar. Mas um dos maiores desafio mesmo é o clima. São Carlos é uma cidade onde o calor é de rachar durante o dia, mas uma chuva pode aparecer do nada e transformar as ruas em um verdadeiro teste de resistência. A cidade inunda do nada e fica muito perigosa…
Lembro de uma vez em que fui fazer uma entrega no Jardim Tangará. Estava chovendo forte, e o asfalto parecia um rio. Minha moto derrapou levemente em uma curva, mas consegui me manter firme. Cheguei ensopado, com a comida protegida, e recebi um sorriso de gratidão do cliente. Esses momentos compensam qualquer dificuldade. Ah, tem cliente mal educado, sim! Porém, a maioria é sempre cordial! Vou falar deles agora…
Também tem o lado humano da profissão. Encontro todo tipo de gente: aqueles que estão com pressa e quase arrancam o pacote da minha mão, mas também aqueles que me tratam com respeito e, de vez em quando, oferecem um copo d’água, uma senhora uma vez me deu bolo de cenoura com chocolate. Já cheguei a levar recados em bilhetes junto com presentes, e uma vez fui recebido por um cachorro gigante que parecia querer mais o pacote do que o próprio dono! Mas não fui mordido, o Rex estava preso…
Outra dificuldade são os imprevistos da vida de um motoboy. Já tive que parar para ajudar colegas com pneus furados e, claro, enfrentar os próprios problemas mecânicos da moto. Quem trabalha nas ruas sabe que uma moto é mais que um meio de transporte, é uma extensão de nós mesmos. A revisão precisa estar em dia, porque a gente depende dela para garantir o sustento. Não posso esquecer também dessas fiscalizações da Guarda Municipal. Não sou contra, mas acho que em alguns momentos há certo exagero, a situação está difícil para quem vive da rua.
Apesar de tudo, o que mais gosto no meu trabalho é a liberdade. Não troco a sensação de vento no rosto e a oportunidade de conhecer cada canto da cidade por nada. De certo modo, sinto que sou uma espécie de mensageiro moderno, conectando as pessoas através de cada entrega.
Se tem algo que aprendi como motoboy é que a vida é feita de trajetos e histórias. E, enquanto as ruas de São Carlos forem meu cenário, continuarei acelerando com responsabilidade, enfrentando desafios e construindo memórias. Afinal, ser entregador é mais do que uma profissão — é uma forma de viver.
Texto narrado por um motoboy ao jornalista Renato Chimirri que o transcreveu em primeira pessoa.
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