
Bem no coração da Vila Nery, em São Carlos, havia um jardim que fazia a vizinhança parar para olhar. Não era apenas pelas flores bem cuidadas — margaridas, girassóis, roseiras e lírios dispostos com uma harmonia que nem paisagista explicava —, mas pelo carinho que exalava de cada muda, como se alguém cuidasse daquelas plantas com mais que água e adubo: com esperança.
O dono daquele pedaço de encanto chamava-se Álvaro. Aposentado da CPFL, morava sozinho e cultivava, desde que sua esposa falecera, um hábito de tratar o jardim como se fosse uma extensão do coração. Todos os dias, ao amanhecer, lá estava ele: chapéu de palha, tesoura de poda, balde com água e uma garrafa térmica com café passado na hora. E era entre uma rega e outra que ele a via.
Ela passava pelas manhãs com a calma de quem não tem pressa de viver. Sempre com um livro em mãos, óculos de armação grossa e uma bolsa de tecido com estampas de folhas. Antes de entrar na escola estadual da região — ele nunca soube o nome —, ela se sentava por vinte minutos no mesmo banco da praça em frente ao seu jardim e lia. Lia com atenção. Com amor. Quase sempre era Carlos Drummond de Andrade.
Álvaro, homem simples, nunca tivera coragem de puxar conversa. Apenas observava do portão, torcendo para que ela levantasse os olhos do livro e notasse seu sorriso plantado entre os girassóis. Nunca aconteceu.
Foi então que ele teve uma ideia. Se ela gostava de poesia, talvez a poesia pudesse falar por ele. Nos dias seguintes, escolheu com o mesmo cuidado que escolhia suas sementes, um poema. Optou por algo de Drummond, é claro. Pintou uma placa de madeira com moldura de trepadeiras, escreveu à mão com tinta preta as palavras escolhidas:
“Haverá uma flor para cada encontro que o acaso permitir.”
— Carlos Drummond de Andrade
Colocou a placa bem no centro do jardim, entre os hibiscos e os cravos vermelhos. E esperou.
No dia seguinte, ela passou. Leu. Parou. Sorriu. E voltou os olhos diretamente para ele, que fingia podar uma roseira já perfeitamente podada.
— O senhor gosta de poesia? — ela perguntou, com uma voz que parecia ter saído das páginas que costumava ler.
Álvaro respirou fundo. Largou a tesoura. E respondeu:
— Eu gosto de quem lê poesia.
Ela riu. Sentou-se no degrau da calçada e começou a recitar Drummond de memória. Ele ouviu como quem rega uma flor rara. Foi assim que nasceu um carinho miúdo, tímido, mas sincero. Nas semanas seguintes, ela passou a parar ali todos os dias antes das aulas. Levava um novo poema, uma xícara de café e, com o tempo, a mão que oferecia os versos começou a se demorar mais sobre a dele.
E o jardim, que já era bonito, floresceu como nunca.
Este é um conto, portanto, uma ficção.









