Nem o demônio moraria nesta casa

Ninguém na cidade passava pela Rua das Amendoeiras depois das seis da tarde. A razão tinha paredes encardidas, janelas com trincos enferrujados e um portão que rangia mesmo com o vento mais tímido. Diziam que a casa respirava. Que o chão gemia à noite. Que as paredes transpiravam um líquido grosso, quase humano.

No começo, tudo parecia apenas mais uma lenda de bairro. Mas então vieram os desaparecimentos. Primeiro o carteiro. Depois um cachorro. Em seguida, uma criança. A prefeitura lacrou a porta com madeira e tinta vermelha, mas ninguém teve coragem de derrubar a construção.

Até que, numa terça-feira de outubro, Flávio decidiu entrar.

Flávio era cético por natureza. Fazia piada de assombração, ria de histórias de terror e achava tudo fruto de imaginação coletiva. Com uma lanterna fraca e um gravador de voz, pulou o muro, empurrou a porta com o ombro e mergulhou no escuro.

O cheiro era uma mistura de mofo, sangue seco e ferro velho. O ar parecia mais denso do que fora da casa, como se cada passo fosse dentro de uma piscina de fumaça invisível.

Andou pela sala. Móveis cobertos de poeira, um relógio parado às 3h16, quadros com imagens riscadas. A cozinha estava cheia de pratos sujos, como se alguém tivesse saído correndo e nunca mais voltado.

No corredor, as lâmpadas piscavam, mas não havia energia na casa. Era como se a própria luz decidisse acender e apagar, independente de qualquer fio.

Foi então que ele começou a ouvir os sussurros.

No início, baixos, como uma televisão ligada em outro cômodo. Depois, mais próximos. Mais claros. Vozes de diferentes tons, falando coisas desconexas.

“Volta…”

“Tá com fome…”

“Por quê? Por quê? Por quê?”

O chão cedeu um pouco debaixo dos pés dele. Uma fenda se abriu ao lado da escada, revelando um porão que ele jurava não ter visto antes. Contra qualquer instinto de autopreservação, Flávio desceu.

O porão não era um porão.

Era um corredor. E depois outro. E mais outro. As paredes pareciam se mover, o espaço dobrava e se retorcia como se a arquitetura fosse feita de carne e ossos. O cheiro de ferro aumentava.

Flávio começou a suar frio. O gravador caiu da mão dele. Tentou correr de volta, mas as escadas haviam sumido. No lugar, um longo espelho sujo, com o próprio reflexo dele sorrindo… mesmo sem ele sorrir.

Uma voz ecoou, desta vez grossa, profunda, vinda de todos os lados:

— Até o demônio foi embora daqui.

A frase gelou a espinha dele. No reflexo, o próprio Flávio começou a se decompor, como se apodrecesse de dentro pra fora. Os dentes amarelavam, os olhos afundavam, a pele se rompia em feridas. Ele gritou, mas o som não saía.

Num último ato de desespero, fechou os olhos e começou a rezar. Pai-Nosso, Ave-Maria, qualquer coisa que viesse à cabeça.

Quando abriu os olhos… estava em casa.

Na sua cama.

De dia.

O relógio do celular marcava 07h30.

Suspirou aliviado. Um sonho. Um pesadelo idiota.

Mas quando foi até o espelho do banheiro, encontrou algo escrito com a própria caligrafia dele:

“Eu fiquei. Você saiu.”

E na sala… sentado no sofá… estava ele mesmo.

Só que com os olhos ocos.

Sorrindo.

Este é um conto de terror, pura ficção.