‘Super El Niño’, o que vem por aí?

'Super El Niño', o que vem por aí?
'Super El Niño', o que vem por aí?/Crédito da imagem: X.

Em entrevista sobre o El Niño , o pesquisador Filipe Falcetta, do IPT, explica como o aquecimento do Pacífico intensifica secas e tempestades, analisa os impactos das mudanças climáticas e apresenta o papel do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cidades Resilientes a Inundações na construção de soluções para apoiar a gestão pública.

Com o advento do fenômeno natural El Niño — desta vez classificado como “Super El Niño” — surgem dúvidas sobre seus impactos e sobre o que a população pode esperar nos próximos meses. Para esclarecer essas questões, conversamos com o pesquisador Filipe Falcetta, da unidade Cidades, Infraestrutura e Meio Ambiente (Cima) do IPT e coordenador do CCD Cidades Resilientes a Inundações, centro cofinanciado pela Fapesp. Na entrevista, ele explica como o fenômeno atua, sua relação com as mudanças climáticas e o papel da ciência na construção de cidades mais resilientes.

Pergunta: O que é o fenômeno El Niño? Por que a mídia destaca o “Super El Niño”? Ele pode ser potencializado pela mudança climática?

Filipe Falcetta: O fenômeno El Niño é um evento climático global e natural, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera significativamente a circulação dos ventos e os regimes de chuva em diferentes regiões do planeta.

O termo “Super El Niño” é utilizado quando o aquecimento do Pacífico supera 2°C acima da média histórica durante vários meses consecutivos. Esse patamar indica uma probabilidade muito maior de ocorrência de eventos climáticos extremos.

O El Niño é um fenômeno natural. No entanto, entramos no que costumo chamar de “Era dos Extremos”. As mudanças climáticas provocadas pela ação humana elevaram a temperatura média do planeta. Assim, o El Niño passa a atuar sobre um oceano e uma atmosfera que já estão mais quentes, reduzindo a previsibilidade histórica e ampliando significativamente a intensidade de ondas de calor, secas e tempestades severas.

Pergunta: De que maneira esse fenômeno afeta a vida das pessoas no mundo e, em especial, no Brasil?

Filipe Falcetta: Os impactos do El Niño afetam diretamente a segurança das populações, a economia e a infraestrutura urbana.

Em escala global e também nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, o fenômeno favorece secas severas e perdas agrícolas. Na Amazônia, reduz drasticamente o nível de rios essenciais para a mobilidade e o abastecimento, isolando comunidades inteiras.

Já nas regiões Sul e Sudeste, ocorre o efeito oposto: aumenta a frequência de tempestades intensas e de chuvas extremas.

Um importante exemplo histórico foi o Super El Niño de 1983. Naquele ano, Blumenau (SC) enfrentou enchentes devastadoras e a cidade de São Paulo registrou, em 2 de fevereiro, 121,8 mm de chuva em apenas 24 horas — recorde para o mês de fevereiro até hoje —, provocando a paralisação da metrópole.

Hoje, porém, existe um agravante. Desde 1983, a urbanização e a impermeabilização do solo avançaram continuamente. O asfalto e o concreto impedem a infiltração da água, aumentando de forma significativa o escoamento superficial.

Na Região Metropolitana de São Paulo, os dados são preocupantes: dez das quinze maiores chuvas registradas em 24 horas desde 1961 ocorreram nas últimas duas décadas.

Em um estudo realizado na bacia do Ribeirão Eusébio, em Franco da Rocha, demonstramos a dimensão desse passivo invisível. Uma chuva de 75 mm hoje gera cerca de 440 milhões de litros a mais de escoamento superficial do que gerava em 1985. Isso equivale a aproximadamente 180 piscinas olímpicas adicionais despejadas diretamente no centro da cidade durante uma tempestade.

Em outras palavras, continuamos urbanizando bacias hidrográficas e, ao mesmo tempo, aumentando o volume de água que chega aos rios em menos tempo. Se uma chuva semelhante à de 1983 ocorresse hoje, as consequências seriam significativamente mais graves.

Pergunta: Qual é o papel de instituições de pesquisa como o IPT para enfrentar esses desafios? O CCD sob sua coordenação é uma dessas ferramentas?

Filipe Falcetta: Os impactos do Super El Niño de 1983 motivaram, no início da década de 1990, a adoção de grandes obras de controle de cheias, como os piscinões. No entanto, a infraestrutura cinza, baseada apenas em concreto, atingiu seus limites físicos e tecnológicos diante da atual crise climática.

O papel de um instituto de pesquisa aplicada, como o IPT, é liderar a próxima mudança de paradigma, aproximando a ciência de ponta das decisões públicas e apoiando a formulação de políticas públicas mais eficazes para enfrentar os desafios climáticos.

O CCD Cidades Resilientes a Inundações, cofinanciado pela Fapesp e coordenado por mim, nasce exatamente com esse compromisso. Mais do que um projeto de pesquisa, ele foi concebido como um ecossistema permanente de produção de conhecimento voltado à tomada de decisão. É um patrimônio construído para a sociedade.

Nesta primeira etapa, entre 2026 e 2031, nossa missão é contribuir para reduzir os impactos das inundações no Estado de São Paulo, com foco na Região Metropolitana.

O principal instrumento desse trabalho será a Plataforma ARCA (Aliança pela Resiliência das Cidades e das Águas), um modelo inovador baseado em gêmeos digitais das cidades. Esses ambientes virtuais permitirão simular diferentes cenários de intervenção, utilizando inteligência artificial multimodal, dados de sensores, informações hidrológicas e radares meteorológicos em tempo real.

A plataforma apoiará continuamente as etapas de diagnóstico, proposição de soluções, simulação, avaliação de resultados e tomada de decisão.

Nossa proposta representa a transição para o conceito de Cidades Esponja (Sponge Cities). Se, nos anos 1990, a prioridade era construir piscinões para armazenar a água, agora buscamos permitir que as cidades voltem a absorver, reter e desacelerar naturalmente esse fluxo, por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SbN), infraestrutura verde e florestas urbanas.

Já demonstramos a efetividade desse modelo na bacia do Rio Capivari, em Campinas, onde o mapeamento de alta resolução subsidiou as Resoluções Municipais SVDS nº 02 e nº 03/2023.

O CCD também atuará como um grande hub de inovação aberta, reunindo universidades como USP, Unicamp e UFABC, órgãos públicos estaduais, como a SP Águas, além de empresas e prefeituras.

Costumo dizer que “projetos são como rios: eles desviam, se adaptam e encontram obstáculos. O que não pode mudar é o rumo”. E o rumo do nosso CCD é promover transformação real, fortalecer a resiliência urbana e contribuir para a construção de cidades mais preparadas para enfrentar os desafios climáticos.

Em entrevista sobre o El Niño , o pesquisador Filipe Falcetta, do IPT, explica como o aquecimento do Pacífico intensifica secas e tempestades, analisa os impactos das mudanças climáticas e apresenta o papel do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cidades Resilientes a Inundações na construção de soluções para apoiar a gestão pública.
Em entrevista sobre o El Niño , o pesquisador Filipe Falcetta, do IPT, explica como o aquecimento do Pacífico intensifica secas e tempestades, analisa os impactos das mudanças climáticas e apresenta o papel do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) Cidades Resilientes a Inundações na construção de soluções para apoiar a gestão pública.

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