Nossa Senhora Aparecida da Babilônia: quando 10 quilômetros se transformam em um caminho de fé

Nossa Senhora Aparecida da Babilônia: quando 10 quilômetros se transformam em um caminho de fé
Nossa Senhora Aparecida da Babilônia: quando 10 quilômetros se transformam em um caminho de fé

Ainda era madrugada quando saí de casa. Nossa Senhora Aparecida da Babilônia, 15 de agosto.

São Carlos tinha aquele frio que quem mora aqui conhece bem. O tipo de frio que bate no rosto, endurece as mãos e faz qualquer pessoa sensata pensar duas vezes antes de abandonar o conforto de casa para enfrentar mais de dez quilômetros a pé.

Mas eu fui.

Não havia pressa. Não havia competição. Não existia a necessidade de chegar primeiro. Havia apenas uma decisão: caminhar.

Caminhar com força, com foco e, principalmente, com fé.

O destino era o Santuário de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia, mas talvez aquela peregrinação tivesse começado muito antes de meus pés tocarem a rua.

Eu precisava desanuviar a cabeça.

Queria algumas horas de paz. Queria deixar os problemas para trás, silenciar os pensamentos que insistem em nos acompanhar e me preocupar apenas com uma coisa muito simples: colocar um pé diante do outro.

E seguir.

Uma madrugada diferente pelas ruas de São Carlos

Logo percebi que não estava sozinho.

Pelas ruas de São Carlos, milhares de pessoas faziam o mesmo caminho. Era uma cena bonita de observar.

Gente de blusa tentando escapar do frio. Outros de camiseta de manga curta, aparentemente indiferentes à temperatura. Jovens, idosos, famílias, amigos.

E muitos carregavam um terço nas mãos.

Cada pessoa tinha seu ritmo. E, certamente, cada uma carregava também sua própria história.

Alguns talvez estivessem agradecendo.

Outros pedindo.

Alguns cumprindo promessas.

Outros simplesmente procurando um pouco de paz.

Porque ninguém consegue enxergar aquilo que o peregrino carrega por dentro.

Quando o asfalto termina, começa outro desafio

A caminhada avança e chega a estrada de terra.

Ali, o percurso muda.

Há terrenos mais tranquilos e outros mais difíceis. O corpo começa a sentir a distância. As pernas ficam pesadas. O frio da madrugada já não incomoda tanto porque o esforço aquece.

Em determinado momento, pensei que talvez não fosse conseguir.

É curioso como uma caminhada pode se parecer tanto com a própria vida.

Existem trechos em que seguimos facilmente. Em outros, tropeçamos. Há momentos em que enxergamos perfeitamente para onde estamos indo e outros em que só conseguimos olhar alguns metros adiante.

Foi justamente nos momentos mais difíceis que apareceu aquilo que talvez seja uma das maiores forças de qualquer peregrinação: o outro.

Meu amigo Zé estava comigo.

Parceiro de caminhada, foi também uma daquelas pessoas que, quando o corpo começa a pedir para parar, ajudam a mente a continuar.

Uma palavra.

Um incentivo.

Uma companhia.

E seguimos.

Passamos pelos trechos mais difíceis. Depois vieram os mais fáceis. E assim, passo depois de passo, aquilo que parecia distante começou a ficar perto.

O milagre no caminho de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia

Talvez alguém pergunte:

— E onde aconteceu o milagre?

Eu diria que aconteceu durante todo o caminho.

Não falo de um acontecimento inexplicável. Não houve clarão no céu. Não houve algo extraordinário diante dos olhos.

O milagre daquela madrugada foi outro.

Foi perceber milhares de pessoas caminhando na mesma direção, enquanto cada uma enfrentava silenciosamente suas próprias batalhas.

Foi encontrar força quando achei que não conseguiria.

Foi descobrir que alguém ao nosso lado pode nos emprestar coragem justamente quando a nossa começa a faltar.

Foi caminhar quilômetros e perceber que, enquanto o corpo cansava, a cabeça ficava mais leve.

O milagre foi chegar diferente de como parti.

Talvez seja justamente essa uma das manifestações mais bonitas da fé.

Ela nem sempre retira as pedras do caminho.

Às vezes, simplesmente nos dá forças para passar por elas.

A chegada ao Santuário da Babilônia

Então chegamos.

Depois de mais de dez quilômetros, frio, estrada de terra, cansaço e pensamentos, finalmente estava diante do Santuário de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia.

Conseguimos participar de uma das missas.

Naquele momento, a distância percorrida parecia ter outro significado.

As pernas cansadas estavam ali.

Os pés sentiam o caminho.

Mas havia paz.

E talvez fosse exatamente aquilo que eu procurava quando saí de casa ainda na madrugada.

Olhei para aquele lugar e pensei em quantas pessoas fizeram aquele mesmo percurso ao longo dos anos. Quantos chegaram ali agradecendo por uma graça. Quantos pediram pela saúde de alguém. Quantos caminharam por familiares. Quantos carregaram preocupações que ninguém mais conhecia.

E quantos, como eu, talvez tenham ido simplesmente atrás de alguns quilômetros de silêncio para colocar os pensamentos no lugar.

Existem caminhos que não são medidos em quilômetros

No mapa, a distância entre minha casa e o Santuário de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia pode ser medida.

São mais de dez quilômetros.

Mas existem distâncias que nenhum aplicativo consegue calcular.

A distância entre a vontade de desistir e a decisão de continuar.

Entre a inquietação e a paz.

Entre o medo de não conseguir e a alegria de perceber que conseguimos.

Naquela madrugada, atravessei ruas, enfrentei o frio característico de São Carlos, caminhei pela terra, senti o cansaço e pensei em parar.

Mas continuei.

Com meu amigo Zé ao lado.

Com milhares de peregrinos ao redor.

Com a fé indicando a direção.

Quando finalmente cheguei ao Santuário da Babilônia, compreendi uma coisa:

eu havia saído de casa para chegar até Nossa Senhora Aparecida da Babilônia. Mas, durante aqueles quilômetros, acabei fazendo também uma caminhada para dentro de mim mesmo.

E talvez tenha sido esse o meu milagre.

Não chegar ao fim sem sentir cansaço.

Mas descobrir que, mesmo cansado, eu ainda conseguia continuar.

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