
(Um conto surrealista com o delegado Antunes)
Era noite em São Carlos, e o céu pesado parecia esmagar as ruas com uma sombra azulada e opaca. O delegado Antunes recebeu a ligação: encontraram um cadáver no bairro Jockey Club, na rua Rio Amazonas. Imóvel vazio, sem sinais de arrombamento, sem sinais de luta — e o mais estranho: sem sangue.
Ao chegar, a cena parecia um quadro delirante: no centro de um quarto sem móveis, o cadáver de um homem de 35 anos estava sentado na borda de uma cama velha, completamente nu, os olhos abertos como janelas para lugar nenhum. A pele, pálida como vela derretida, parecia pertencer mais a uma estátua do que a um corpo humano. Nenhum ferimento, nenhum fio de sangue. Nada.
A luz da rua entrava pela janela quebrada e parecia hesitar em tocar o chão. O vento carregava um cheiro metálico, mas sem aquele peso fétido típico da morte. O cenário inteiro parecia ter sido montado não por mãos humanas, mas por algo que desconhecia as regras deste mundo.
Os primeiros levantamentos revelaram que o morto era Osmar de Alcântara Souza, um paranaense desaparecido há dois meses. Deixara Curitiba com poucas malas e uma frase enigmática: “preciso encontrar o que fui chamado para buscar.”
A casa, descobriram, estava fechada havia mais de um ano. Sem registros de aluguel, sem visitas. Nenhuma razão para Osmar estar ali — e muito menos morto, despido e exangue.
Enquanto a perícia fazia seu trabalho, Antunes saiu à rua para pensar. A iluminação pública falhava de tempos em tempos, e a rua Rio Amazonas parecia se alongar em um túnel sem fim. Um velho em pé na varanda de uma casa próxima, fumando algo que cheirava a folhas queimadas, disse sem ser perguntado:
— Às vezes, doutor… eles só levam o que importa.
Antunes ignorou o comentário, mas o guardou em algum canto da mente.
Naquela mesma madrugada, no conforto duvidoso de sua casa, Antunes rabiscou hipóteses em seu velho caderno:
• Ritual esotérico?
• Tráfico de órgãos sobrenatural?
• Colapso nervoso pessoal?
• Fenômeno além da compreensão?
No dia seguinte, revisitando imagens das câmeras de segurança, ele testemunhou o impossível: às 2h47, uma névoa espessa surgia do nada e envolvia a porta da casa — porta que, pelas imagens, nunca se abriu. Minutos depois, Osmar simplesmente aparecia dentro do imóvel. Nu, sereno, sentando-se na cama como se já soubesse que era seu lugar.
Sem carros. Sem testemunhas. Sem lógica.
Investigando a fundo, Antunes descobriu que Osmar se ligara a um grupo místico, os Irmãos da Travessia, que pregava a “libertação da carne” para atravessar as “fronteiras da existência”.
O delegado, homem de botas pesadas e pés no chão, resistia a acreditar em fantasias. Mas o caso desafiava até sua teimosia.
Num impulso quase suicida, voltou ao imóvel duas noites depois. Meia-noite em ponto. Só. A rua Rio Amazonas parecia um vácuo de som. Dentro da casa, o quarto estava frio, a cama ainda lá. No chão, um desenho de pó brilhante traçava a silhueta exata do cadáver.
Antunes se aproximou, hesitou, e murmurou no escuro:
— O que você encontrou, Osmar?
O pó vibrou levemente, formando quase um sorriso antes de se desfazer no ar.
O delegado recuou com o coração disparado, fechando o caderno com violência. De volta à delegacia, relatou o óbvio: morte sem causa aparente. Sem violência. Sem explicação.
O imóvel? Pertencia, soube depois, a uma mulher também paranaense, desaparecida anos antes, sob circunstâncias igualmente bizarras.
Oficialmente, o caso de Osmar foi arquivado como “óbito natural sem causa definida”.
Mas Antunes, mesmo nos dias mais céticos, evita passar pela Rua Rio Amazonas depois que o sol se põe.
Ele sabe — embora nunca admita em voz alta — que nem tudo o que existe se deixa explicar.
E que às vezes, a realidade se cansa de parecer racional.
Este é um conto, portanto não é realidade.









