Opinião: A tristeza pela morte de Ricardo Boechat

Ricardo Boechat foi um grande jornalista

Ricardo Boechat foi um jornalista tão gigante em suas palavras que as usava sem peso, por mais mordaz que pudesse ser a crítica que estivesse fazendo naquele momento. Numa assessoria que fiz, no ano de 2012, pude vê-lo num evento na capital e conversar com ele por alguns momentos.

Para um jornalista caipira, aqui do interior de SP, Boechat foi atencioso, e falou do papel de imprensa com altivez para as pessoas, aquilo ficou na minha cabeça. Discordei muitas vezes de suas opiniões no rádio e na TV, sobretudo quando mexia com minhas paixões particulares, mas jamais aventei que ele estivesse opinando a mando de alguém. Ao contrário, Boechat opinava e era contundente porque essa era a sua mais marcante característica. Um gênio das palavras!

Aos poucos fui me tornando seu ouvinte de todas as manhãs e ria de suas tiradas fantásticas no rádio, porque realmente quando vinham críticas, sobretudo a políticos, elas eram sagazes e feitas com a categoria de um Zico em campo, para falar do seu time de coração, pois o vi num vídeo com o também monstro sagrado Joelmir Beting que usava o manto do meu Palmeiras e Boechat estava com a camisa do Flamengo.

Era um prazer escutá-lo e vê-lo muitas vezes bater com classe, o que é sonho de todo o jornalista. O acidente aéreo desta tarde pegou um Brasil inteiro de surpresa, justamente porque matou aquele que mais se identificou nos últimos tempos com a expressão âncora, pois muitos rostinhos bonitos apareciam e aparecem na telinha para dar opiniões, mas nenhuma delas, pelo menos em minha opinião, com a competência de Ricardo Boechat.

Sei de uma pessoa que sentiu e muito a partida do jornalista, no caso,  o meu pai. Todos os dias, às 19h20, era sagrado em sua casa sintonizar na Bandeirantes e ver Ricardo Boechat desfilar sua verve no ar. Quando um assunto marcava o dia, o meu velho sempre proferia a frase: “Vamos ver o que o Boechat falará à noite! ”

Infelizmente, a noite chegou e hoje a voz do âncora mais competente da atualidade não estava lá, mostrando, para usar o velho jargão, que a vida é um sopro. Boechat fará uma falta enorme para a crônica, justamente porque era um cara, assim como eu, que veio do impresso e migrou para os meios eletrônicos. Boechat sabia como um jornal era impresso, como se confeccionava uma revista e ao mesmo tempo entrou para os meios eletrônicos com a competência habitual.

Para um simples repórter aqui do interior, a morte de Ricardo Boechat foi muito dolorida, porque senti que um grande nos deixou e a minha profissão ficou um pouco mais desguarnecida, justamente num meio onde tantos espertalhões se dizem jornalistas, tiram vantagem da informação ou então usam sua profissão apenas passear e conhecer resorts dos mais variados.

Cada um faz aquilo que lhe convém e Boechat fez da imprensa o seu sacerdócio. As pessoas poderiam discordar da sua opinião, mas certamente quando ele opinava, todos paravam para ouvir.

Pena, uma pena mesmo, que hoje não o ouviremos mais. Um dia triste para a imprensa brasileira!

Renato Chimirri