
Hoje, 21 de outubro de 2026, completo 50 anos.
Meio século de vida. Cinquenta anos de histórias, de encontros, de desencontros, de sonhos realizados e outros que ficaram pelo caminho. Uma data que, em outros tempos, talvez merecesse uma grande comemoração, um bolo, abraços, fotografias e aquela alegria quase obrigatória de quem chega a uma idade tão simbólica.
Mas não tenho vontade de comemorar.
Não é medo de envelhecer. Não são os cabelos brancos, as marcas do tempo ou a consciência de que a juventude ficou para trás. Nada disso me incomoda tanto quanto uma ausência.
Minha mãe não está mais aqui.
Ela partiu em 12 de outubro de 2024. Nove dias antes do meu aniversário. E, desde então, outubro deixou de ser apenas o mês em que nasci. Tornou-se também o mês em que uma parte de mim morreu.
É estranho como a vida funciona. Passamos a infância querendo crescer, a adolescência querendo conquistar o mundo e boa parte da vida adulta acreditando que ainda teremos tempo para tudo. Tempo para conversar, para visitar, para abraçar, para dizer aquilo que sentimos. Tempo para nossas mães.
Até que um dia descobrimos que o tempo não negocia.
Minha mãe esteve neste mundo durante quase cinco décadas da minha existência. Ela conheceu o menino que fui, o adolescente cheio de dúvidas, o homem que me tornei. Viu meus acertos, meus erros, minhas alegrias e minhas tristezas. Conhecia partes de mim que talvez ninguém mais conheça.
E agora, justamente quando chego aos 50 anos, ela não está aqui para me ver.
Existe uma tristeza muito particular em fazer aniversário depois que perdemos nossa mãe. Porque o aniversário não é apenas nosso. É também dela.
Foi ela quem viveu aquele 21 de outubro de 1976 de uma maneira que jamais poderei compreender inteiramente. Enquanto eu chegava ao mundo, ela me recebia. Enquanto minha história começava, a vida dela ganhava um novo capítulo.
Durante 48 anos, o dia 21 de outubro também pertenceu a nós dois.
Hoje, pertence à saudade.
As pessoas, naturalmente, vão me desejar felicidades. Algumas dirão que cinquenta anos são uma bênção. Outras lembrarão que ainda tenho muita vida pela frente. E todas estarão certas, cada uma à sua maneira.
Mas existe uma diferença enorme entre compreender racionalmente que a vida continua e conseguir sentir a mesma alegria de antes.
A saudade não respeita calendários.
Ela aparece quando menos esperamos. Numa música, num cheiro, numa lembrança aparentemente insignificante. Às vezes, chega durante uma conversa qualquer. Outras vezes, instala-se silenciosamente no meio da noite, quando a casa está quieta e não precisamos fingir que somos fortes.
E há dias em que ela simplesmente se senta ao nosso lado e permanece.
Hoje é um desses dias.
Aos 50 anos, percebo que envelhecer também significa aprender a conviver com cadeiras vazias. Com vozes que não ouviremos novamente. Com histórias que gostaríamos de contar a alguém que já não pode escutá-las.
É descobrir que podemos ter muitas pessoas ao nosso redor e, ainda assim, sentir a falta insubstituível de uma única pessoa.
Porque mãe não é apenas alguém que amamos. É também uma testemunha da nossa existência. Alguém que estava lá quando tudo começou, quando ainda não tínhamos memória, quando nem sequer sabíamos quem éramos.
Quando uma mãe parte, perdemos também uma parte viva da nossa própria história.
Talvez seja por isso que eu não goste mais de aniversários.
Não porque tenha deixado de gostar da vida, mas porque as datas felizes passaram a carregar uma tristeza que antes não existia.
O bolo pode ser o mesmo. As velas podem estar acesas. Os amigos podem estar presentes. Mas existe um abraço que ninguém consegue substituir.
E eu daria muito para receber esse abraço hoje.
Não precisaria de presente, de festa ou de grandes discursos. Bastaria mais um instante. Mais uma conversa. Mais uma oportunidade de ouvir sua voz.
Talvez eu nem dissesse nada extraordinário. Talvez falássemos sobre as coisas simples da vida, como tantas vezes fizemos. Porque, depois que alguém parte, descobrimos que a felicidade quase sempre morava justamente naquilo que parecia comum.
Um telefonema. Uma preocupação. Uma pergunta. Um conselho. A simples certeza de que nossa mãe estava ali.
Hoje completo 50 anos e, pela primeira vez, sinto o peso verdadeiro dessa expressão: meio século.
Não pelo número, mas por tudo o que ele contém.
Carrego comigo o menino de 1976, o jovem que sonhou com o futuro, o adulto que enfrentou a vida e o filho que, aos 48 anos, precisou aprender a viver sem a mãe.
Esse último ainda está aprendendo.
Talvez nunca aprenda completamente.
Não quero transformar meus cinquenta anos numa celebração artificial. Também não quero que a tristeza apague tudo o que vivi. Sei que minha história não terminou e que ainda existem páginas a escrever.
Mas hoje me permito sentir saudade.
Sem pressa de melhorar. Sem obrigação de sorrir para fotografias. Sem precisar demonstrar uma felicidade que não encontro dentro de mim.
Se há alguma coisa que esses cinquenta anos me ensinaram, é que o amor verdadeiro não termina quando alguém morre. Ele apenas perde a possibilidade do encontro e passa a morar nas lembranças.
Minha mãe não estará à mesa. Não cantará parabéns. Não me abraçará.
Mas estará presente de outra maneira: em tudo aquilo que sou, nas lembranças que guardo e na história que começou graças a ela.
Hoje faço cinquenta anos.
Não sei se quero bolo. Não sei se quero festa. Não sei sequer se quero ouvir parabéns.
Sei apenas que, entre todos os presentes que a vida poderia me oferecer neste dia, existe um que eu escolheria sem hesitar: mais cinco minutos com minha mãe.
Cinco minutos.
Para abraçá-la, agradecer por tudo e dizer que sinto sua falta.
E, sobretudo, para voltar a ser, por um instante, apenas o menino dela.
Porque o mundo pode me chamar de homem, de adulto, de cinquentão.
Mas, no fundo, existe um filho que ainda procura sua mãe.
E talvez essa seja a parte mais difícil de completar cinquenta anos:
descobrir que podemos envelhecer uma vida inteira, mas nunca ficamos velhos o suficiente para não precisar do abraço de nossa mãe.








